A poesia bem temperada

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Henrique Autran Dourado

“Are you coming to Scarborough Fair? / Parsley, sage, rosemary and thyme” (“Você está vindo à Feira de Scarborough?”). Canção folclórica inglesa de origem celta, fez grande sucesso com a dupla Simon & Garfunkel em álbum que leva o nome da feira. Vozes suaves, sintonia perfeita com a letra, falam de temperos: salsinha, sálvia, alecrim e tomilho, ervas que, além de sua finalidade primeira, trazem um certo ar místico, shakespeariano, misterioso como um sonho de uma noite de verão, qual devaneios de um amor nunca alcançado. “Tanto Mar”, do Chico Buarque, homenageia a “Revolução dos Cravos”, que derrubou 41 anos de ditadura de António Salazar em Portugal: cravos vermelhos eram inseridos pelos manifestantes nos canos dos fuzis dos soldados. A flor seca do craveiro, iguaria de perfume intenso e sabor levemente picante, é usada como tempero ou aromatizante de cigarros. Disse o bardo carioca, invejoso de Portugal, que reconquistara sua liberdade antes de nós: “Canta a primavera, pá / cá estou carente / manda novamente / algum cheirinho de alecrim”. Em festa de temperos e cheiros, do forte cravo e do perfumado alecrim, Chico homenageou a queda do regime com graça bem temperada.

Especiarias inspiraram Jorge Amado em “Gabriela, Cravo e Canela”, que em 1975 virou canção na voz dengosa de outro baiano, Caymmi. A musa, linda morena temperada no cravo e da cor de canela, retirada da casca da árvore do mesmo nome, é ao mesmo tempo doce e picante, e rica em propriedades medicinais e estimulantes. Sobre o mesmo binômio – cravo e canela – perguntou Milton Nascimento em 1972: “Ê, morena, quem temperou / cigana quem temperou / o cheiro do cravo / Ê, morena, quem temperou (…) / a cor de canela”, enaltecendo fragrância e cor muito bem mescladas na pele da baiana. Zé Rodrix e Tavito, em 1972, deram de bandeja para Elis Regina sua “Casa no Campo”: “eu quero plantar e colher com as mãos / a pimenta e o sal”.

Já “O Cravo bem Temperado” (“Das wohltemperierte Klavier”), de Bach, pai de todos e mestre absoluto do barroco alemão, trouxe sob este título, em 1722, uma coleção de prelúdios e fugas nas 24 tonalidades maiores e menores – “para a juventude musical desejosa de aprender e especialmente como passatempo dos que já são versados neste estudo”. Em português, um feliz trocadilho sobre a obra: Bach não falava de “Nelke”, a flor, mas “Klavier”, o instrumento de teclados por nós chamado cravo, como a flor. O temperamento é técnica de afinação que veio revolucionar a confusa vida dos instrumentistas, possibilitando-os executar peças em todas as 24 tonalidades do sistema ocidental. Além de obra-prima, o “Klavier” é um verdadeiro marco histórico.

A fim de estudar temperos e cheiros, seria necessário mergulhar na história, na arte, nas superstições e nas suas origens, as mais variadas, com fontes que divergem com frequência. Mas…

Em tempos de D. Manuel I, a descoberta da rota marítima para as Índias (1497/98) por Vasco da Gama abriu novo caminho para as especiarias tão cobiçadas pelos europeus. A própria viagem de Pedro Álvares Cabral, em 1500, que, diz a história oficial, teria como destino as Índias, teve vultoso financiamento de dois florentinos, Girolamo Sernige e Bartolomeo Marchionni, poderosos banqueiros e negociantes de especiarias – razão pela qual pode-se auferir que Cabral tinha certamente bons motivos para a desculpa surrada de uma “monumental calmaria”, para aqui chegar por acidente de percurso e “descobrir” este torrão. Aproveitou-se dos abastados italianos das especiarias, e cumpriu as vontades e ambições expansionistas lusitanas.

Das nove especiarias citadas neste texto, temos a salsinha, que, reza a superstição, não deve crescer espalhada pela casa, pois fará mal aos que nela residem. O alecrim é cheiroso e alegre, mas, se murchar, a saúde de seu dono estará em perigo. O tomilho, ou timo, é bom para os pulmões e os intestinos, traz saúde e bons agouros. O cravo da Índia teve origem na Indonésia e é usado em doces e tabaco, além de suas propriedades medicinais. O óleo do cravo era empregado pelos dentistas para aliviar dores de dentes. (Na época do Descobrimento do Brasil, um quilo do produto valia sete quilos de ouro! Não espanta o interesse dos banqueiros florentinos pelas especiarias das Índias). Por fim, a canela (do latim “cannella”, pequena “canna”) é morena como a tez de Gabriela, e nome genérico para mais de uma dúzia de variantes da espécie. A “American Heart Association” (Associação Americana do Coração) fez vários estudos sobre as propriedades antioxidantes e redutoras de ateromas da canela. Em um experimento publicado em revista com ratos sob dietas com gordura excessiva registraram após três meses, entre a dúzia que ingeriu a “canna”, menor peso, menos gordura abdominal e níveis mais baixos de açúcar no sangue. Os outros doze – do “grupo de controle negativo” -, ficaram obesos, portando ateromas e com níveis mais altos de glicemia no sangue, entre outras mazelas. A pimenta, chamada “tempero do amor”, é afrodisíaca, absorve mau-olhado e traz boa sorte, enquanto o sal de ervas tem propriedades mágicas e medicinais.

Plantas podem curar, já sabiam nossos longínquos antepassados, mas como toda medicação devemos conhecer-lhes os estudos científicos. Porque muito do que se toma sem embasamento ou não é indicado para uma doença específica – e sem a aprovação das autoridades sanitárias – pode não curar e mostrar-se um redondo engodo, trazendo riscos à saúde e à vida.