Uma cidade e um mundo rachados

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De forma nada surpreendente, pode-se reafirmar que, junto ao senso comum, os que mais acham que sabem tudo são os mesmos que, na verdade, não têm conhecimento sobre nada. Nisto, há uma constante: quanto maiores e mais numerosas as certezas, mais farta a ignorância.

E, para azar deste mundinho tão arrasado por pragas extraordinárias, a ignorância não é mais motivo de vergonha, pelo que ganha terreno sem cerimônia frente à ciência, ao conhecimento formal, à sensibilidade e ao bom senso.

Tem-se a impressão de que este planeta está rachando em dois, embora ainda sustentado por pessoas que se compadecem com a dor alheia, que buscam ajudar de alguma forma – seja por meio de ações sociais ou de fé.

No outro extremo, contudo, estão indivíduos que, pelas atitudes e manifestações, parecem integrar um culto de morte – tal seguidores de um sabá macabro, onde testemunhar hospitais lotados e seres humanos falecendo com falta de ar seria motivo de regozijo.

Não há que se discutir a necessidade de comida na mesa de todo e qualquer cidadão – pai e mãe de família, que está também vivenciando o terror pela carência de recursos.

Não obstante, é simplesmente incompreensível, ao invés de se cobrar um suporte efetivo e abrangente por parte do governo – garantindo-se a mínima segurança alimentar de todos -, crer que, com revólver e golpe de estado, a vida da população vai melhorar (tampouco ser salva, em caso de doença…).

Mas, aí entra o poder da ignorância a permitir os descalabros, com pessoas desestimulando o distanciamento social e até o uso de máscaras – fora as receitas sem comprovação contra a Covid-19, as quais têm potencial, em última instância, para causar outros problemas de saúde.

Ainda há, por mais absurdo, quem não entendeu que toda esta tragédia só terá fim com a vacinação em massa. Enquanto isso, o mundo segue em etapas diversas de retorno à “normalidade”, com indiscutível maior progresso onde a imunização mais avança.

Seria básico, natural, portanto, uma incomensurável insatisfação popular com o misto de inércia e prepotência que levou a Saúde nacional a não se adiantar na reserva de vacinas, quando assim deveria.

O custo disto, neste momento, é fatal, literalmente. Quantas pessoas poderiam estar tendo a vida salva se, antes, não tivesse ocorrido tanta perda de tempo, fruto de politicagem rasteira, populista?

Sim, há até fatos a entrar para a história – de séculos no futuro –, com aspectos que poderiam ser risíveis não fossem trágicos. E, por enquanto, ainda poucos se indignam com isso! É inacreditável!

Um exemplo: imagine que você, leitor (Deus o salve disso!!!), tenha sido acometido por uma doença (nem precisa ser esta da maldita pandemia). Aí, te colocam em um leito de hospital, onde, com medo, apreensivo, você aguarda a visita do médico, para saber de sua situação, com fé de que não seja nada de mais grave.

De repente, abre a porta do quarto e você, perplexo e sem entender nada, não vê diante de si um médico, um profissional de branco com conhecimento capaz de salvar sua vida. Não, nesse momento – insano -, aparece, para te examinar e medicá-lo, um capitão da Polícia Militar…

Óbvio que a segurança pública também salva vidas, pelo que deve ser, sempre, respeitada e valorizada. Contudo, não se mata Sars-Cov 2 com tiro…

Só que o torpor incauto leva muitos a não estranharem a sobreposição política de revólveres no lugar de estetoscópios, razão pela qual o país só ganhou um médico para encabeçar a luta contra a pandemia quando já se acelerava para três centenas de milhares de mortos.

De fato, serão necessários séculos de estudo para uma mínima compreensão desta realidade. Um indicativo, contudo, talvez seja digno de observação, por mais óbvio: esse mundo rachado não se divide apenas entre gente que se preocupa com seu semelhante e gente que acha que os demais não são seres humanos: ele está se separando rapidamente entre quem já enfrentou o drama da Covid-19 e quem não teve esse azar.

Por certo, a ignorância – que tantas certezas garante aos extremistas – deixa de existir quando a desventura da moléstia entra em casa… Aí, não tem mais gripezinha, mimimi, protesto contra lockdown, fechamento disso e daquilo com miliciano no poder. Nada!

Aí, acaba tudo! Só fica a dor e a tensão, a esperança de que a tão atacada ciência, por meio da medicina, venha a salvar a vida do pai, da mãe, do irmão acometido pela doença… Aí, some toda a maldade de querer ver sangue, de resolver tudo à bala, para dar lugar a sentimentos mais admiráveis, como a fé!

Nesse momento, o belicista sectário, o machão golpista, o “antidemocracia”, para de pedir a favor de autoritarismos tacanhos e passa a pedir a Deus! Pedir pelo livramento da dor, da doença. “Se Deus quiser, vai vencer esse mal”, é o que mais se ouve

E menos mal que, ainda que pela dor, a balança dos insensíveis e dos empáticos venha, cada vez mais, a pesar a favor da generosidade, da civilização, da vida!

Em Tatuí, um ótimo exemplo de atitude admirável, “cristã”, foi noticiada por este jornal na semana passada: a campanha de três clubes de serviços que mobilizou o município.

Denominada de “Dê fôlego a quem precisa”, a ação esteve encabeçada pelo Rotary Club de Tatuí, pelo Rotary Club “Cidade Ternura” e pelo Lions Clube de Tatuí.

Ela teve como objetivo a arrecadação de R$ 25 mil, recurso suficiente para garantir mil recargas de cilindros de oxigênio à Santa Casa.

A ação começou a receber doações no dia 5 e, imediatamente, já registrou participações de associados, empresários, grupos de amigos e membros de outros clubes de serviço.

Único hospital do município a atender pacientes pelo SUS (Sistema Único de Saúde), a Santa Casa concentra a maior parte do número de internações por Covid-19, em torno de 70%.

Essa iniciativa é uma entre tantas. Ela representa, porém, a força de todos aqueles que, de um lado da balança – o da vida -, ainda fazem valer a existência do ser humano neste planetinha.

Não fossem eles, talvez fosse melhor mesmo a solução à bala – ou melhor, com uma bomba, para acabar com tanta ignorância de uma só vez.