
Da reportagem
A cabeleireira de Tatuí Cilene Inoki transformou a própria experiência com o câncer de mama em um projeto solidário que vem ajudando mulheres em tratamento oncológico a recuperar a autoestima.
Ao lado da irmã, a costureira Edilene Carriel Moraes, ela passou a confeccionar bonés com cabelos produzidos tanto com fios naturais doados quanto com os próprios das pacientes, oferecendo todo o trabalho de forma gratuita.
A iniciativa surgiu em 2024, após Cilene receber o diagnóstico da doença, no dia 15 de outubro. Com 25 anos de atuação na área da beleza, ela relata que um dos momentos mais difíceis foi lidar com a possibilidade de perder os cabelos durante o tratamento.
“Fiquei muito desesperada, não queria perder meus cabelos. Cheguei a cogitar com o médico de não fazer o tratamento, mas ele falou que, se eu não tratasse, estava assinando minha sentença de morte”, contou.
Após ser convencida pela família e pelo médico sobre a importância da quimioterapia, ela decidiu iniciar o tratamento. Antes disso, teve a ideia que daria origem ao projeto. Com cabelos que possuía guardados no salão de uma época que usava “mega hair”, pediu à irmã que adaptasse os fios em um boné.
Assim nasceu o primeiro modelo, desenvolvido com a aplicação de cabelo em tiras de velcro fixadas ao acessório. Pouco tempo depois, durante a segunda sessão de quimioterapia, Cilene perdeu quase todos os fios.
“No dia seguinte ao tratamento, quando fui tomar banho, meu cabelo caiu praticamente todo. Bateu um desespero e chorei, mas saí do banho, sequei e escovei o que ainda tinha, coloquei o boné e fui trabalhar”, relembrou.
Segundo ela, o acessório teve papel fundamental durante o período. “O boné me fez muito bem, não me fez desistir de viver e nem de trabalhar. Eu não queria usar lenço ou turbante, porque não queria que as pessoas olhassem para mim com pena”, explicou.
Cilene contou que, mesmo em tratamento, manteve a rotina no salão que já estava com a agenda completamente fechada, pois era final de ano, e atendeu todas as clientes, muitas delas sem saberem da doença dela.
Com o passar do tempo, a ideia se transformou em um projeto social. Atualmente, mulheres em tratamento podem procurar diretamente Cilene para receber o boné com cabelo.
A cabeleireira conta que o utensílio não é demorado para fazer. Em alguns casos, Cilene consegue usar os próprios cabelos da paciente na confecção, mas, em outros, são usados fios provenientes de doações, dependendo da quantidade e do comprimento de cabelo da mulher.
Cilene conta que não é cobrado nada das pacientes, seja o valor do corte de cabelo para que o boné seja confeccionado e nem o material, até o primeiro corte depois que o cabelo cresce. Isso, no caso da paciente oncológica; em casos de pessoas que queiram doar o cabelo, o valor é normal.
“Quando a pessoa já perdeu o cabelo ou tem o cabelo curto, ela escolhe um modelo que eu já tenho pronto. A maioria das vezes, consigo montar o boné na hora”, explicou. O trabalho é realizado apenas por ela e pela irmã, sem apoio fixo de parceiros, embora uma loja da cidade contribua eventualmente com doações de bonés.
Cilene também comenta que aceita doação de cabelos, bonés e velcros, para ajudar na confecção. “Tem uma loja na cidade que cada vez que vai a São Paulo me doa seis bonés, mas a maioria eu compro”, conta ela.
O projeto já ultrapassou os limites de Tatuí. Bonés produzidos pela cabeleireira foram enviados para diferentes regiões do país, como Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de cidades do interior paulista.
Mesmo nos envios pelos Correios, ela afirma que não há cobrança. Ainda segundo ela, a quantidade de bonés confeccionados ao longo do tempo é difícil de precisar. “Nunca contei, mas são muitos”, afirma.
“A maioria das vezes eu já tenho o cabelo e o boné no salão, daí já monto na hora como a pessoa quer. Salientando, mais uma vez, que não tem custo algum, sendo um projeto meu e da minha irmã que fazemos sozinhas”, reafirma.
Quem desejar pode procurar a cabeleireira no salão dela, à rua Prudente de Moraes, 101, centro, pelo instagram @bones_de_esperanca_ ou pelo WhatsApp (15)997895310.
Para a cabeleireira, o projeto tem um significado maior: “Acredito que tudo tem um propósito. Se eu não tivesse passado por isso, talvez nunca teria tido essa ideia. Hoje, poder ajudar outras mulheres me faz muito bem”.
Após passar por cirurgia, quimioterapia e radioterapia, Cilene está atualmente em remissão. O câncer identificado foi do tipo luminal B, de característica hormonal, alimentado pelos hormônios estrogênio e progesterona. Por isso, ela realiza hormonioterapia com o uso de bloqueador hormonal, tratamento que deve seguir por cinco anos, com acompanhamento médico contínuo.






