Reflexologia é aplicada por cegos e ajuda outros deficientes da cidade

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David Bonis

Adilson, após aplicação de técnica por Francelina, ao fundo

 

O “ritual” é sempre o mesmo e às quartas-feiras. Sentados, com as mãos cheias de creme e ouvindo música instrumental para relaxar, os irmãos Francelina Martins, 56, e Roque Martins, 48, aplicam a técnica da reflexologia em cegos que frequentam a Apodet (Associação dos Portadores de Deficiência de Tatuí).

Cegos congênitos, Francelina e Roque começaram em agosto deste ano a aplicar a reflexologia nos assistidos. Ou seja, são deficientes visuais cuidando de outros deficientes visuais, por meio de uma técnica que, aos olhos de quem ainda não conhece o tratamento, se confunde com uma simples massagem, admitem os dois.

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Basicamente, a reflexologia busca estimular pontos de todo o corpo, pressionando apenas partes dos pés. Para estimular a cabeça, por exemplo, a ponta do dedão do pé é pressionada. E assim por diante.

Francelina e Roque conhecem, ao todo, 40 pontos no pé que, ao serem pressionados, refletem em benefícios para outras partes do corpo.

“A reflexologia é boa para todos, mas, para os deficientes visuais, ajuda a produzir insulina, por exemplo. Em muitos casos, a pessoa perdeu a visão por causa de diabetes. Então, ajuda demais, porque trabalha o pâncreas”, explica Francelina, falando sobre os benefícios da técnica.

Perder a visão em decorrência de diabetes é bastante comum. A alteração do índice de açúcar no sangue está entre as principais causas de cegueira no Brasil, ao lado da catarata, glaucoma, degeneração muscular e cegueira infantil, segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas).

Adilson Gilli, 54, que é deficiente visual há três anos, faz parte desse grupo de brasileiros que perderam a visão em decorrência da diabetes. Há quatro semanas, ele recebe a técnica da reflexologia aplicada por Francelina e Roque na Apodet.

“É bem impactante para mim. Você sai daqui relaxado. E, para nós, que somos deficientes visuais, há sempre um probleminha. Ou é depressão, ou diabetes, pressão alta. E, realmente, a reflexologia estimula bastante. Você sente falta quando não faz. Eu tinha pressão alta, e está me ajudando muito”, contou Adilson, enquanto recebia a técnica por Francelina.

Alguns índices mostram que o número de cegos que perderam a visão ao longo da vida é maior em comparação aos que nasceram sem poder enxergar.

Assim como Adilson, o também cego Roberto de Campos, 76, perdeu a visão ao longo da vida. Mas, no caso dele, foi em decorrência de problemas na retina.

“Eu não conhecia essa técnica da reflexologia, mas estou bastante satisfeito. (A técnica) tem me deixado muito bem”, acrescenta Roberto, cego há 11 anos, enquanto recebia a técnica das mãos de Roque.

Ele e a irmã Francelina – conhecida pelos colegas da Apodet apenas por “Celina” – aplicam o tratamento de forma voluntária nos deficientes visuais que frequentam a associação.

A ideia, no entanto, é ampliar o público atendido, recebendo até pessoas que não têm nenhum tipo de limitação. Neste caso, a sessão, que dura 50 minutos, seria paga, e parte do dinheiro, revertido à Apodet.

Desde agosto deste ano, os irmãos aplicam a técnica nos cegos que frequentam a associação. No entanto, eles já frequentavam a instituição havia alguns anos.

No entanto, apenas em janeiro de 2014 iniciaram o curso de reflexologia podal na Asac, associação de Sorocaba voltada a deficientes visuais. Eles formaram-se em julho passado.

Roque já conhecia a Asac, onde frequenta há mais de dez anos. Foi pela proximidade com a instituição que ficou sabendo do curso.

Ele e a irmã não tiveram que pagar pela formação na Asac, já que as aulas foram gratuitas. Ambos admitem que, caso tivessem que arcar com os custos, talvez não tivessem feito o curso de reflexologia.

De origem humilde, Francelina e Roque têm mais dois irmãos deficientes visuais em um total de seis filhos de pais que são primos. Criados em zona rural, nunca estudaram devido às dificuldades financeiras e outras oriundas da deficiência.

Mas, isso vem mudando ao longo dos últimos anos, admitem os dois. Para se ter ideia, Roque mora sozinho e Francelina é casada. Os dois vêm, sozinhos, todas as quartas-feiras de Cesário Lange, cidade onde moram.

Antes do curso, os irmãos nunca trabalharam de maneira formal. “Como na infância a gente teve, no máximo, 15% da visão e, depois, a situação foi piorando, nunca trabalhamos registrado”, conta Roque.

Ele, a irmã, Adilson e Roberto fazem parte dos 6,5 milhões de brasileiros que têm alguma deficiência visual. Desse total, 528,6 mil são incapazes de enxergar. Contudo, não são incapazes de se capacitar para trabalhar, na opinião de Roque.

De acordo com ele, a formação no curso de reflexologia, por exemplo, abriu nova perspectiva para a vida de ambos. Eles admitem, no entanto, a dificuldade que é começar uma carreira com idade avançada e, sobretudo, sendo cegos.

Contudo, eles garantem não se importar com os obstáculos. “A gente tem que se esforçar, fazer cursos, ser independente. E vamos tentar expandir, para as pessoas saberem que a deficiência não é um limite”, aconselha Roque.

Já Francelina destaca o significado do trabalho na vida dos deficientes para que eles se sintam “úteis”.

“Isso (o trabalho) é muito importante, porque o deficiente, às vezes, se sente muito incapaz, pequeno, se sente uma pessoa inútil, uma pessoa pesada para a família. E não é assim. Tem que dar a volta por cima. Buscar ser melhor, ser independente, e não se fazer de vítima”, aconselha.

“Pai e mãe que têm filhos deficientes não podem deixar (o filho) se fechar dentro de casa, não achar que só pai e mãe sabem o que é bom para eles”, diz ela.

“E, principalmente, deficiente visual que tem a cabeça boa tem que buscar se adaptar e viver, porque a vida continua. Você só não enxerga, mas o resto funciona bem”, finaliza.


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