O Poetinha e os orixás

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Henrique Autran Dourado

No dia 5 de setembro de 2019 o jornal O Globo trouxe matéria estarrecedora, que comentei neste espaço. Na UFRJ, conceituada universidade brasileira, estudantes de música adeptos de certa Igreja se recusaram a cantar “Toadas de Xangô”, do ilustre compositor petropolitano Guerra-Peixe (1914-1993) – aliás, de formação católica, autor do “Hino do Colégio Nossa Senhora de Fátima”. Xangô é o orixá da justiça e do poderoso trovão nos cultos afro-brasileiros, e Guerra pensou nele como material de raiz por excelência. Era a fase nacionalista, sob a influência do movimento liderado por Mário de Andrade.

Também na música de concerto, Villa-Lobos, o “Índio de Casaca”, compôs sobre ritos indígenas, crenças de origem africana e… um “Magnificat”, de 1958. Francisco Mignone, autor de “Festa das Igrejas”, criou “Babaloxá”, de Babalorixá, que é o sacerdote nas religiões afro-brasileiras. Contemporâneo, meu amigo Ernani Aguiar, ateu, nascido na Petrópolis do Guerra, escreveu “Cantos Sacros para Orixás” – e três “Missa Brevis”. O paraibano José Siqueira e o cearense Eleazar de Carvalho eram diretores da Ordem dos Músicos do Brasil, fundada em 1960, organização que sofreu intervenção da ditadura em 1964. A diretoria foi defenestrada, Siqueira acusado de comunista, mas Eleazar era notório conservador. O golpe sobre a OMB foi parte da mordaça em sindicatos e organizações de classe (o interventor lá ficou por 40 anos!). Siqueira compôs o “Oratório Candomblé”, e o tieteense Camargo Guarnieri “Macumba para Pai Zuzê”, com poema de Carlos Drummond (o poeta era agnóstico e Guarnieri deísta, acreditava em Deus e ponto).

Na MPB, Caymmi (“Oração de Mãe Menininha”) e Caetano (“Xangô manda chamar Obatalá Guia”), devotos da umbanda, e Sérgio Ricardo (“Saravá, Ogum, mandinga da gente continua / cadê o despacho pra acabar”). Edu Lobo, de formação católico-jesuíta, é autor de “Arrastão” (“ê meu irmão me traz Iemanjá pra mim”). Margareth Menezes gravou de “Faraó, Divindade do Egito” ao álbum “Pontos de Umbanda”.

Vale lembrar o “Poetinha”, neste atual surto de retrocesso cultural que vivemos, fenômeno de que foi reflexo o incidente no coral da UFRJ. Vinicius de Moraes (1913-1980) foi diplomata, homem culto e erudito. Mas a paixão dele, além da poesia – preciosista na difícil arte dos sonetos! -, era a música popular, contando para isso com parceiros do naipe de Jobim, Toquinho e Baden-Powell, um fabuloso violonista e colega de copo e de samba. É da dupla o “Canto de Ossanha” (link ao final). Ossanha, ou Osanyin, é o orixá das ervas medicinais, representado no sincretismo por São Benedito. A gravação original teve arranjo do maestro Guerra-Peixe, por coincidência ou não admirador da cultura afro-brasileira. A obra foi concluída pela dupla na frente de Elis Regina, que a gravou e fez estourar nas paradas: “O homem que diz dou, não dá / porque quem dá mesmo não diz”. Do Poetinha e Baden são também “Lamento de Exu” e “Canto de Iemanjá”. Exu é o orixá da disciplina e da adivinhação, intermediário entre homens e deuses, enquanto Iemanjá é o orixá das águas e filha de Olokun, senhor dos mares.

A dupla Poetinha/Baden-Powell também nos deu “Canto do Caboclo Pedra-Preta” (“Pandeiro quando toca faz Pedra-Preta chegar / viola quando toca faz Pedra-Preta chegar”). “Canto de Xangô” celebra a entidade que vive nas pedreiras: “Sou filho de rei / muito lutei pra ser o que sou / eu sou negro de cor / mas tudo é só amor em mim / Xangô Agodô”. Uma curiosidade: foi o carioca Poetinha, já iniciado, quem levou Maria Bethânia ao terreiro da Mãe Menininha de Gantois, na Bahia. A cantora ingressou no candomblé em 1971 e descobriu-se filha de Iansã, uma das três mulheres de Xangô; de Ogum, o guerreiro, e de Oxóssi (Oxoce), orixá da caça. Profundamente enraizados na cultura baiana, os cultos afro-brasileiros fazem parte do dia a dia de incontáveis cidadãos brasileiros, e, como não poderia deixar de ser, fornecem matéria-prima para muitos artistas.

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Em Gil, Caetano, Caymmi e compositores baianos, em geral, a cultura afro-brasileira corre livre nas veias. A própria “axé music”, popularizada por Daniela Mercury e o grupo Olodum (de Olodumarê, orixá do destino), leva esse nome porque axé, força sagrada dos orixás, é uma espécie de bênção no candomblé. A dupla Poetinha-Baden passou a afinar com esse mundo. Parecem de real convicção os laços de Vinicius com o candomblé, ele que era conhecido como “o carioca mais baiano do mundo” e autoproclamado “o branco mais negro do mundo”, é tanto quanto verossímil que de fato e fé tenha se convertido. Em “Samba da Bênção”, o Poetinha pede, nome a nome, para que seja abençoado por uma longa série de pessoas conhecidas, para ao final pedir saravá (salve!), palavra de origem banta.

Já os chamados “eruditos” da música de concerto sempre viram nas culturas indígena e afro-brasileira material fértil para suas obras. Se comungavam ou não de uma ou outra crença, isso não vem lá ao caso, que é o fruir artístico. Interessa, sim, aos estudiosos, visando ao aprofundamento de suas indagações históricas e estéticas.  Universidade é lugar de aprendizado via pesquisa, produção, criação, questionamento. O que não se pode é deixar o ambiente acadêmico ser contaminado pelo obscurantismo ou fundamentalismo de qualquer espécie ou origem, seja religioso ou ideológico, e tornar-se uma pedra inamovível no caminho da cultura e do conhecimento.

Axé, Poetinha!

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