Flagelo, ascensão e glória do samba

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Muito antes de Ernesto dos Santos, o Donga, gravar um samba pela primeira vez (“Pelo Telefone”, 1917), o jornaleco satírico recifense O Carapuceiro (“Periodico Semper Moral e Só Per Accidens Politico”), de tiragem irregular¹, em 1848 estampou esses versos de Frei Miguel de Sacramento Lopes Gama, dono, editor e único redator: “Aqui pelo nosso mato / qu’estava então mui tatamba / não se fazia outra coisa / que não a dança do samba”. Malvisto pela classe branca rica, o ritmo dos negros chegou a ser alvo das chefaturas: “Tava na roda do samba / quando a polícia chegô: / ‘vamo cabá co’esse samba / que seu delegado mandô’”.

Em 1878, um pouco “americanizado”, segundo observou Vasco Mariz em “A Canção Brasileira”², o samba já era menos rejeitado pela sociedade rica. Um cartaz no “skating-rink”, o ringue de patinação de um “dancing club” – tudo em inglês, soava mais fino – trazia o seguinte reclame (“Verdadeiro samba de cana pura!”): “Venha ao rink ver o samba / corra antes de patins / tome boas pitadinhas / e depois grite caramba!” A empresa Hadwin & Williams patrocinava e a própria fina sociedade, dourando seus preconceitos, amenizava sua culpa na segregação racial ao introduzir baianas com seus quitutes, quindins e requebros em seus locais de lazer – “macumba pra turista”, diria Mário de Andrade. Talvez porque as baianas vinham mostrar sua arte, e sendo “importadas” não iriam querer se imiscuir nos assuntos de outras plagas.

Até 1923, segundo Jota Efegê³, o que ele chama de ilegitimidade continuava, também no Rio, mas ao se “mostrar (…) em teatrinho ali armado, o samba com toda sua autenticidade”, trazendo grupos de baianas. O carioca assistia, então, ao “verdadeiro samba à baiana, bem diverso do que estava acostumado, adaptação deturpadora de ritmo e coreografia”. Ou seja, o samba “importado” da Bahia, desde os rinks introduzidos pelos recifenses nos idos de 1878, era “o verdadeiro”, mais palatável ao perfil daquela classe média carioca do que aquele outro samba nativo, mais fiel às raízes africanas – gênero, porém, que teria sido mal adaptado e era visto pelos puristas como corrompido.

As raízes do samba moderno fincam-se no Brasil colônia, com a chegada dos escravos negros. E, claro, nos lugares onde havia maior concentração deles, principalmente grandes centros como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. No Rio, até pelas suas características geográficas, população espremida entre morros, o samba urbanizou-se, enquanto em São Paulo sofreu influência até dos italianos e do caipira, ao par que na capital baiana conservou-se mais ligado à sua origem afro, porém de certa forma “sanitizada” pela mescla com o maxixe e o lundu. Daí essa tendência, antes da Abolição, de o samba ser “importado”, com direito a baianas e tudo o mais, como nos tempos dos “skating rinks” e “dancing clubs”. (Equação política do problema: o samba vindo de fora, com quindins, quitutes e requebros, era a novidade que ajudava a marginalizar o gênero carioca urbanizado, que, sofrendo os problemas locais, poderia ser um campo minado, um veículo popular que não agradaria as classes abastadas e autoridades).

Nos primórdios carnavalescos, os grandes ritmos cariocas, esclarece J. R. Tinhorão4, eram a marcha e o samba. Ele entende que esses gêneros foram responsáveis por botar em ordem o Carnaval, uma bagunça sem controle desde o entrudo, palavra vinda do latim “introitus”, um festejo pagão de origem greco-romana que chegou ao país com os navegantes vindos dos Açores, durante a colonização.  Detestado pelas autoridades e famílias “de bem”, o entrudo era algazarra e lambança, os festeiros atirando farinha, e, com espécies de grandes seringas, água suja e até mesmo urina em direção às pessoas5. Por outro lado, na marcha e no samba estribilhos de cepa africana mesclavam-se indistintamente aos cucumbis e afoxés, às modas sertanejas, polcas e bem-comportadas valsas.

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Chiquinha Gonzaga fez sua marcha “Ô Abre Alas” (1899) abrir caminho para um desfile mais organizado. O gênero ainda demorou um pouco para se consolidar, com instrumentações mais interessantes e músicos mais bem preparados. Chiquinha, que não era nenhum padrão de comportamento para uma moça da época, talvez fosse o meio de campo entre o bom-mocismo das elites e as classes mais baixas.

O rancho (beija-flor) teve origem junto com os “ternos” nordestinos das comemorações natalinas do fim do século 19. Misturava influências portuguesas e africanas que deram início às folias, que por sua vez culminariam, em 1930, no surgimento das escolas de samba. E o ritmo não era alegre e cheio de vida como o das marchas de Chiquinha; era, sim, mais indolente, arrastado, carregado, e deu origem à marcha-rancho. Com essa roupagem, as escolas foram mostrar-se nas avenidas, logo cedendo aos desfiles pasteurizados de luxo com estrelas da maior rede de TV, em 1965, gestada no raiar da ditadura. O samba galvanizou as classes média e alta e tornou-se evento do povo feito pelo povo, com o próprio suor e alegria, embora para deleite dos mais ricos.

¹”Em que dias certos sairá esse periódico? Sairá o pobrezinho quando Deus o ajudar, e conforme a generosidade que com ele quiserem ter os padrinhos, que são os Srs. leitores”. ²SP: Nova fronteira, 1985. ³”Figuras e Coisas da MPB”. Rj: Funarte, 2007. 4”Pequena História da Música Popular Brasileira”. RJ: Círculo do Livro, sem data.  5DOURADO, Henrique Autran. “Dicionário de Termos e Expressões da Música”. SP: Ed. 34, 2004.

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