Proposta de governo

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Alguém acredita que, neste domingo, ao votar, estará utilizando o teclado para contribuir com a beatificação de algum candidato a santo no Palácio do Planalto? Certamente, não.

Ambos os postulantes têm lá seus pecados, embora – sem dúvida, também -, não saibamos nem pequena parcela de suas infrações, posto avolumarem-se as acusações de lado a lado, com e sem fundamento.

A imensa maioria, no entanto, parece estar, mais preocupada com a economia, saúde, educação e segurança. Natural. Fica a impressão de que nunca foi tão soberana a máxima malufista do “rouba, mas faz”.

Não fosse assim, se a corrupção estivesse em primeiro plano, somente o escândalo envolvendo a Petrobras já teria definido a eleição. Mas, não.

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Repetir ao eleitor a necessidade de escolher o menos ruim na política seria o mesmo que ensinar o padre a rezar e o pastor a orar. E é essa mesma a responsabilidade do povo brasileiro hoje: avaliar qual o caminho menos tortuoso a ser seguido nos próximos quatro anos.

Oportunidades não faltaram, especialmente em meio a uma campanha na qual não faltaram emoção, mentiras, cara de pau, hipocrisia, demagogia, oportunismo, fanatismos e muita, muita publicidade enganosa.

Aliás, a publicidade de maquiagem maquiavélica só deixou transparecer o rosto verdadeiro dos candidatos quando eles xingavam-se nos debates – também daí a importância de se valorizar (e garantir) estes momentos tão produtivos e alegres para a população.

É inacreditável, num país supostamente democrático (como se fosse!) que o Judiciário, de repente, queira “proibir” as ofensas entre os políticos…

Como assim? Esse pessoal perdeu a visão da realidade? Será que se esqueceu de que até as brigas – ou especialmente em meio a elas – servem para demonstrar com mais clareza quem é quem? E, portanto, quem merece nosso voto?

Um presidente da República, entre outras tantas atribuições, é eleito para representar a nação e, assim, deve ser chamado à briga periodicamente.

Não se trata de ofender ou estapear o Barack Obama porque mandou botar escuta nos telefones da comunicação oficial brasileira, mas de sabermos como nosso representante maior se porta em situações críticas, como enfrentará seus desafios e oponentes.

Fora isto, é brutal a arrogância de certa casta nacional que se entende tão superior às demais, julgando-se – sempre – capaz de impor o que o povo pode e o que não pode saber, ouvir, ver!

Não são apenas “julgadores” por ofício: colocam-se como os únicos detentores do poder de julgar absolutamente tudo, inclusive o que está “fora da lei”.

São os donos da nova moral – absurdamente conservadora na superfície retórica – e nós, o povo, somos idiotas, que não sabemos sequer dissociar as apelações das ideias (as tais “propostas de governo”). Por certo, derretemos feito lesma no sal quando ouvimos um palavrão.

Por outro lado, os poucos condenados por corrupção, quando raramente detidos após anos de recursos sobre recursos, logo estão na rua… Isso pode? Isso não é reprovável? Dá ou não vontade de soltar os palavrões mais cabeludos em direção aos três Poderes?

Pior que o moralismo boçal, por sua vez, tem sido a tônica da campanha, a qual estimula uma perigosa e infundada cisão entre supostos pobrezinhos em contraposição a famigerados capitalistas.

De maneira rasa, em explícita aposta na ignorância generalizada, impõe-se à população a falsa ideia de que se vive uma guerra (nos moldes da luta de classes marxista) entre pobres e ricos; negros e brancos; nordestinos/nortistas e “sulistas”; e – ridículo! – “os do bem” e “os do mal”…

O maior símbolo deste apartheid social já se tornou o programa Bolsa Família, necessário, sim, para o combate à miséria, mas que, em simultâneo, não deixa de ser esmola – uma esmola dada por políticos a uma grande parcela da população, porém, com o dinheiro de todos e intenções questionáveis.

Tornou-se instrumento imprescindível à eleição de qualquer candidato. Ai daquele que insinuar o fim do programa, ainda que para 2085… Nunca mais ganha eleição!

Seria interessante, por este aspecto, que não deixássemos, ao menos, de reconhecer a necessidade de outras ações junto a esse programa de sucesso, como a verdadeira preparação de novas gerações que não precisassem de esmola.

Para tanto, claro – e como sempre -, a educação pública seria a solução. Porém, se (muito bem) educados, os filhos dos beneficiários, no futuro, iriam querer mais, muito mais. E, com certeza, não aceitariam esmola.

Se isso ocorresse, como ficaria a fórmula de eleição à base do coitadismo? Não ficaria, tal como seria inócuo o discurso maniqueísta, bobo, da luta de classes, de cores, de gêneros… Aí, o país seria outro. Pensando nisto, seria bom não apenas pesar as esmolas do momento, mas os possíveis ganhos no futuro, ainda que para nossos filhos. Que tal esta proposta de governo?


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