
A inteligência artificial já faz parte da rotina de escolas, empresas e famílias. Organiza informações, acelera tarefas, produz textos e imagens, responde a perguntas e oferece soluções em poucos segundos.
Seria pouco razoável ignorar seus benefícios. Mas, seria igualmente imprudente acreditar que toda atividade humana melhora apenas porque se torna mais rápida ou automatizada.
É esse o alerta apresentado pelo pesquisador Rodrigo de Barros, em trabalho de doutorado desenvolvido na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
Segundo a pesquisa, o uso excessivo de inteligência artificial, somado à hiperconectividade, ao consumo de conteúdos guiados por algoritmos e à redução das experiências presenciais, pode comprometer a criatividade da atual e das próximas gerações.
A preocupação não está na existência da tecnologia, mas na dependência que ela pode produzir. Quando crianças, adolescentes e jovens passam a receber sobretudo conteúdos escolhidos por sistemas que conhecem seus hábitos e interesses, o repertório tende a se estreitar.
O algoritmo oferece mais do que já foi consumido, mais do que aparentemente agrada, mais do que confirma preferências anteriores. A experiência se torna confortável, mas previsível.
A criatividade, no entanto, raramente nasce do conforto. Ela depende do encontro com o inesperado, da convivência com ideias diferentes, da curiosidade, do erro e da disposição para experimentar.
Uma pessoa cria quando consegue estabelecer relações novas entre conhecimentos, experiências e referências diversas. Se permanece cercada apenas por conteúdos semelhantes, perde parte das oportunidades de fazer essas conexões.
Barros resume o risco ao falar em uma “crise criativa” provocada pelo consumo massivo de informação e entretenimento conduzido por algoritmos preditivos. A expressão merece séria reflexão.
Não é difícil perceber, no cotidiano, a redução da concentração, a impaciência diante de textos longos, a busca permanente por estímulos e a dificuldade de enfrentar problemas sem uma resposta imediata. A inteligência artificial não é a única responsável por esse quadro, mas pode agravá-lo quando passa a eliminar todo esforço intelectual.
O problema se torna especialmente sério na educação. Aprender não significa apenas chegar à resposta correta. Significa formular perguntas, testar hipóteses, cometer erros, rever caminhos e entender por qual motivo determinada solução funciona.
Uma ferramenta de IA pode auxiliar uma pesquisa, organizar informações ou explicar um conceito. Mas, quando produz o trabalho inteiro e substitui o raciocínio do estudante, deixa de ser instrumento de aprendizagem e passa a ser atalho para a ausência de aprendizagem.
Isso não significa defender proibições absolutas. A tecnologia faz parte do mundo em que vivemos, e a escola precisa preparar os estudantes para utilizá-la. O que se espera é uso crítico, consciente e proporcional.
É preciso ensinar que uma resposta bem escrita não é necessariamente uma resposta correta; que um texto pronto não equivale a conhecimento; e que a facilidade de obter informação não elimina a necessidade de compreendê-la.
Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), citados na pesquisa, mostram dificuldades persistentes dos estudantes brasileiros em resolver problemas complexos, interpretar informações e exercer o raciocínio crítico.
É claro que esse desempenho tem causas amplas, como desigualdade social, deficiências educacionais, falta de infraestrutura e condições inadequadas de ensino. Ainda assim, o modo como crianças e jovens se relaciona com a informação não pode ser desconsiderado.
A criatividade, como sustenta o pesquisador, não é privilégio de poucos nem dom reservado a pessoas especialmente inspiradas. É uma habilidade que pode ser aprendida e aperfeiçoada.
O tema também interessa diretamente ao mercado de trabalho. De acordo com o relatório “Future of Jobs Survey” 2023, do Fórum Econômico Mundial, o pensamento criativo é a segunda habilidade mais importante para os profissionais dos próximos anos.
Há, porém, uma contradição nesse discurso: muitas empresas afirmam buscar inovação, mas submetem seus trabalhadores a rotinas excessivamente padronizadas, metas rígidas e processos que não permitem questionamentos.
É necessário lembrar que a criatividade vem antes da inovação. Antes de lançar um produto, criar um serviço ou desenvolver um modelo de negócio, alguém precisa perceber um problema e imaginar uma alternativa.
A tecnologia pode acelerar a execução, mas não substitui a capacidade de fazer perguntas, interpretar contextos e propor algo que ainda não existe. Sem criatividade, a inovação se reduz à reprodução um pouco mais veloz do que já foi feito.
A resposta a esse desafio precisa envolver famílias, escolas e empresas. Em casa, é importante estabelecer limites para o uso de telas e oferecer experiências concretas: leitura, brincadeiras, esporte, música, desenho, contato com a natureza e convivência.
Na escola, é necessário preservar o valor da escrita, da pesquisa, das artes, dos experimentos e das conversas presenciais. Nas empresas, devem existir ambientes em que seja possível propor ideias, rever decisões e aprender com os erros sem transformar toda tentativa em fracasso.
A cultura tem papel central nesse processo. Literatura, música, teatro, cinema, artes visuais, museus e atividades comunitárias ampliam repertórios e apresentam perspectivas que os algoritmos talvez nunca oferecessem.
Em Tatuí, essa responsabilidade ganha contornos ainda mais claros. A tradição do Conservatório, os museus, os projetos literários, os festivais e as iniciativas de valorização da memória local formam um patrimônio que não deve ser visto como ornamento, mas como instrumento de desenvolvimento humano.
A inteligência artificial pode ajudar a pensar melhor, desde que não seja utilizada para evitar o pensamento. Pode liberar tempo para tarefas mais complexas, mas não deve eliminar a dúvida, o esforço e a responsabilidade.
O futuro não será definido apenas pela capacidade das máquinas de produzir conteúdo rapidamente, e sim pela capacidade das pessoas de decidir o que vale a pena produzir, com que finalidade e com quais consequências.
A pergunta mais importante, portanto, não é quanto a inteligência artificial pode fazer. É quanto ainda estaremos dispostos a fazer sem pedir que ela pense em nosso lugar. A criatividade não pode ser terceirizada.
Afinal, uma sociedade capaz de consumir respostas em velocidade cada vez maior, mas incapaz de formular novas perguntas, terá tecnologia de sobra — e futuro de menos.






