2020: o ano que ainda não terminou

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Henrique Autran Dourado

Tão, tão cedo, e já ouvimos falar do Réveillon que não vai ter, à parte os imprudentes grupos a dar os sete pulinhos da sorte nas ondas das praias. As vagas do mar continuarão indo e voltando, e os habitués se preparam para beijos, abraços e juras, apesar dos riscos. A passagem do ano no dia 31 de dezembro é uma convenção cristã, que ocorre em datas diferentes em outras religiões e calendários. Após o Réveillon, saudemos o Carnaval que não haverá, talvez soníferas reprises na TV, como nas novelas. E não há como prorrogar esse deus-dará para além do Carnaval: de hoje a tantos meses, a imprevisibilidade dá tom e compasso.

Mais comedidos, celebremos um Natal diferente, que poderá acontecer sem maiores rega-bofes nas pequenas famílias confinadas: uma ceia “en petit comité” com mínimos riscos, mesmo que entre poucos familiares. Os mais ricos e prudentes terão gordas festas on-line, têm cacife para tais repastos e tecnologias. Aos mais pobres, um frango com arroz, grandes famílias se amontoando em um cômodo – alijadas, por exclusão social, além dos banquetes, das toneladas de advertências despejadas sobre nós pela mídia.

Pelo calendário gregoriano, celebra-se o nascimento do Salvador no dia 25 do mês. Que venha a parusia, segunda vida do Senhor na Terra, conforme o apóstolo Paulo. Que seja logo, o mundo padece demais: a natureza que o Pai criou, as florestas, a flora e a fauna. E, Senhor, não nos esqueça, pecadores a sofrer as provações deste ano.

Não, Chico, não dá pra cantar “aqui na terra tão jogando futebol / tem muito samba, muito choro e roquenrol” (talvez só a parte do samba que diz “mas o que eu quero é lhe dizer / que a coisa aqui tá preta”). Futebol? Nas praias, ou bola de meia na periferia, por conta e risco. Samba? Dançam o roquenrol ou funk em bandos, despreocupados. Só não nos faltará uma parte da letra da música: o choro! (Não aquele das notas musicais, mas as lágrimas que molham os lenços de uma imensidão de famílias enlutadas).

Mas o Brasil deve continuar! Precisamos eleger nossos edis e alcaides, pois sem eles perderemos de vez as rédeas do futuro, em meio à desordem constitucional. Venceremos esta etapa da postergação do pleito por um mês, para novembro, e quem sabe então veremos a reta pandêmica ascendente se curvar, apesar das desobediências e inobservâncias – ingênuas ou estimuladas – a que assistimos.

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Há um lado positivo no provável escrutínio por voto manual, sem os botões que seriam apertados incontáveis vezes pelos cidadãos, entre eles os contaminados (luvas cirúrgicas para quase 150 milhões de eleitores estão fora de cogitação!). Aos mesários convocados, sonho de proteção por cabines acrílicas bem vedadas na frente, nos lados e em cima, saunas em tempos de calor. Um ar-condicionado ajudaria muito, mas quantos parcos municípios poderão arcar com o acrílico, quantas as raríssimas seções dotadas de refrigeradores de ar no país? Perfeccionismo impossível, desconfortos por um dia a poupá-los de maiores riscos.

Votaremos sem o tão sonhado biométrico, mas, mesmo assim, caberá sufragarmos com consciência, longe dos perigosos cantos das sereias e discursos ensandecidos. Com o voto manual, ao menos serão frustrados os velhos arautos de alegadas fraudes nas urnas eletrônicas, que justificavam suas futuras ou passadas derrotas eleitorais.

“Bolsas em oscilação constante, quedas como mote, IPCA a 0,32%, taxa Selic a inéditos 2%, forçando os juros ao consumidor a níveis mais suaves, porém ainda muito altos; acima da Selic o IGP-M, a 2,23%; um PIB (Produto Interno Bruto, índice de atividade econômica) projetado a -6,4% (um balde de gelo), tudo como um bomba em cujo relógio já foi dada corda”. E do dólar, com o piso além dos R$ 5, o que esperar? (Um dia já houve paridade entre as moedas…)

Trump faz bandeira de campanha sua guerra particular contra a poderosa China, que antes raspava nos 7% de PIB ao ano, e neste 2020 tem previsão do FMI para 1,2%. Pior ainda, se na guerra de factoides o Brasil continuar a seguir o líder, perderemos os parceiros chineses, responsáveis por mais de 1/3 dos nossos negócios internacionais.

Mas não nos rendamos ao popular “senta e chora”. Médicos de hoje não mais iludem e passam a mão na cabeça de pacientes desenganados dizendo “está tudo bem”, camuflando a verdade. Tal qual, um país que sobrevive com respiradores não pode ser enganado: o panorama não é alentador, é sombrio. A busca permanente por informações, a injeção de realidade e a visão crítica de um panorama em que, do lado pandêmico, sonha-se com promessas de vacinas que em breve serão bem-sucedidas, mas nem tão cedo aplicadas em larga escala. Há os vaivéns econômicos, um navegar sem rumo visando a um delirante mercado 100% livre e uma economia quase nada regulamentada, à moda do surrado “deixai fazer, deixai passar”, que ainda sobrevive mais de um século depois.

Decepciona inexistir correlação de forças para alguém apresentar planos, programas e caminhos a seguir, fora das moléstias ou sequelas políticas a serem enfrentadas com o debelo da melancolia – que, como disse o francês Gérard de Nerval (1808-1855), é passividade mórbida, “uma ‘doença’ que consiste em vermos as coisas como elas realmente são”.

Como partes de um todo, resta-nos prosseguir juntos e de cabeça erguida, lembrando Magrão e Sá na voz do Milton: “Nada a temer, senão o correr da luta / nada a fazer, senão esquecer o medo, medo / abrir o peito à força, numa procura / fugir às armadilhas da mata escura”.

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