
Tatuí 2000: Outros fatos, outras histórias
Cristiano Mota
Embora permeie a história de Tatuí em termos de desenvolvimento, a divisão territorial – por desmembramento gerado via disputas judiciais, ocupações ou empossamento de terras devolutas – ocorre muito tempo depois do estabelecimento dos primeiros moradores na região.
O desbravamento do “Certão Desconhecido” é invariavelmente atribuído aos bandeirantes, que passaram por Tatuí no período pós-primeiras explorações (Taunay, 1924). Mas a ocupação “de fato e de direito” se deu com a chegada dos conquistadores (Abreu, 1930).
A razão disso é que os primeiros “concorreram antes para despovoar que para povoar”, uma vez que, na briga com os povos originários, causavam diásporas, além de não se fixarem. Já os segundos, apesar de poder escravizar os indígenas, fincavam raízes nos caminhos.
A exploração do Brasil começa pelo Nordeste, no ano de 1501 (Varnhagen, 1877), em um processo de disputa entre portugueses e espanhóis. Só mais tarde, franceses, holandeses e ingleses voltam seus olhos à Terra de Vera Cruz. É nessa época que os primeiros africanos entram ao país e são, à medida que as grandes lavouras florescem, exportados como escravos a outros rincões.
O desbravamento da região de Tatuí deriva de um eixo diferente: o de São Vicente/Piratininga, em um período posterior. Liga-se, mais uma vez, à história dos Affonso Sardinha (o velho e o moço, ou o pai e o filho), exploradores das minas de Araçoiaba. Também aos bandeirantes paulistas Paschoal Moreira Cabral e Jacintho Moreira Cabral.
São eles que, contratados pelo poder público, pacificam o território e seus arredores. Abrem, na direção do interior do país, caminho para que os grandes donatários e, principalmente, os religiosos recebam terras e sejam autorizados a cultivá-las com mão de obra escravizada.
Os primeiros traçados que conectaram o litoral de São Vicente à região, no entanto, foram abertos pelos tupiniquins. Em tempos bem mais remotos do que as incursões pelo rio Tietê acima e anteriores, como se vê pelos registros históricos, e às incursões das bandeiras, que mesclavam trechos de água e mata. Integravam a trilha chamada de peabiru.
Conforme Azevedo (1939), esse caminho “ligava os tupi do litoral aos guarani do centro sul-americano”. E tinha vários ramos. Um deles passava por Sorocaba, outro, por Itapetininga. Embora a trilha possuísse muitas rotas, fato é que um ou outro traçado possibilitou aos primeiros exploradores, depois, aos bandeirantes, e só mais tarde aos conquistadores, olharem para os campos da região como uma possibilidade de fazer vida e fortuna.
A influência dos indígenas, em Tatuí, é pouco explorada, seja nos estudos, seja em termos de resgate cultural. Da contribuição deles, o que se sabe – por escassez de registros e falta de olhar historiográfico – é que o nome da cidade deriva da língua tupi-guarani.
Também o fato de que o milho se consolidou, em princípio, como base da alimentação dos primeiros habitantes e de suas criações, em particular, muares e cavalares.
A ironia do destino é que foram os indígenas a possibilitar a ocupação de territórios na região, diferentemente do que se costuma constar na história. Isso porque provocaram uma disputa entre os bandeirantes (portugueses e mamelucos) e a Companhia de Jesus. Ambos passaram a investir na arregimentação de “selvícolas” para garantir suas presenças nas colônias (Mourão, 2015).
Na segunda metade do século 17, exploradores como Baltazar Fernandes, o irmão dele, Domingos Fernandes, Cristovam Diniz e Nicolau Barreto acirraram os ânimos por aqui. Garantiram grandes porções de terra ao fundarem as vilas de Sorocaba e Itu, respectivamente. Os jesuítas não deixaram por menos: ocuparam as regiões de Botucatu e Guareí.
A essa altura, assim como os caminhos que formavam o peabiru, os interesses dos exploradores se cruzavam. O indígena foi a força braçal a possibilitar inicialmente a produção agropecuária, que forneceu, mais tarde, no início do século 18, o abastecimento para a descoberta de Cuiabá. Depois, entre a resistência à servidão e a catequização, esses povos originários tornaram-se peça fundamental para a descoberta, pelas bandeiras, de “ouro e metaes”, o que facilitou a prática do estabelecimento das minas. Só mais tarde é que há a substituição do gentio da terra por outro: o escravizado vindo da África.
Ainda no século 17, a exploração de ouro, diamante e metais preciosos – inaugurada em 1674 por Fernão Dias (Jardim, 1937) – vive momentos de euforia e declínio, perdurando até o final do século 18. Entre 1791 e 1792, por exemplo, o número de garimpos disparou.
Pelo menos cinco minas aparecem nomeadas e localizadas em um mapa produzido por Antonio Rodrigues Montezinho, ajudante engenheiro, por ordem do então governador e capitão general da Capitania de São Paulo. Elas situavam-se entre as vilas de Itapetininga, Paranapanema, Itapeva da Faxina e Apiaí, somando-se à jazida de ferro, da serra de “Guaraçoiaba”.
E são os mapas a fornecer, a partir do deslocamento dos dois grupos desbravadores – e dos caminhos já abertos pelos indígenas –, a possibilidade de reconstrução da direção em que se deu o descobrimento e, posteriormente a ocupação, das terras para as bandas de Tatuí.
Entre 1660 e 1667, o trajeto em direção ao interior do país, partindo da Capitania de São Vicente, passava pela vila de São Paulo dos Campos de Piratininga e pela “Phillipavilla”, que Petschelies (2012) diz se tratar de Sorocaba.
De lá, encontrava-se em uma confluência com a estrada que vinha da Capitania do Rio de Janeiro. O entroncamento, no sentido oeste, levava até Guayrá, antigo território do governo espanhol.
As trilhas constam no registro feito por Nicolas Sanson, intitulado “Brasília Lusitanorum in XIV praefecturas divis”, traduzido para “Brasília dos portugueses dividida em 14 províncias”. Elas mostram as direções tomadas pelos desbravadores e suas ramificações.
Os pontos de referência, como a Sorocaba antiga, por exemplo, também constam em outras cartas topográficas. Uma datada de 1680, intitulada “Nova et accurata Brasiliae totius tabula” (traduzido como “Um mapa novo e preciso de todo o Brasil”), de Joanne Blaeu, que apontava “Phillipovilla” com a presença de diferentes tribos indígenas pelo traçado; outra de 1700, elaborado pelo geógrafo neerlandês Peter van der Aa, quando esteve no país; e uma terceira, produzida em 1702, no qual Johann Ulrich a referencia como Phillipavilla.
Em 1779, as minas de Paranapanema e a Serra de Ibotucatu já aparecem referenciadas, assim como também Sorocaba, nomeada como São Felipe. Quem faz o registro é Paolo Santini, um veneziano conhecido por gravuras religiosas e trabalhos cartográficos. O mapa elaborado por ele traz uma representação da parte sul do Brasil e Peru e norte do Chile e Paraguai.
Em termos de dados, a precisão dessas cartas varia. Sorocaba, por exemplo, aparece em um documento de 1766, a “Carta Chorografica da Capitania de São Paulo”, com seu nome atual e já integrada a um conjunto de caminhos.
A rota, naquele tempo, partindo do litoral, passava por Cubatão e fazia uma bifurcação em São Paulo. O trecho à direita, no sentido ao interior, levava às Minas de Jaraguá em direção a Jundiaí. O da esquerda tinha duas rotas que se encontravam ao final, quase no início de outra bifurcação.
Nessa rota, quem ia no sentido direito alcançava Itu e Araritaguaba (Porto Feliz), quem pegava o esquerdo chegava a Sorocaba e, dali, para Curitiba. No trajeto estava a “Serra de Guaraçoyaba”.
São essas direções sertanistas que, mais adiante, levam ao surgimento de Itapetininga e Tatuí.






