Semana de Trânsito

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A propósito da Semana Nacional do Trânsito, efetivada entre os dias 18 e 25 de setembro, algumas informações – e observações – podem ser interessantes. Neste ano, o Contran (Conselho Nacional de Trânsito) definiu o tema do evento como: “Década Mundial de Ações para a Segurança do Trânsito – 2011/2020: Cidade para as Pessoas: Proteção e Prioridade ao Pedestre”.

Prevista na Lei 9.503, de 23 de setembro de 1997 (o Código de Trânsito Brasileiro), a “Semana” tem a finalidade de “conscientizar a sociedade, com vistas à internalização de valores que contribuam para a criação de um ambiente favorável ao atendimento de seu compromisso com a ‘valorização da vida’, focando o desenvolvimento de valores, posturas e atitudes, no sentido de garantir o direito de ir e vir dos cidadãos” (como esse pessoal da política adora uma retórica, não?).

Bastaria dizer, em outras palavras, “mais educação no trânsito, pessoal!”. Claro, junto a isto, políticas tendo como prioridade o transporte público de qualidade – duas ações, portanto, devidas aos governos.

A “Semana” ainda deve – ou deveria – ter uma abrangência nacional e mostrar a “mudança de postura de toda a sociedade no esforço para a redução de acidentes”. Novamente, o discurso… Afinal, alguém acredita nessa tal “mudança de postura”?

A escolha do tema, por sugestão da Câmara Temática de Educação para o Trânsito e Cidadania do Contran, faria alusão à necessidade de um “amplo debate sobre a legislação que contempla questões essenciais para a mobilidade urbana sustentável, segura e acessível, priorizando a circulação dos pedestres em face da estrutura viária historicamente voltada à circulação de veículos automotores”.

A despeito do fato de o termo “sustentável” ter-se tornado banal, servindo a tudo que quer se referir, ingênua ou oportunamente, ao politicamente correto, a verdade é que o trânsito no Brasil é assassino e os grandes centros logo serão completamente estagnados pela imobilidade.

No entanto, essa visão infantil que busca demonizar os veículos, aliada a eventos pautados pela retórica, certamente, não levarão a nada. A moda nessas rodinhas de sábios da modernidade é apontar, por exemplo, a bicicleta como grande solução.

Ótimo para a saúde do ciclista, desde que ele tenha oportunidade de acordar mais cedo para ir ao trabalho e tenha o suporte de um desodorante extrapoderoso, para não incomodar seus colegas de trabalho com a fragrância potencializada de suas axilas umedecidas.

Quanto aos carros, o pessoal “do bem” parece se esquecer de que, sem a indústria automobilística, com os milhares de empregos diretos e indiretos que gera, o país simplesmente iria à falência (aí, talvez, a bicicleta, realmente, se tornasse o único meio de transporte…)

Voltando ao tema, ele faz alusão, em princípio, a artigo do Código de Trânsito Brasileiro, segundo o qual: “Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres”.

Ponto fundamental para um mínimo de avanço, pelo menos quanto aos acidentes fatais. No entanto, já existe a “lei seca” – praticamente, ignorada -, a qual deveria ter servido como arrancada para uma mudança efetiva de postura dos motoristas. Mas, não.

Enquanto o sujeito dirigindo bêbado não for entendido como criminoso e tratado como tal, não haverá redução nos índices de mortes. Ou seja, é preciso punição e, além disso, percepção quanto a essa possível punição. A lei precisa “pegar”, como se diz.

Sobre a (falta de) mobilidade, resultado da frota crescente de veículos junto à falta de investimento nas vias e de virtudes do transporte público, a tendência é de piora. Só isso.

Não à toa cidades do interior – como Tatuí – acabam atraindo investimentos dos grandes centros, os quais consideram, em grande parte, a dificuldade menor em termos de transporte.

Entretanto, talvez a educação – como sempre! – aparenta configurar-se no maior desafio, tanto para motoristas quanto para pedestres. Por um lado, os primeiros ainda se sentem donos das ruas, enquanto os segundos sentem-se inseguros – com razão – em fazer uso dos dispositivos de segurança que deveriam lhes servir.

Tatuí, neste caso, parece estar até um pouco pior que a média. Exemplo um: é conhecida a história de que um grupo europeu de músicos, em visita ao Conservatório, que viu a faixa de pedestres próxima à escola e, simplesmente, tentou atravessá-la, mesmo com a aproximação de alguns veículos.

Pela ótica dos artistas estrangeiros, obviamente, os motoristas parariam, dando-lhes passagem. Na prática, contudo, deram grande sorte de nenhum deles ter tido de se apresentar na Santa Casa, com algum instrumento corporal danificado.

Diz ter havido, não obstante, um grande concerto de gritos – de medo, por parte dos músicos, e de xingamento, dos motoristas, que ainda entendiam estar corretos diante da ousadia dos estrangeiros…

Na mesma rua, a São Bento, pode-se observar a peculiaridade local pelo exemplo dois: há uma escola ali, bem no meio da quadra entre o “Postão” e o próprio Conservatório.

Teoricamente, nesse local, onde há uma faixa de pedestres, os veículos deveriam parar, dando passagem aos desmotorizados, em grande parte acompanhados de crianças, dado o fato de, além dessa unidade de ensino citada, haver outras duas escolas nas proximidades.

Faça o teste, leitor (obviamente, sem arriscar sua vida, tentando atravessar feito cidadão europeu): fique diante da faixa, visualize os dois lados – se possível, até apelando com aquele olhar de cachorro pidão – e aguarde a parada dos motoristas.

Você vai aguardar bastante… Tenha paciência… Mais um pouco… Não se afobe, tenha calma, é preciso, porque o trânsito é muito intenso e não há semáforo (fica a sugestão)… Ah, um carro parou! Sério? Parou!

Você não acredita? Pode acreditar. E, então, o teste final: olhe a placa. É “de fora!” Sim, a imensa maioria dos bem-educados é formada por motoristas de outros municípios… Salvo os veículos da Polícia Militar, os quais, “geralmente”, praticam essa regra vista como gentileza…

Há muitos desafios, portanto, até que a Semana Nacional do Trânsito possa se tornar motivo de comemoração. Quem não se acidentar ou for atropelado até lá, talvez, verá.