O suicí­dio e a carta

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Há 60 anos, no dia 24 de agosto, lá pelas 8h20 da manhã, uns poucos funcionários do Palácio do Catete ouviram um estampido, o presidente Getúlio Vargas se suicida. Sai da vida e entra para a História. Algumas horas depois e nos dias seguintes, o rádio e a imprensa divulgaram a famosa “Carta Testamento”, que comoveu o país inteiro. Enfim, foi o sacrifício do “Pai dos Pobres”.

Para se entender aquele momento da história do Brasil, é necessário voltar um pouquinho no tempo, mais precisamente na posse de Vargas, em janeiro de 1951. Nessa ocasião, o presidente eleito discursou defendendo veementemente a nacionalização do petróleo. Uma campanha publicitária dali em diante propagava “O Petróleo é Nosso”. Essa política nacionalista, nesse momento, despertou acirrada oposição dos internacionalistas ou “entreguistas”. Esses defendiam a abertura da economia ao capital estrangeiro e também a não intervenção do Estado na economia, ou seja, o liberalismo econômico. A crise política se instalou nos primeiros instantes de seu governo.

Em 1952, o Congresso Nacional debatia calorosamente o projeto de nacionalização do petróleo enviado por Vargas. O PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) apoiava, a UDN (União Democrática Nacional) opunha-se, e o PSD (Partido Social Democrático) estava dividido. Finalmente, em 1953, a definição: a Petrobrás foi criada.

A criação da estatal Petrobrás, aparentemente, mostrou que o velho Vargas estava na berlinda.  Revelou-se uma grave crise política que tomou conta da nação. Explode uma campanha extremamente raivosa contra Vargas, a qual invadiu o cotidiano de todos os brasileiros. Os principais interlocutores das críticas desferidas sobre o presidente e seu governo eram, em boa medida,  muito bem arquitetadas por vários setores da sociedade. Contavam com boa parte da imprensa, com a UDN e com seu principal representante, o eloquente Carlos Lacerda.

Se tudo está ruim, pode ficar pior. No mês de agosto de 1954, o fato derradeiro, o “Atentado da Rua Tonelero”.  Trata-se da tentativa de assassinato de Carlos Lacerda quando chegava ao seu prédio localizado no bairro Copacabana, zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Lacerda foi ferido no pé, mas o seu segurança, o oficial da Aeronáutica, major Rubens Vaz, morreu. Os olhares se voltaram sobre Getúlio e seus familiares, seu irmão Bejo Vargas e seu filho Lutero. Eram alvos das denúncias e críticas pelo grupo oposicionista.

Vargas anuncia no rádio que vai mandar investigar o crime. A FAB (Força Aérea Brasileira) se antecipa e instaura um IPM. A FAB se posicionava ao lado de Lacerda e de políticos udenistas.

A imprensa brasileira noticia e provoca dúvidas acerca da integridade do governo e seu governante.

No calor da crise, o vice-presidente, João Café Filho, conversou com Vargas e pediu para renunciar. Este disse: “Só saio do Catete morto”.

O suicídio do presidente Getúlio Vargas e a divulgação de suas razões através da célebre “Carta Testamento” despertaram uma enorme comoção nacional. As pessoas saíram às ruas lamentando a morte do “Pai dos Trabalhadores”. O grupo oposicionista já era chamado de grupo golpista. Um golpe de estado não era viável, não naquele instante. Lacerda, políticos da UDN e militares, transformam-se em um grupo golpista de plantão, aguardando um melhor momento para tomar o poder. E o melhor momento foi  dez anos mais tarde, em 1964. O golpe instalou uma ferrenha ditadura no Brasil.