Violência e impunidade

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Em março, uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) alertou para um fato que, até então, era alarmante. Dizia o estudo que 65% dos brasileiros acreditam que o uso de pouca roupa e corpo à mostra justifica um ataque sexual. Corrigido o equívoco, o Ipea aponta que são 26%, e não 65%, aqueles que pensam dessa forma.

Claramente, a pesquisa de “tolerância social à violência” foi motivada pelas estatísticas oficiais, dos órgãos de segurança pública, e por documentação extraoficial – aquela violência que não é denunciada, mas que é de conhecimento público. A violência contra mulheres é uma chaga muito difícil de ser eliminada, quiçá combatida. Isso é consenso.

Com a pesquisa, o Ipea ouviu 3.810 pessoas (homens e mulheres) e tentou levantar motivos ainda desconhecidos para a violência. Mais do que isso: buscou verificar se tais “explicações” não estariam baseadas em crenças populares. A violência teria razões culturais.

Perguntaram se “a mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. A resposta: “sim”, para 65% dos entrevistados. Isso indica que, atualmente, em tese, as mulheres dispõem de meios mais eficientes para se proteger e se livrar de companheiros violentos – pelo menos, meios melhores do que no passado. A discussão quanto a isso, se existe, é mínima.

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Situação diferente aconteceu com o resultado – errôneo – da questão seguinte, que apontou relação entre a violência sexual e o modo como as mulheres se vestem. A repercussão chamou a atenção pela intensidade, o que era de se esperar, afinal, a sociedade brasileira estaria muito longe de evoluir se, de fato, 65% dela concordasse que existe uma relação entre roupa ousada e os estupros.

O problema é que o resultado errado foi utilizado para reforçar teses também equivocadas. Artigos com caráter feminista circularam em diversos jornais e, nas redes sociais, debates intermináveis sentenciaram o “pensamento machista” como principal culpado da violência contra as mulheres.

A existência do machismo também é fato sabido e notório e gera conflitos em determinadas situações. Porém, com ou sem correção do Ipea, é muito fácil saber que o culpado “número um” para a violência – sexual, contra as mulheres, ou qualquer outro tipo – só acontece por causa da impunidade, o mais grotesco dos fenômenos brasileiros.

Por isso, causa espanto constatar que tantos autodenominados “especialistas” tenham construído teorias mirabolantes em cima de uma inverdade. Agora que o Ipea corrigiu sua pesquisa, cumpre uma nota de caráter positivo: se ainda temos situações abundantes de violência contra as mulheres, pelo menos a maioria de nós começa a demonstrar que não concorda com isso. É um começo.

* Jornalista


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