
Da reportagem
Na noite de quarta-feira, 22, aconteceu a reinauguração da estátua “O Condutor”, na Etec “Sales Gomes”. A obra, criada pelo artista plástico e professor Josué Fernandes Pires, integra o patrimônio artístico e educacional do município e foi restaurada após sofrer danos em 2021. Aberto ao público, o evento reuniu autoridades, professores, alunos, ex-alunos e representantes da comunidade.
Logo na abertura, a diretora da unidade, Rossana de Camargo Barros, comentou sobre o “sentimento coletivo de realização após anos de trabalho”. Segundo ela, a reinauguração simboliza “uma sensação de dever cumprido”, resultado de um processo marcado por “dificuldades e lutas”.
“Hoje, a gente celebra a inauguração do restauro da estátua, que faz parte de uma série de estruturas criadas pelo professor e artista plástico, que foi nosso professor e fez a estátua em conjunto com os alunos, por volta de 1960”, afirmou.
O restauro foi viabilizado por meio do edital municipal de cultura que leva o nome do próprio artista, com proposta da arquiteta Laura Rodrigues de Souza.
A iniciativa contou, ainda, com apoio da Associação de Pais e Mestres da escola, do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico de Tatuí (Condephat), da professora orientadora do apoio educacional, Renata de Fátima Nunes, de Jaime Pinheiro, Antônio Celso Fiuza Júnior e Maíra de Camargo Barros, além de ações solidárias, como a doação de obras dos artistas locais Mingo Jacob e Diego Dedablio, utilizadas para a arrecadação de recursos.
Durante a cerimônia, Laura falou que o restauro fora “uma luta”. “Durante esse período, nós fizemos o possível para realizar o restauro e conseguimos organizar uma oficina, e foi maravilhoso, pois, querendo ou não, não perdemos toda a presença que o professor fez com os alunos, mantendo a essência de fazer com várias mãos o restauro”, declarou.
Ela destacou etapas como a limpeza dos fragmentos, recomposição estrutural e o cuidado em preservar as características originais da escultura. Também acentuou a atuação do professor Sidnei Albano, segundo ela, fundamental para a concretização do restauro.
Representando a Câmara Municipal, o vereador Kelvin Joelmir de Morais (PT) falou sobre o valor simbólico da obra para a cidade. “Mais do que reparar um monumento, estamos reconstruindo um pedaço da alma de nossa cidade”, afirmou.
O parlamentar comentou que “a obra O Condutor simboliza exatamente o professor que caminha ao lado do aluno para que ele supere o próprio mestre”. “Suas mãos nos deixaram obras emblemáticas, como O Apascentador, no Conservatório de Tatuí, e O Semeador, na Estação Experimental”, seguiu.
“Seus monumentos, com estruturas de aço e rostos em cobre, elevaram a autoestima cultural dos tatuianos”, acrescentou. Kelvin ainda complementou, citando que o professor foi eleito duas vezes vereador, além de ter participado da fundação do Partido dos Trabalhadores em Tatuí.
“A escultura foi derrubada por uma árvore durante uma poda e, hoje, vemos o resultado de um trabalho coletivo que devolveu O Condutor ao seu devido lugar, e este ato simboliza nossa resistência cultural. Mesmo quando a memória sofre um tombo, nós a levantamos”, acrescentou.
Posteriormente, Cármino Frutuozo, que foi diretor da instituição e aluno do artista, contou que “ele foi uma pessoa muito além de seu tempo”. “Nos anos 70, quando fui aluno dele, ele já comentava sobre coisas que acontecem hoje, como internet e celular, e muitas vezes até os alunos levavam na brincadeira, pois a visão dele era tão ampla e avançada que não cabia naquele momento”, recordou.
“Mas o que temos de grandes lembranças mesmo do professor é a formação humana. Ele, além de talentoso, era uma figura humana ímpar. Eu, particularmente, que não tive pai e fui criado por tios, me inspirei muito nele, na sua postura de vida e na sua forma de encarar e resolver os problemas do dia a dia”, acrescentou.
“O professor Josué (Pires), para mim, foi um herói. Eu me sinto muito emocionado em poder olhar para essa estátua”, complementou. “Sinto muito orgulho de poder estar presente em um evento como esse, poder olhar essa obra ‘de pé’ novamente e agradecer ao professor. Ele deve estar muito feliz com isso”, finalizou.
O secretário-adjunto municipal da Cultura, Rogério Vianna, declarou que a iniciativa ultrapassa o aspecto técnico do restauro. “Não é um ato de restauro, é um ato de recuperação da identidade”, apontou.
Vianna também comentou que: “Daquele momento (quando do acidente), em 2021, há quase cinco anos, recebemos enxurradas de questionamentos, mas mãos para ajudar vieram da Etec ‘Sales Gomes’, do Mingo Jacob, do Dedablio. Eu não tinha como fazer a obra, mas sabia que tinha mãos para ajudar”.
Ele destacou o papel da comunidade na preservação da memória cultural e a importância de políticas públicas de incentivo, como o edital que financiou o projeto. “Daqui a pouco, completamos 200 anos, e a memória da nossa cidade precisa ser restaurada e devolvida, principalmente a quem fez a história da nossa cidade”, acrescentou.
À reportagem do jornal O Progresso de Tatuí, Albano, que liderou a revitalização da estátua, contou que o processo de restauração durou de três a quatro anos.
“Nós tivemos muitos percalços neste caminho, pois eu sou engenheiro, mas da parte civil, não de arte de restauro. Mas, com uma equipe, aos poucos, fomos trabalhando, montando, aprendendo, pesquisando e montando, e aí conseguimos deixar o mais parecido possível com a obra, pois, hoje, a gente olha e não vê diferença do que fizemos e de como era”, comentou.
O engenheiro conta que foi bastante trabalhoso, mas “sempre teve o sonho de concretizar e ver acontecer, o que o motivou a ter o resultado apresentado”.
Ele ainda lembra que a estátua quebrou os braços e a parte maior acabou dobrada. Assim, foi preciso fragmentá-la para que conseguisse mobilizá-la para outro local de trabalho.
Ele ainda citou que os materiais utilizados foram reforços com solda elétrica, reforço interno com ferro de construção civil e argamassa para o revestimento e a finalização de chapisco, como era.
Sobre o sentimento de ver finalizada a restauração, Albano conta ser de “gratidão”. “Porque olhamos para o passado e lá tínhamos um sonho, e no sonho quase não tínhamos perspectiva, e hoje vimos se tornar realidade, com muita persistência”, finalizou.
Por sua vez, Pinheiro sublinhou a importância da restauração lembrando que o professoro Josué “não foi só um grande artista e professor, mas um mestre, pela amplidão de seus ensinamentos, e o mentor de muitas de vidas, um exemplo de grandeza e dignidade humana”. Por tudo isso, conclui, “merece ser lembrado e ter um lugar de respeito na memória da cidade”.
A filha do autor da obra, Sefora Fornazari Pires, opinou sobre o legado deixado pelo pai: “A gente sente que deveria ser mais reconhecido, mas a gente, como filha, sempre quer mais. Porém, com esse novo edital de cultura, também é bem bacana, um reconhecimento, e aqui, também, acredito que foi um ‘start’, que mexe um pouquinho para melhorar, para aparecer (a história de Josué Fernandes Pires)”.
“Ele realmente foi uma pessoa incrível. Vou descobrindo isso com relatos de alunos e pessoas que conviveram com ele. Ele analisava as provas com muito carinho, via até o sofrimento do aluno na prova, quando o desenho não estava bem-feito, mas que ele (o estudante) tinha tentado e se empenhado. Ele fazia tudo com muito carinho, e a gente sempre gosta que valorize mais”, acrescentou.
Produzida entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, a estátua “O Condutor” faz parte de uma série de esculturas desenvolvidas por Pires em conjunto com alunos da escola, consolidando um legado que une arte e educação.
Após sofrer danos causados pela queda de uma árvore, a obra passou pelo processo de restauração, incluindo reforço estrutural, soldagens, tratamento de oxidação e recomposição de partes danificadas. Também foram realizadas melhorias no entorno, garantindo a valorização do espaço.






