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    Início Colunas Editorial Para frutos “sempre” doces e duradouros

    Para frutos “sempre” doces e duradouros

    A 12ª Feira do Doce de Tatuí não foi apenas uma festa, apresentando-se como a confirmação, em números, sabores e sons, de que a cidade encontrou um caminho sólido para transformar sua identidade em desenvolvimento.

    Em um ano simbólico, quando Tatuí celebra seus 200 anos de existência formal e assume, pela primeira vez, o status de estância turística do estado de São Paulo, a feira se coloca como o principal elo entre passado e futuro: preserva a tradição doceira, impulsiona a economia criativa e projeta a cidade para além de suas fronteiras.

    Os dados da edição de 2026 são eloquentes. A organização estima que cerca de 350 mil pessoas circularam pela Praça da Matriz ao longo dos cinco dias de evento.

    Foram 49 produtores locais oferecendo mais de 250 tipos de doces, desde os clássicos ABC até criações contemporâneas, com opções inclusivas para dietas sem lactose, sem açúcar, sem glúten e veganas.

    O volume de vendas aproximou-se de 328 mil doces comercializados, gerando uma movimentação financeira de R$ 4,29 milhões – o maior resultado já registrado na história da feira. Além disso, foram criadas 571 vagas de trabalho, entre empregos diretos e indiretos, evidenciando o impacto social do evento.

    Mas o que esses números revelam, de fato, é que a Feira do Doce deixou de ser apenas um encontro gastronômico para se tornar um motor turístico estruturante.

    A pesquisa de demanda turística mostra que 35% dos visitantes vieram de fora da cidade, incluindo pessoas de outros estados e até do exterior, como Espanha e Portugal. Isso não é acidental.

    A feira se consolidou como um dos principais atrativos do interior paulista, atraindo turistas que, além de consumir doces, movimentam hotéis, restaurantes, comércio e serviços locais.

    O ticket médio de R$ 31,90 por visitante, somado aos gastos com hospedagem, transporte e alimentação, demonstra que o efeito econômico da feira se irradia por toda a cadeia produtiva do município.

    A programação cultural acentua essa vocação. O Festival Capital da Música “Maestro Antônio Carlos Neves Campos”, realizado em paralelo, reuniu mais de 30 atrações em cinco dias, com gêneros que iam do choro ao k-pop, passando por MPB, samba, jazz e música instrumental.

    A abertura oficial, com a Orquestra Sinfônica de Tatuí e a participação especial de Luiza Possi, não apenas marcou o início da feira, mas fez valer plenamente o título de Tatuí como Capital da Música. A diversidade artística, aliada à qualidade técnica dos músicos locais, leva o evento a ir muito além do consumo de doces.

    A feira também se posiciona pelo compromisso com a inclusão e a acessibilidade. A “Hora do Autismo”, os abafadores de ruído, os assentos reservados, os banheiros adaptados, o piso tátil, os QR Codes para cardápio e programação e a presença de intérpretes de Libras são exemplos de que a cidade aprendeu a receber bem a todos.

    A segurança, reforçada pelo sistema de monitoramento Muralha Digital e pelo reconhecimento facial, garantiu tranquilidade ao público e permitiu até a identificação de procurados pela Justiça.

    Outro ponto de maturidade é a profissionalização do setor. A parceria com o Sebrae, que subsidiou estandes para MEIs e microempresas mediante horas de capacitação, demonstra que a feira não vive apenas de tradição, mas de gestão, planejamento e qualificação.

    Os próprios produtores reconhecem isso: 95,9% dos expositores classificaram a edição como “ótima” ou “boa”, e 82% dos visitantes avaliaram o evento como “ótimo”. A aprovação é alta, mas não é cega.

    Os próprios levantamentos apontam que a variedade de doces e a programação musical são os pontos mais elogiados, enquanto a estrutura e o atendimento também recebem notas elevadas.

    É assim que a feira se torna, também, um instrumento de afirmação da identidade local. Com esta receita, o Guia Turístico e Gastronômico “Tatuí Cidade Ternura”, distribuído gratuitamente durante o evento, funciona como uma ponte entre moradores e visitantes, apresentando a história, os patrimônios materiais e imateriais e as opções de lazer da cidade.

    O totem “100 Dias para os 200 Anos”, instalado no paço municipal em parceria com a Strufaldi, também trabalha no sentido de “pertencimento” e celebração do bicentenário. A feira, assim, não é apenas um destino turístico, resultando em um espaço de memória, orgulho e projeção.

    Ainda assim, como em toda feira que se preze, há um “senão” a ser dito com respeito e intenção construtiva. A Feira do Doce é, antes de tudo, um encontro popular. O público espera, além de qualidade, diversidade e bom atendimento, preços convidativos.

    Afinal, feira é feira: o visitante quer sentir que o prazer de provar, escolher e levar doces para casa não se transforma em surpresa indigesta na hora de pagar. Como diz o ditado com uma pitada acrescida de amargo, se a sede for exagerada ao pote de doce, um dia ele pode secar – ou, melhor dizendo, azedar. Ninguém deseja isso para a Terra dos Doces Caseiros.

    A recomendação, portanto, é simples: que a profissionalização que já chegou à gestão, à capacitação e à acessibilidade também chegue, com sensibilidade, à política de preços.

    É possível conciliar margem justa para o produtor e acessibilidade para o público. A própria tradição da feira, que nasceu do trabalho artesanal e familiar, ensina que o valor do doce está tanto no sabor quanto na generosidade do gesto de oferecer.

    Se a feira crescer demais sem cuidar desse equilíbrio, corre o risco de se transformar em algo que não é: um evento caro, distante e excludente.

    Mas, olhando para o conjunto da 12ª edição, o saldo é inequivocamente positivo. A Feira do Doce de Tatuí prova que tradição e inovação podem caminhar juntas; que cultura e economia não são mundos separados; que turismo de qualidade se faz com planejamento, inclusão e respeito ao visitante. Ao celebrar o bicentenário e inaugurar sua fase como estância turística, Tatuí tem, na feira, a receita mais doce de todas: a de uma cidade que sabe transformar sua história em futuro.