Quatro décadas de desenvolvimento de gestão e pessoal no Hotel Del Fiol

Fábio R. Vieira conta como é gerenciar o mais tradicional hotel da cidade

A história do hotel Del Fiol em Tatuí está solidamente atrelada à trajetória de vida de seu funcionário mais antigo. Em 2024, Fábio Rogério Vieira completa 40 anos dedicados ao empreendimento hoteleiro mais tradicional da Capital da Música, fundado em julho de 1936.

A O Progresso de Tatuí, o gerente-geral lembra como foi o início do trabalho dele no hotel, a contribuição para a evolução do espaço e o aprendizado ao longo destas quatro décadas.

Vieira conta ainda guardar as primeiras orientações de Oswaldo Del Fiol logo que passou a fazer parte do estabelecimento, em 1984, aos 17 anos. “Ele falou, você vai aprender a tratar as pessoas pelos seus títulos. Então, era ‘senhor’, ‘senhora’, ‘doutor’, ‘doutora’. Para ele, era muito sério trabalhar os pronomes pessoais”, aponta.

O empresário Oswaldo Del Fiol conduziu o hotel por praticamente 50 anos, entre os quais, Vieira também destaca os ensinamentos de cordialidade e respeito para com os hóspedes. E mais: “Aprendi tarefas básicas do dia a dia, como consertar a cama, arrumar chuveiro, arrumar a cama e servir mesas”, reforça o gerente-geral.

“Ele me ensinou uma coisa importante: que amor com amor se paga. Ele tinha o um jeito interessante, sério, mas, para ele, o amor é que gerenciava as coisas”, salienta.

“Ainda em 1984, ele falava para mim: ‘Se meus amigos chegarem aqui no hotel e eu não puder atendê-los, você faz sala a eles até eu chegar’. Então, fui aprendendo com ele”, complementa. Assim, recepcionando importantes nomes de Tatuí da década de 80, Vieira sustenta ter aprendido com cada um deles.

“Mas quem eram os amigos dele? Doutor Simeão Sobral, Nilzo Vanni, Dr. Nelson Marcondes do Amaral, Dr. Milton Stape, Prof. Deócles Vieira de Camargo, Frank Del Fiol, José Maurício Del Fiol, Acácio Manna…”, enumera Vieira.

“Agora, imagine um jovem de 17 anos conversando com uma pessoa do nível de Prof. Deócles Vieira de Camargo? A quantidade de informações que essas pessoas passavam a mim, subjetivamente?”, questiona.

De acordo com Vieira, foi a partir desse círculo de amizades entre Del Fiol e as figuras ilustres da época, que ele percebeu a grande oportunidade de crescimento, tanto pessoal quanto profissional, em estar no hotel.

O gerente-geral sustenta que cada uma dessas pessoas com as quais tivera contato o ajudaram a desenvolver-se como profissional e cidadão. Além disso, também por eles, reconheceu a representatividade que a empresa hoteleira tinha – e segue tendo – em Tatuí.

“Para mim, foi uma experiência marcante. Dentro de mim, existe um pouco de cada um deles. Respeitosamente, não estou à altura, mas cada um me ajudou a formar a pessoa que sou hoje”, acentua.

Pouco tempo depois, Vieira conta ter sido convidado por Del Fiol para ser apresentado como “amigo dele” em um evento recém-criado no Rotary Club da cidade. Nesse dia, conta que cada um dos rotarianos tinha de levar alguém e apresentá-lo durante o jantar do Dia do Amigo.

“E fui com o senhor Oswaldo. Eu já era secretário dele, mas fui levado e apresentado como amigo naquela noite especial. Para mim, foi muito significativo. Os rotarianos que lá estavam levaram os melhores amigos, e o senhor Oswaldo levou um jovem ainda”, relembra, emocionado.

Durante as décadas dedicadas ao Hotel Del Fiol, Vieira afirma que a empresa sempre prezou pela qualidade de atendimento e infraestrutura. Desta forma, ele sustenta que, tanto na administração de Oswaldo Del Fiol e Yolanda Del Fiol quanto na atual, de Raul Del Fiol (filho de Oswaldo), nunca fora negado a ele nenhum curso de aperfeiçoamento.

Ele afirma que, para os empresários, não importava – e continua não importando – onde seria o curso e quanto iria custar, desde que fosse para a melhoria do hotel.

“Então, fui crescendo como pessoa e amadurecendo. Casei-me e fui constituindo família, mas também fui crescendo profissionalmente a partir do incentivo que eles me davam”, salienta.

Vieira reforça que, desde a administração de Oswaldo Del Fiol, sempre foi incentivado a estudar e a preparar-se por meio de centenas de cursos, os quais fizera na área de hotelaria, operação, gestão, controles ambientais, uso de produtos.

“Tudo que existe dentro do hotel eu fui aprendendo e aplicando. Era algo importante, porque eu tinha onde exercitar o meu aprendizado”, ressalta. Quando os assuntos relacionados a sustentabilidade e questões ambientais ainda não eram tão evidentes, por exemplo, o Hotel Del Fiol já “pensava à frente”.

Entre os anos de 1998 e 2007, a empresa hoteleira já se destacava em serviços de reciclagem de materiais e energia solar. Porém, Vieira conta que tudo era feito por meio de uma filosofia aplicada pelo hotel, não visando nenhuma forma de divulgação.

“Ninguém falava em reciclagem de lixo, e o Hotel Del Fiol já praticava. Tudo o que era produzido aqui era reciclado”, lembra Vieira, acrescentando que os valores gerados com o processo já eram direcionados às famílias carentes em pequenos projetos sociais conduzidos pela equipe do hotel. “Era coisa interna nossa. Sem divulgações, nada. Mas, para nós, era uma forma de ajudar as pessoas”, acrescenta.

Ainda, antes de tornar-se amplamente praticado pela sociedade, o uso do gás natural e televisão via satélite também aconteceram de forma pioneira no Del Fiol. Além disso, Vieira conta ter sido o hotel a segunda empresa na cidade a possuir o serviço de fax.

“O fax veio dos Estados Unidos e do México. Então, as pessoas da cidade vinham no hotel para passar fax. Antes, o equipamento só tinha na Santista”, lembra.

No tempo em que fazer ligações telefônicas era tarefa que requeria paciência, o hotel implantou o sistema “Fale Fácil”. Nele, os hóspedes podiam realizar, de forma facilitada, ligações interurbanas. “O hotel sempre foi pioneiro. A gente foi introduzindo esse pioneirismo e servindo à população”, afirma.

Por outro lado, Vieira lembra que, pouco antes do falecimento de Oswaldo Del Fiol, ocorrido no ano de 1995, ele ajudou a cuidar do “patrão-amigo”.

“Quando ele foi adoecendo, passei a ter uma outra atividade completamente diferente. Eu cuidava dele. Ele era bem tratado, tinha discernimento e era inteligente. Nunca ficou incapaz. Mas eu, junto com a família dele, participava dos cuidados. Era como se fosse um pai”, relata.

Com o falecimento de Oswaldo, aos 80 anos, o hotel passou a ser gerido por Raul e a sobrinha, Eliza Del Fiol. De acordo com Vieira, a partir dessa nova gestão, o hotel passa por um novo processo de modernização.

E, assim como o Del Fiol estava à frente de seu tempo nas décadas de 50 e 60, Vieira sustenta que a empresa hoteleira foi acompanhando as características do tempo.

“Isso é importante, porque, em 1955, ele era um hotel moderno, dentro das possibilidades que tinha naquela época. Então, foi se mantendo atualizado no mercado. Só que, de 1996 para cá, essa atualização ficou mais radical, até por conta do próprio mercado. É como se fosse um gráfico em constante evolução”, esclarece.

Entre as evoluções do Del Fiol, Vieira reforça a reforma de ampliação implementada entre os anos de 2016 e 2018. Ele conta que, a partir desse período, pôde colocar em prática tudo o que aprendera durante a pós-graduação em administração hoteleira, no ano de 2012, no Senac de Águas de São Pedro.

“Quando cheguei na entrevista da pós-graduação, eu sabia o que eu queria fazer”, afirma, já antecipando as ações e reformas pensadas para manter o Del Fiol em sintonia com o mercado, senão à frente dele.

Considerando possíveis outros empreendimentos na área – já que, na época, o Del Fiol era a única empresa hoteleira mais bem localizada na cidade -, Vieira desenvolveu o trabalho de conclusão de curso (TCC) da pós-graduação focado na concorrência.

Com o tema “Reposicionamento do Hotel Frente a um Cenário de Concorrência”, Vieira informa ter buscado preparar a administração do hotel para esse momento futuro.

“Já analisava o mercado antes de 2012 e sabia que iria chegar a concorrência. Eu monitorava o mercado hoteleiro de forma mais inteligente desde 1992, quando comecei a trabalhar mais forte os eventos. Então, eu sabia que a concorrência iria chegar e, com ela, um mercado mais competitivo”, ressalta.

Assim, o Del Fiol estava preparado para as mudanças, mesmo ainda não se sabendo se a futura concorrência viria a partir de um hotel independente, de alguma família ou de uma rede hoteleira.

“Mas, eu sabia que isso iria ocorrer. Então, em 2012, já fiz todo o plano estratégico dentro do meu curso da pós-graduação”, comenta. Desta forma, Vieira foi desenvolvendo possibilidades de enfrentamento, no mercado, frente a um cenário de concorrência mais acirrada.

E, a partir desses estudos, com apoio da segunda geração dos Del Fiol e consultores especializados, ele pôde adequar o hotel à realidade e às necessidades do mundo contemporâneo.

De acordo com Vieira, também a partir de estudos, feitos pelo hotel entre os anos de 2014 e 2016, a empresa hoteleira está estruturada para atender às normas de qualidade para os próximos 20 anos. Além disso, reforça que o Del Fiol está alinhado estrutural e fisicamente para firmar parcerias até internacionais.

Para isso, as dependências do hotel foram construídas com base nas normas hoteleiras internacionais. No entanto, ressalta Vieira, o propósito do empreendimento é continuar atendendo aos hóspedes por meio de uma gestão ligada socialmente com a cidade de Tatuí.

“Hoje, o Hotel Del Fiol cabe dentro de qualquer parâmetro nacional ou internacional. Já o deixamos preparado para uma possível parceria, que ainda não precisou, porque nós temos uma boa gestão”, sustenta.

Para o gerente-geral, os valores e o caráter da gestão do hotel estão, de certa forma, ligados às questões locais. “As grandes redes têm uma visão de ‘cima para baixo’. Como exemplo, eles decidem na Europa o que será aplicado em um hotel na avenida Paulista”, aponta Vieira.

“Tudo bem, respeitando as diferenças culturais entre os países, mas são coisas decididas a nível de Europa que vêm parar aqui. Então, nós temos uma gestão de ‘baixo para cima’, desenvolvendo as necessidades do mercado, adequando o produto, serviços e aquilo que as grandes redes e empresas não têm a flexibilidade para o atendimento. Aqui, nós privilegiamos a interação com a comunidade”, afirma.

Vieira defende esse modelo de administração por também entender que o hotel tem contribuído e sustentado um legado frente à história de Tatuí. E essa proximidade faz com que as pessoas associem a imagem do Del Fiol à própria cidade.

Vieira reforça, ainda, a importante contribuição da história do Hotel Del Fiol para que Tatuí fosse reconhecida como Município de Interesse Turístico (MIT).

Ele lembra que, se a cidade não tivesse hotéis de qualidade atendendo aos critérios exigidos pela Secretaria de Turismo do estado para a condição de MIT, certamente Tatuí não seria contemplada com o título.

De acordo com ele, a pasta estadual exige alguns parâmetros de características para que possa atender caravanas de um determinado grupo, como o da terceira idade, por exemplo.

“O parque hoteleiro é fundamental para o recebimento do MIS e outras questões, como em relação à elevação de Tatuí à condição de estância”, comenta. Para isso, disse responder, com frequência, relatórios e questionários para que o hotel esteja nas condições estabelecidas pelo estado.

Vieira ainda antecipa alguns dos projetos de novas melhorias no hotel. Entre eles, o início da reforma de oito suítes e da sala de eventos. Assim que concluída, Vieira afirma que o hotel ganhará novos espaços, atualizando-os para o mesmo nível de outros quartos, deixando-os com características que os hotéis costumam ter nas áreas de tecnologia, para que o cliente possa desfrutar de uma experiência ainda mais diferenciada.

“Queremos fazer com que a experiência dos hóspedes, já andando pelos corredores, seja uma experiência ainda mais agradável até eles chegarem aos quartos”.

Concluindo a conversa, Vieira relembra um dado importante na cultura dos proprietários do hotel, seja do passado ou os de hoje: “A conquista de novos amigos é mais importante que o próprio negócio.”

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