7 de Setembro

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“Já podeis da Pátria filhos / Ver contente a mãe gentil / Já raiou a liberdade / No horizonte do Brasil”. Há alguns anos, no dia 7 de setembro toda a cidade se enfeitava para comemorar o Dia da Independência. Os estudantes já haviam ensaiado o Hino da Independência durante alguns meses. Todos sabiam a letra e a melodia.

Agora esse hino é um ilustre desconhecido. Não é mais ensinado nas escolas e, ao que parece, em lugar algum. Antigamente, a molecada, por malvadeza, fazia uma paródia com a letra do hino: “Japonês tem quatro filhos / O primeiro é padeiro…”, mas, mesmo brincando, conheciam a letra e a melodia.

Hoje não se ensina mais hinos nas escolas. Nem esse e nenhum outro além de um esboço do Hino Nacional. Os governos pós-ditadura militar vinculam tudo que se refere à educação moral e cívica aos governos militares. Parece que ensinar hinos é tabu!

E o Hino Nacional? Esse hino todos conhecem, podemos supor. Mas, na verdade, o Hino Nacional se transformou “naquela musiquinha que toca antes de jogos de futebol”, e que ninguém conhece a letra. Muito menos entende o significado de sua letra.

Ou algum estudante do ensino fundamental ou médio sabe o que significa “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante”? E mais, quem pode apontar o sujeito da oração “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”? Ah, ficar lidando com hinos é coisa da ditadura!!! E, com esse pensamento, tem gente que nem sabe o que é o Brasil.

Nem conhecem o hino e nem a história. O Brasil nasceu como nação independente logo depois de D. João VI ter retornado a Portugal. O rei saiu, mas antes raspou os cofres nacionais. O país nasceu falido.

Além disso, a independência aconteceu em uma situação de, digamos, desconforto: no dia 7 de setembro de 1822, o príncipe D. Pedro retornava de Santos montado em uma mula e com dor de barriga. Provavelmente, havia ingerido alimento mal conservado no dia anterior, ou bebeu água contaminada das bicas e chafarizes que abasteciam as tropas de mula na Serra do Mar.

D. Pedro, ao aproximar-se do riacho do Ipiranga, precisou apear do animal que o transportava para se aliviar no denso matagal que cobria as margens da estrada nessa ocasião. Nem era o animal que o transportava um fogoso alazão igual ao que o pintor Pedro Américo colocou no quadro “Independência ou Morte”, também chamado de “O Grito do Ipiranga”. Tratava-se de uma mula baia, um animal forte, apropriado para subir a Serra do Mar, com suas subidas íngremes, enlameadas e esburacadas.

Foi assim, todo coberto de lama e da poeira do caminho, às voltas com o desarranjo intestinal, que D. Pedro proclamou a Independência do Brasil. Apesar da cena não ser nada parecida com a do quadro de Pedro Américo, que plagiou um quadro referente a Napoleão Bonaparte, é uma das mais importantes da história brasileira.

Medicado na base de chá de folha de goiabeira, remédio ancestral usado no Brasil contra a diarreia, D. Pedro encontrou ânimo para subir a serra por um caminho chamado de Calçada de Lorena, uma das estradas mais sinuosas e pitorescas do país, construída em 1790, seguindo a antiga trilha dos padres jesuítas. Era o caminho pelo qual as mercadorias do porto de Santos chegavam à cidade de São Paulo e vice-versa.

Pois bem, D. Pedro estava na colina situada nas proximidades do riacho do Ipiranga, provavelmente atrás de uma moita, quando chegou a galope, vindo de São Paulo, o alferes Francisco de Castro Canto e Melo, irmão de Domitila de Castro Canto e Melo, futura marquesa de Santos.

Trouxe notícias inquietantes, mas antes que pudesse transmiti-las a D. Pedro, chegaram dois mensageiros da corte do Rio de Janeiro, exaustos e esbaforidos. Haviam percorrido cerca de 500 quilômetros em cinco dias, praticamente sem dormir.

Eram portadores de mensagens urgentes, enviadas por José Bonifácio de Andrada e Silva e pela princesa Leopoldina, mulher de D. Pedro. A situação era grave. Portugal conspirava para que o Brasil voltasse à condição de colônia. Soldados portugueses tentariam atacar o Rio de Janeiro e esmagar os partidários da Independência.

Conta-se que D. Pedro, tremendo de raiva, amarrotou os papéis das cartas, jogou ao chão e pisoteou. Depois de alguns instantes, disse: “De hoje em diante, estão quebradas as nossas relações. Nada mais quero com o governo português e proclamo o Brasil, para sempre, separado de Portugal”.

Todos que estavam por ali, responderam imediatamente, com entusiasmo:

– Viva a liberdade! Viva o Brasil separado! Viva D. Pedro!

Conforme descreveu a situação, o padre Belchior, que acompanhava a comitiva do príncipe, não houve sobre a colina do Ipiranga o brado “Independência ou Morte”. O famoso grito aconteceu bem mais tarde, no relato do alferes Canto e Melo, que mostrava um príncipe resoluto e determinado, que, “após um momento de reflexão”, teria dito sem pestanejar:

– É tempo! Independência ou morte! Estamos separados de Portugal!

“Já raiou a liberdade / Já raiou a liberdade / No horizonte do Brasil” – prossegue o Hino da Independência, cuja letra Evaristo Ferreira da Veiga escreveu juntamente com o próprio D. Pedro, que compôs a música.

“Brava gente brasileira! / Longe vá temor servil / Ou ficar a Pátria livre / Ou morrer pelo Brasil / Ou ficar a Pátria livre / Ou morrer pelo Brasil” – continua o agora desconhecido hino.

Mas, como já citei, o rei D. João VI, ao retornar a Portugal, levou junto todo o dinheiro do Brasil. Assim, nascendo falido, teve de buscar recursos no exterior, fazendo os primeiros empréstimos externos na Inglaterra, uma coisa que se tornou um hábito comum de todos os governantes desde D. Pedro até dona Dilma, sem exceção.

Com isto, desmente-se parte do Hino da Independência: “Os grilhões que nos forjava / Da perfídia astuto ardil / Houver mão mais poderosa / Zombou deles o Brasil” – outros grilhões nos têm transformado em servos, os grilhões financeiros.

Além disso, no pensamento geral, substitui-se “Brava gente brasileira! / Longe vá temor servil / Ou ficar a Pátria livre / Ou morrer pelo Brasil / Ou ficar a Pátria livre / Ou morrer pelo Brasil” pela letra da música de Geraldo Vandré:

(…) Pelos campos há fome em grandes plantações / Pelas ruas marchando indecisos cordões / Ainda fazem da flor seu mais forte refrão / E acreditam nas flores vencendo o canhão / Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer / Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição / De morrer pela pátria e viver sem razão”.

Para rematar, a história não traz relatos para saber se depois de proclamar a Independência, D. Pedro retornou ao abrigo de uma moita para se aliviar da diarreia.