“Cancelar” a arte russa?

Henrique Autran Dourado

Assistimos à “operação militar especial” (sic) comandada pelo presidente Vladimir Putin sobre a Ucrânia – país que, como tantos outros, fez parte da imensa União Soviética (1922 a 1991). Dois fatos fizeram da Ucrânia uma presa fácil para o expansionismo de Putin: primeiro, a revolução bolchevique iniciou-se na Rússia em 1917 e se alastrou sobre outros países; segundo, a mais recente independência e aliança de muitos países do bloco e seu ingresso na Otan deixaram a Ucrânia isolada. Mas não é da guerra, em si, que quero falar, muitas análises por grandes especialistas já foram feitas na mídia e na TV.

É natural a vitimização da Ucrânia, assim como a solidariedade de boa parte do mundo. E há um certo ódio, algumas vezes mais incisivo, outras latente, ao “povo invasor”, quando na verdade quem invade a terra de Zelensky são Putin e suas forças armadas. Essa súbita rejeição a um povo em boa parte adverso – 49%, segundo o censurado Novaya Gazeta – ao massacre no país eslavo tem atingido às vezes o que de mais precioso a Rússia deu para o mundo: sua arte, do teatro ao cinema e balé, da música à literatura. Quando se “cancela” uma obra, um autor, perde também quem for privado de parte do melhor da criação universal.

É importante lembrar o que a Rússia nos deu de tão importante em sua monumental produção artística. Resumindo, penso logo nos instrumentistas, como o gênio do violino David Oistrach (1908-1974), que nasceu em Odessa, então do Império Russo (1721 a 1917) e hoje parte da Ucrânia. Ou mesmo Nathan Milstein (1904-1992), que tive o grato prazer de ouvir em recital (Sonatas e Partitas solo de Bach) em Boston, no final dos anos 1970. Milstein nasceu na mesma Odessa de Oistrach, enquanto o virtuose Jasha Heifetz (1901-1987) veio ao mundo em Vilnius, capital da Lituânia, na época sob o Império Russo. O mestre Piotr Stolyarsky (1871-1944) nasceu em Lypovetz, do governo de Kyiv, hoje capital ucraniana. O mais recente Mstislav Rostropovich (1927-2007), violoncelista, nasceu em Baku, capital do Azerbaijão, república da União Soviética. O lendário pianista Vladimir Horowitz (1903-1989), sedutor de multidões cujo retorno ao Carnegie Hall teve imensas filas para ingresso – levando o povo a pensar que seria um show dos Beatles -, é também natural de Kyiv, hoje capital da Ucrânia. E a lista é interminável!

Já os compositores russos são parte do que há de melhor na música de concerto mundial de dois séculos: Pyotr Tchaikovsky (1840-1893) nasceu na pequena Votkinsk, em Vyatka, Udmurtia, perto de Moscou, capital da Rússia. É autor, entre sinfonias e dois belos concertos, para violino e piano – este um dos mais populares do instrumento -, e hoje dá nome a uma das maiores competições para instrumentistas. Modest Mussorgsky (1839-1881), autor de Quadros em uma Exposição, que foi executada até em versão rock pelo grupo Emerson, Lake & Palmer, nasceu em Karevo, 400 km ao sul de São Petersburgo. Dmitri Shostakovich (1906-1975), talvez um dos maiores compositores do século 20, é peterburguês, logo russo. Já Sergei Rachmaninof (1873-1943), autor de algumas das mais difíceis peças para piano e repertório de dez entre dez virtuoses do instrumento, nasceu na Moldávia, hoje república que faz fronteira com a Ucrânia e a Romênia.

É o suficiente para vermos que boa parte dos grandes virtuoses ditos russos do violino, piano ou violoncelo não são nascidos na Rússia – curiosamente, são originários da hoje Ucrânia, e em geral os maiores compositores são nascidos na Rússia. Diz-se genericamente que todos são russos devido ao longevo Império (1721-1917) e à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1922-1991), que não é sinônimo de Rússia. É impossível generalizar uma vastidão territorial dividida, mantida sob força por duas vezes e hoje separada e independente. Uma comparação anedótica seria dizer que o uruguaio de Tacuarembó Carlos Gardel – antes tido como argentino -, seria brasileiro, pois seu país foi Província Cisplatina do Brasil Português.

No teatro e na literatura, Anton Chekhov (1960-1904) é autor de “Tio Vânia”, “O Jardim das Cerejeiras” e diversas belas peças. Grande contista e dramaturgo, Chekhov veio à luz em Tagenrog, cidade portuária ao sul de Moscou, Rússia, enquanto Fyodor Dostoevsky (1821-1881), autor de “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov”, era um autêntico moscovita. Lev Tolstoy (1828-1910), autor de uma obra-prima universal, “Guerra e Paz”, e a belíssima novela “Anna Karennina”, é também russo. No cinema, Sergei Eisenstein (1898-1948), de Riga, capital da Letônia, é autor de filmes memoráveis, como “Encouraçado Potemkim” e o épico “Alexander Nevsky”.

No caso, esses artistas são considerados russos por terem nascido ainda no Império Russo ou na União Soviética. Recentemente, com relativa frequência, tem surgido um temeroso “cancelar” de uma peça, um concerto, um balé russo; nos dicionários, o mais próximo desse “cancelar”, pode ser lido como suprimir. “Cancelar” um artista é tão assustador que lembra Stalin e seu ministro da propaganda Zhdanov mandando apagar pessoas expurgadas do poder ou desaparecidas, vivas ou mortas, nas fotografias. Mariupol, cobiçada pelo exército de Putin, chegou a se chamar Zhdanov por mais de 40 anos, em homenagem ao censor-mor.

Que cheguem logo ao fim esta guerra e com ela essa censura artística enrustida; há que se defender a vitória da Ucrânia sem que sejam perpetradas injustiças contra a arte universal de mais de um século e um povo amigo e carinhoso.

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