Deus criou o tempo e o homem quis controlá-lo

(Inventou o relógio, que um dia quis amarrar a música)

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Henrique Autran Dourado

Salmo 90: “Mil anos são aos vossos olhos como o dia que passou, e como a vigília da noite”. Para o homem, o tempo era “chrónos” (do grego, “ciência das medidas do tempo”), e para Deus, “kairós”, (o tempo qualitativo, de magnitude abstrata). E assim a humanidade sentia o tempo entre dias e noites se alternando. Mas tudo era muito vago, ele queria subdividir em frações esse longo tempo entre a luz e a escuridão. E demorou muito até serem concebidos artifícios para que galgasse os primeiros passos rumo à sua ambição.

O primeiro engenho para medir o tempo foi uma espécie de relógio de sol, no Egito do faraó Tutmés III (1479 a 1425 a.C.), e demorou um milênio para que Tales de Mileto aprimorasse a invenção. A clepsidra, medidor feito de um cone invertido por cujo ápice vertia um fio de água, era conhecida na Grécia e na Itália até por volta de 150 a.C. No século 2 d.C. surgiu o tipo hidráulico, que aperfeiçoou o de Ctesíbio (285 – 222 a.C.), aproveitando a engrenagem de Arquimedes (297-212 a.C.) para mover um mecanismo de rodas.

Os relógios de areia, chamados ampulhetas (dim. de “ampolla”), mediam tempos curtos pré-definidos. Em 1088, o chinês Han Kun Lien criou um engenho de 9 metros de altura movido a água, e em 1092 seu conterrâneo Sü Sòng empregou o recém-criado mecanismo de escape em seu modelo, de 10 metros de altura, no qual a água em movimento movia uma engrenagem com pás, que fazia girar o eixo do relógio. Recentemente, chegamos ao modelo atômico, cuja medição absolutamente precisa, a UTC (Coordinated Universal Time), determina de horas até frações de segundos para o mundo inteiro.

Mestre do período barroco, Quantz registrou que os andamentos musicais na época tinham como parâmetro os batimentos cardíacos de uma pessoa em estado de descanso, cerca de 80 b.p.m. (batidas por minuto). Daí surgiram as subdivisões, como 40 ou 120 b.p.m., mas foi apenas no romantismo que surgiu um artefato chamado metrônomo.

Para falar dele, precisamos voltar a Galileo Galilei, que em 1581 descobriu o isocronismo (do grego: o mesmo tempo) do pêndulo, que oscilam em movimentos iguais. Em meados do século 17, Christian Huyghens e George Graham adaptaram pêndulos a relógios, mas faltava o chamado escape, algo que provocasse impulso constante ao pêndulo, e este foi o grande avanço no mecanismo. Baseado no pêndulo, o primeiro metrônomo foi construído por Etieune Loulié, em 1696, e possuía calibragem dos andamentos, mas ainda não o escape para mantê-lo em movimento.

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A lista de inventores que aperfeiçoaram o metrônomo, a partir dessa época, é enorme: uma dúzia de nomes, de Suvert, em 1711, a Smart, em 1821. Em 1812 o relojoeiro Dietrich Winkel, de Amsterdam, já havia desenvolvido um pêndulo com dois pesos, um em cada extremidade do eixo, possibilitando marcações mais precisas mesmo em andamentos mais lentos. Utilizando-se da ideia de Winkel, em 1816 Johann Mëlzel (diz-se Maelzel, com contração das vogais) iniciou a fabricação de metrônomos portáteis que levavam seu nome – sofrendo à época fortes críticas por ter usurpado o modelo do holandês. Tenho um desses metrônomos dos tempos da manufatura do próprio Maelzel em Paris, uma beleza de adorno, e apesar de não muito preciso repete bem o “pa-pa”, vai e volta oscilando.

Maelzel, que já havia sido acusado de fraude, fascinou Beethoven, com quem colaborou em 1813 para uma composição chamada “A Batalha da Vitória”. Houve apresentações em que Maelzel roubava a cena, apresentando nos intervalos seu aparelho como um instrumento à parte (bem depois, Ravel e Villa-Lobos chegaram a empregar o metrônomo como instrumento de percussão).

Em 1814, Beethoven processou Maelzel por apropriação indébita de sua obra, reclamando inclusive da qualidade da transcrição musical empregada. Descreveu o inventor como “um homem rude e grosseiro, inteiramente desprovido de educação ou cultura”. Em 1856, o “Livro do Ano dos Fatos da Ciência e da Arte” (pág. 94), ao mesmo tempo em que qualificava Maelzel como “briguento, extravagante e inescrupuloso”, lamentava que “se ele possuísse cultura e consciência poderia ter prestado serviço à grande arte”.

Maelzel estabeleceu-se em Paris em 1816, e em 1817 transferiu-se para Munique. Meio que deslumbrado, Beethoven, já completamente surdo, reaproximou-se do inventor, e chegou a pensar em retirar de suas partituras indicações de tempo como “andante” e “alegro”, substituindo-as pela precisão numérica das subdivisões do metrônomo. O próprio compositor passou a anotar em suas partituras o que hoje se convencionou chamar “metronome markings”, como MM=68 e MM=120, por exemplo.

O metrônomo é um aparelho de grande utilidade para exercícios graduais de velocidade e técnica, uma espécie de ginástica, e suas gradações de tempo servem também como referência para os andamentos. Pessoalmente, sou contra o uso do aparelho para estudo de qualquer obra, que pode ser engessada com a repetição dessa prática. Tremo ao imaginar o que seria do primeiro movimento da “Sonata ao Luar”, de Beethoven, se ouço o inimitável Horowitz (link ao final).

O filme “Ensaio de Orquestra”, de Federico Fellini (1978), é uma alegoria política em que músicos e seus sindicalistas terminam por derrubar o poder do maestro, trocando-o por um enorme metrônomo. Após o fracasso da sublevação, o regente reassume, soberano, ensaiando em meio aos escombros do salão.

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