Entre bilboquês e tranças

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O tempo passa. E passa muito rápido. É uma sequência infindável de segundas, terças, quartas, quintas e sextas-feiras que desembocam em sábados e domingos que chegam logo e findam em instantes. Nem dá para perceber, mas os anos passam e, de quando em quando, a gente percebe que está ficando velho.

Eu, particularmente, só percebi isso quando “me toquei” que as músicas que eu gosto estavam tocando apenas no “arquivo do rock” de qualquer estação de rádio. Além disso, poucos filmes que assisti, entre milhares, achei melhor que “Casablanca”, de 1942. Ainda gosto de ouvir “Always in My Heart”, trilha sonora de filme homônimo que ganhou o Oscar desse mesmo ano.

Mas não sou só eu que demoro a perceber o tempo passando. Nino Quél sempre dizia que, se um homem demorasse a se casar, quando tivesse filhos estaria totalmente desatualizado.

– Além de ficar com a perna toda encaroçada igual a um galo de São Roque, você vai ficar fora do mundo! – explicava o Nino, lembrando-se dos “galos de São Roque”, que eram apartados das galinhas em homenagem a esse santo e, quando estavam velhos, no dia de São Roque, acabavam se transformando em matéria-prima dos bolinhos de frango vendidos na festa.

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– Você só vai servir de galo de São Roque! – determinava Nino.

– Ah, mas eu ainda vou me casar! – retrucou um solteirão.

Nino, continuando com sua tese da desatualização do solteirão velho, dizia que, quando se casasse, já estaria fora da atualidade do mundo.

– Pois quando seu filho pedir um brinquedo, pensando em ganhar um videogame, você aparece com um bilboquê! – explicava a falta de sincronia com a realidade.

Imaginem só, em um mundo cheio de teclas, botões, telas sensíveis ao toque, controles remotos, computadores e celulares conectados na internet, o que uma criança vai fazer com um bilboquê? Vai ser motivo de “bullying” dos colegas, isso sim.

Mas não são só nesses aspectos que o tempo passa e a gente fica fora da realidade. São inúmeras as situações. Lembro-me de vovô Tonico que não aceitava que sua comida fosse feita em panelas de alumínio e muito menos cozidas em panela de pressão em fogão a gás.

– A comida tem de ser cozida vagarosamente, no fogo de lenha! – explicava vovô Tonico. – O gás é muito rápido e estraga as propriedades do alimento! – justificava.

– Um feijão cozido em panela de pressão não presta! – determinava. – Tem de ser cozido vagarosamente em um caldeirão! – explicava.

Quanto à panela de alumínio, era ainda mais crítico:

– A panela de ferro é boa, pois partículas de ferro entram na comida e vão fortalecer o organismo, enquanto que o alumínio é uma liga que tem venenos em sua composição! – rebatia quem defendesse as panelas de alumínio.

– E geladeira, seu Tonico?

– Isso não presta, pois todos ficam constipados! – explicava.

Pudera, vovô nasceu em 1881. De todas as modernidades só se interessava pelo seu rádio, principalmente para ouvir a “Voz do Brasil”, para saber o que acontecia no Brasil, e, na ZYL5, ouvir o programa da prefeitura de Tatuí, desta vez para criticar o Junqueira.

Deixando de lado essas coisas mais antigas, lembrei-me que, algum tempo atrás, eu, o Thiers e mais um amigo fomos almoçar em um restaurante à beira da estrada. Logo que chegamos, fomos atendidos por uma jovem e loira garçonete que havia feito uma bela trança em seu cabelo.

Esse outro amigo entusiasmou-se com a beleza da moça e, todo cheio de graça, falou:

– Ah, a menina de trança! – mexeu.

Mas ela nem ligou. Ele persistiu:

– Menina de tranças! Daquela música! – insistiu.

– Não conheço! – foi a resposta da moça.

– Aquela: “Menina de trança, não é mais criança…!” – cantarolou.

– Não conheço! – novamente a moça respondeu.

– Ah, é música do Antônio Marcos! – mais uma vez meu amigo explicou.

Quando percebi que a moça já estava cheia daquilo, perguntei sua idade.

– Tenho 19 anos! – respondeu.

– Hum! – exclamei. – Como é que você quer que ela conheça uma música que foi sucesso há 40 anos? – expliquei. – E o Antônio Marcos morreu há 15 anos! – completei.

Só para lembrar que o tempo passa, um dia destes fui novamente àquele restaurante e encontrei a mesma garçonete, agora promovida a caixa. Sem resistir, perguntei novamente sua idade:

– Eu já estou com 29 anos! – respondeu.

O tempo, inexoravelmente, já está passando para ela também. E a menina de trança não existe mais… “Menina de trança, não é mais criança/não quer me escutar/o tempo passando e eu só chorando/menina de trança…”.

Este caso está sendo republicado. O tempo passa e as coisas mudam. Hoje a garçonete de trança já tem 30 anos e o meu amigo Thiers já não está mais entre nós. Foi preparar uma orquestra para o Neves reger.


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