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    Uma fábrica sem capela, Warnhagen e seus embates com colonos e o clero

    Instalação da siderúrgica impulsionou novos fluxos populacionais na região

    Anotações de Teodoro Sampaio (1886) feitas do alto do Morro de Araçoiaba, sede da Real Fábrica de Ferro de Ipanema, avistando o horizonte de Tatuí. O registro integra a caderneta de campo da Comissão Geográfica e Geológica e ilustra a proximidade física entre o polo industrial e o núcleo tatuiano, cujos fluxos populacionais e administrativos se entrelaçaram ao longo do século XIX, apesar das origens históricas independentes (Foto: SAMPAIO, Teodoro. Morro Araçoyaba e vista de Tatuhy. 1886) Transcrição do documento: Horizonte a noroeste do signal de Aracoyaba (C): 1. Morro nas cabeceiras do Guarehy? — 85º NO 2. Morro de Bofete, extremidade sul — 78º 30 NO 3. Morro de Bofete, extremidade norte — 72º NO 4. Ponta da serra de Botucatú — 64º 30 NO 5. As Três Pedras — 55º 30 NO 6. Cidade de Tatuhy (Camara municipal) — 63º 30 NO 7. Grupo de casas, Bacaetava? — 22º ou 36º NO

    Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias

    Cristiano Mota

    De acordo com Rady (1973), em maio de 1682, a coroa autorizou por meio de carta régia Jacintho, Abreu e Lumbria (sem mencionar Paschoal) a abrir uma fundição na montanha de Biraçoiaba. Rodrigues (1952) acrescenta que a oficina foi levantada no Morro de Ferro, e que Lumbria, falecido no Rio de Janeiro, recebeu carta régia em 1698, em agradecimento de Dom Pedro II pelos serviços prestados à Coroa, mas não especificamente pela fundição.

    Vernhagem (1927), quando escreve sobre a história da mineração no Brasil, também cita as mesmas cartas régias. Diz ele que Abreu, Jacinto e Lumbria receberam a autorização em correspondência de “2 a 5 de maio de 1682”, e os agradecimentos em outro documento, este, de 20 de outubro de 1698, prometendo gratificações ao capitão-mor de Itanhaém.

    Como se vê, nenhum dos autores menciona a construção de uma capelinha em homenagem à Nossa Senhora del Popolo (cujas variações incluem Pópolo, Populo e Pópulo) atrelada à instalação de uma fundição de ferro na região do morro.

    Além disso, a população que vivia no entorno já contava, desde 21 de abril de 1660, com a capela de Nossa Senhora da Ponte, doada por Baltazar Fernandes, que lhes permitia exercer os sacramentos. A transferência definitiva deu-se em 3 de março com a autorização de nova mudança do pelourinho.

    Registra-se, porém, a circulação de materiais sem autoria ou referências em diversas plataformas e para públicos diversos – até mesmo em documentos oficiais – com a informação de que Paschoal e Jacintho levantaram a Fábrica de Ferro de Ipanema (atualmente em Iperó), e, a partir dali, fundaram a povoação que obteve título de paróquia e da qual, então, Tatuí teria se originado. Ressalta-se que, à época, a fundição não tinha nome, o que só aconteceria em 1811.

    Outro indicador de que não havia relação direta entre os irmãos Moreira Cabral, a fábrica de ferro e Tatuí é a carta de sesmaria concedida em 11 de março de 1698 pelo capitão-mor Thomé Monteiro de Faria, governador da Capitania de Itanhaém e representante do conde da Ilha do Príncipe, em favor do capitão-mor Lopes de Carvalho.

    O documento destinava-lhe uma área correspondente a quatro léguas de terras em quadra para a construção de uma fundição no termo da vila de Nossa Senhora da Ponte, na paragem da Serra de Birassuiaba.

    A posse da área, a invocação de outra padroeira e o estabelecimento da propriedade distante da futura São João do Ipanema, inviabilizam a tese de Tatuí ser uma ramificação dos irmãos paulistas. Mas isso não os exclui da história da cidade.

    Indiretamente, Paschoal, que fora caçador de índios, e Jacintho, vereador presidente da Câmara da Vila de Sorocaba, ao explorarem a região, atraíram a atenção de outros colonos em busca de prosperidade e impulsionaram o povoamento das serras de Araassoiava, que, mais tarde, se desmembraram nas cidades de Araçoiaba e Iperó. E é dessa região que saem pessoas que vão se juntar ao núcleo tatuiano.

    Todo esse movimento populacional é resultado direto das mudanças provocadas pela instalação da Fábrica de Ferro – cuja criação foi autorizada por carta régia de 4 de dezembro de 1810 –, por sua administração e pelas iniciativas religiosas a ela vinculadas. A ideia da Coroa era que o estabelecimento pudesse abastecer o Brasil e gerar excedente para exportação, a partir de Sorocaba.

    No documento, Dom João VI destacou a riqueza da mina (com base em inúmeros estudos) e a existência de matas previamente reservadas para fornecer combustível.

    Essa determinação de demarcação da região – um tópico a ser retomado mais adiante –, é um fato importante para compreensão sobre a constituição de Tatuí como povoado.

    Em 12 de julho de 1811, o príncipe regente expediu outra carta relacionada ao “estabelecimento montanhístico”. Determinou a Manuel Teles da Silva, o Marquês de Alegrete, então governador e capitão-general da capitania de São Paulo, empenho na construção da fábrica, reforçando a necessidade de priorizar a infraestrutura industrial e a mão de obra especializada, estimulando a ocupação com focos distintos.

    O primeiro, o cultivo de cânhamo (para produção de cordas e velas navais); o segundo, a domesticação dos indígenas, mencionada como ato de civilização, visando consolidar a rota entre São Paulo, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. A mineração e a exploração de madeiras deveriam seguir ordens prévias.

    Passados pouco mais de dois anos, em 10 de novembro de 1813, o empreendimento foi oficialmente batizado como Real Fábrica de Ferro de Ipanema pela Junta Diretora, órgão administrativo criado para gerir a produção siderúrgica e supervisionar a exploração das minas de ferro de Sorocaba.

    À época, as obras estavam sob responsabilidade de engenheiros suecos — liderados inicialmente por Carl Gustav Hedberg —, com apoio de técnicos portugueses. Hedberg, porém, foi demitido em 1814 e substituído, em 1824, por Antônio Xavier Ferreira.

    Nesse mesmo ano, em 27 de setembro, a direção da fábrica passou para outras mãos. Assumiu o comando Friederich Ludwig Wilhelm von Warnhagen, nomeado para o cargo de sargento-mor do Real Corpo de Engenheiros, com a missão de reformar a produção – inclusive trazendo fundidores alemães para modernizar as operações. É ele que enfrentará, mais tarde, além de desafios técnicos, desentendimentos com o baixo clero e com os moradores da região.