‘Nada será como antes amanhã’

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Henrique Autran Dourado

Esta música de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento parece ter sido feita para a ocasião. Após meses em confinamento, embaçam quaisquer previsões do cotidiano futuro, só devaneamos em uma dança espiral sobre o fim do vírus. Fim do vírus? Cientistas dizem que não, academias do mundo inteiro convergem para a ideia de que ele não será o exterminador do futuro, mas sofrerá um controle periódico, como a pólio e o sarampo. Após as esperadas vacinações em massa, imunizada boa parte da população, poderemos conviver com relativa segurança.

Não haverá um salto de paraquedas sobre a plenitude de uma liberdade que nunca tivemos (doces sonhares!). A transição para uma fase confiável de controle acontecerá gradualmente, e não por fórmula instantânea como o leite em pó e o macarrão usados e abusados no isolamento. Também não haverá uma bacanal pública com strip-teases de máscaras, ao menos para boa parte dos que não tiverem essa “vertigem de liberdade”, para usar uma expressão de Kierkegaard. Boa parte, eu incluído, continuará saindo de casa com máscara, álcool em gel no bolso, cuidados de praxe por bom tempo.

O que será de nossas vidas após essa tangente imaginária à curva que não achata nunca? Penso sob vários ângulos, iniciando pelo convívio social. No interior de SP, era comum as pessoas se cumprimentarem com a mão um a um, mesmo sem se conhecerem, ritual de cortesia. E o beijo, tão típico dos brasileiros, um para paulistas, dois para cariocas e três para mineiros (“para casar”), como ficará? Surgirão tipos mais seguros de gentileza. E para novos relacionamentos amorosos, serão as aproximações mais lentas, como no velho romantismo do passado? (Ao invés do baby-boom do pós-guerra, haverá uma silenciosa implosão demográfica?).

Alguns costumes devem permanecer, a preguiça e o conforto nos deixaram mais indolentes: palmas à ociosidade! O delivery será um deles! Supermercados, magazines e redes que vendem de parafusos a motocicletas, de bombons a vinhos de safra continuarão a se expandir no rastro de novos serviços para as classes que podem desfrutar dessas benesses – afinal, a concorrência e a demanda fazem parte do livre-mercado e se multiplicam em oportunidades, tanto que as revendas de motocicletas já não dão conta das encomendas dos entregadores!

A maneira de nos vestirmos poderá ser afetada. É comum falar com pessoas via zap e raro por videoconferência, como outro dia com o gerente de meu banco de São Paulo – ambos em casa, descabelados e de camisetas, “todos igual, nada es mejor”. Ficaremos menos exigentes com as aparências, vistas grossas ao inevitável sobrepeso do sedentarismo. Às mulheres, talvez fazer as sobrancelhas, pois “não precisamos mais usar aquela maquiagem”, cantou o Roberto – Caymmi, dengoso, “não pinte este rosto que eu gosto”.

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Ferro de passar, aos que podiam se dar ao luxo de ter empregada ou passadeira, deixou de ser prioridade: passar roupas é tortura (os homens descobrem a tarefa inglória a que só as mulheres, em histórica submissão, se dedicavam no passado). Morei anos nos EUA e não vi uma sequer dessas engenhocas – só lavanderias, o despejar da roupa na máquina, a moedinha; esperar acabar, retirar tudo, encher a secadora a moedinha; dobrar tudo ainda quente e meia-volta, volver.

Houve até campanhas virtuais contra o ferro de passar, pela aceitação da roupa não passada – uma delas com o lema “Passar roupa é inútil”, meme das redes (certamente, invencionice de homens ao dividirem tarefas). Haverá preferência por tecidos sintéticos e de fibras mistas e as confecções procederão à substituição gradual dos velhos por novos. As ferros que vêm de nossos bisavôs, pesadas geringonças de brasa ardendo até os elétricos, o museu.

Haverá receio de grandes ambientes coletivos, mostrou-nos a experiência recente da reabertura dos shoppings, cuja frequência após o primeiro dia apinhado de famintos por consumir caiu a números pífios. O novo já era velho, em um só dia perdeu o charme. Fechando a contabilidade, ao invés da esperada curva do vírus apenas a bancária foi achatada, nos saldos e bolsos dos consumidores.

Que será dos teatros, cinemas, shows, concertos, tudo em que é vital a presença do público, sofreguidão dos artistas? (Já tão prejudicados pela política cega e paupérrima dos órgãos da cultura oficial, relegando os bons cardápios para lazeres fúteis e inócuos). Sem ônus para os cofres públicos, que afinal somos nós que provemos, novos tempos não apenas ditarão modismos como imporão formas de o povo absorver entretenimentos medíocres; os bons artistas, entregues à sorte, tratados como trabalhadores desclassificados.

Em businness, o chamado “pá-pum”: “me perdoe a pressa / é a alma de nossos negócios” / “Pô, não tem de que / eu também só ando a cem” (Paulinho da Viola). Sem aquelas conversas extensas a que nos acostumamos no passado, coisas simples como papear, jogar prosa fora. Os assuntos de hoje não passam de apenas dois: vírus e política.

Esta última já padece de uma divisão acentuada, uma dicotomia radical: ou se é contra ou a favor, perderam-se todos os tons de cinza, o exercício do senso crítico pela coletividade. (Um fenômeno mundial, que já vinha crescendo antes de sua engorda na quarentena). Divisão maniqueísta, luta entre o bem e o mal em que um lado é o certo, e errado – quando não “comunista” – é quem discorda. A história, com sabedoria, haverá de expurgar esses vícios às trevas, nas asas do bom debate e das saudáveis disputas sem fanatismos.

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