Projeto leva Tatuí e artistas para escola

‘Arte em Portas’ incentiva respeito, perpetua história e revitaliza ‘Celso de Mello’

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Unidade ganhou murais internos pintados pelos estudantes sob supervisão de docentes; fábrica e museu estão reproduzidos em dois locais (fotos: divulgação)
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Valorizar o patrimônio e deixar a escola mais bonita. Esta era a ideia inicial de Rildo Miranda, Fernanda Maria Xavier de Carvalho e Cleonice Alves dos Reis Silva.

A proposta, que começou a ser discutida no início do ano pelo vice-diretor, professora de artes e professora mediadora, respectivamente, sofreu transformações. Ficou maior em um período de menos de seis meses e, desde o fim do mês passado, vem mudando a realidade da Escola Estadual “José Celso de Mello”.

Localizada no CDHU (Conjunto de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) “Orlando Lisboa”, a unidade de ensino fundamental e médio atende a cerca de 1.030 alunos, sob a direção de Marcelo Miranda. Neste ano, todos os estudantes foram impactados por uma das ações da iniciativa pedagógica da instituição.

Trata-se do projeto cultural “Arte em Portas – Nossos Artistas, Nossas Inspirações!”, que ganhou mostra inaugural na noite do dia 28 de agosto.

O evento contou com autoridades, personalidades, estudantes e familiares.

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A cerimônia foi composta por homenagens às personalidades consideradas referências em suas áreas de atuação e que colaboraram com o projeto, e apresentações artísticas de dança e música, a cargo dos alunos.

De acordo com a professora Fernanda, a primeira semente do “Arte em Portas” foi plantada pelo vice-diretor da escola. “Nós tínhamos uma parede que sofria muitas depredações e pensamos em fazer painéis, mas desistimos porque não queríamos simplesmente pagar um pintor para que ele fizesse uma releitura de uma obra artística”, contou a educadora.

Buscando envolver os alunos na proposta e dar a eles algo para que não só participassem, mas pudessem preservar, os educadores pensaram em caminhos alternativos.

Uma das preocupações era, também, dar oportunidade aos alunos de ampliarem o repertório cultural e o conhecimento a respeito da história da própria cidade.

“Nossa unidade é longe do centro, e, muitas vezes, mesmo com as ações que realizamos, um ou outro aluno ainda não conhece a história da cidade. Não visitou o Museu Histórico ‘Paulo Setúbal’ ou o Conservatório”, relatou a professora.
Para garantir aos estudantes a apropriação do conhecimento, Fernanda sugeriu a Miranda que se priorizasse a arquitetura da cidade e a história de personalidades.

“O vice-diretor então pensou em uma ação para as portas, em convidar algumas pessoas a pintá-las, de forma a valorizar a cidade, seus artistas e quem faz a diferença”, emendou.

A primeira ação consistiu na pintura de dois marcos do município: o MHPS e a antiga fábrica de tecelagem São Martinho. Os desenhos ficaram a cargo dos alunos do ensino fundamental e médio, envolvidos pela professora de artes.

Eles decoram duas das paredes entre os acessos do térreo aos pisos do primeiro e segundo andares da unidade.

Em paralelo, os professores formataram a proposta de revitalização das portas. O projeto é parte da iniciativa pedagógica denominada “A Cidade na Minha Escola”, apresentada por Cleonice. Professora mediadora, ela é responsável pela apresentação de atividades para a solução de conflitos.

Em janeiro, durante a discussão das ações a serem desenvolvidas no ano letivo, ela propôs ao corpo docente e aos administradores um desafio. Pediu aos professores que pensassem em projetos que pudessem incentivar a valorização, por parte dos estudantes, do patrimônio escolar.

“Os professores têm competências imensas e potenciais que precisam ser distribuídas. Eu disse a eles que a semente estava lançada, o que resultou nisto”, contou Cleonice, referindo-se ao vernissage realizado na última segunda-feira de agosto.

Partindo deste princípio, os professores buscaram, no próprio município, referenciais para os alunos. Chegaram aos nomes de 21 personalidades, convidadas a adotar uma porta.

Assim, participam da ação: Binho Vieira, Bruno Guilherme de Oliveira, Carmelina Monteiro, César Berlofa, Deivid Leite e Fernanda Xavier. A unidade escolar também convidou Ivan Bassi Gonçalves, Ivan Camargo, Jaime Pinheiro, Jéssica Berlofa, José Francisco (Nê), Júnior Mosko, Maria Eugênia Martins Pedroso, Marli Fronza, Mingo Jacob, Mirella Arena, Pedro Couto, Rogério Vianna, Theresinha Pinto, Thiago Lobo e a atriz Vera Holtz.

Os participantes atuam nos mais diversos setores, como arquitetura, comunicação, artes plásticas e dança. Eles projetaram, com orientação dos professores, artes relacionadas ao que desenvolvem profissionalmente.

Segundo a professora de artes, todas as personalidades foram convidadas com base na representatividade. Entretanto, o grupo não conseguiu incluir músicos. “Infelizmente, os que nós convidamos não aceitaram e, por essa razão, temos bastante artista plástico”, acrescentou.

Os convidados tiveram prazo aproximado de 20 dias para concluir a proposta de pintura das portas. “Cada artista ou convidado tem seu estilo próprio. E nós, em nenhum momento, interferimos. Apenas explicamos qual seria o ambiente”, reforçou Fernanda.

Para a professora de português Raquel Vivi Convento, que leciona há 12 anos na “José Celso de Mello”, o projeto mudou a realidade escolar. “Esta é a primeira vez que vejo a escola fazer um vernissage deste tamanho e voltado para a cultura da cidade, para valorizar as nossas sementes”, ressaltou.

“Os estudantes se sentem parte de um todo, se sentem atuantes a partir da interação. O projeto melhora a autoestima dos alunos e faz com que eles percebam que são capazes de desenvolver algo e comecem a aceitar novos desafios”, avaliou.

Na visão da professora mediadora, o envolvimento dos alunos tornou-se fundamental para que os projetos saíssem do papel. Em um segundo momento, eles continuarão a ser impactados pelos desenhos. Isso porque os professores programam uma continuidade para as ações.

“A partir de agora, vamos começar a chamar as personalidades para que eles possam ter uma roda de conversa, ou desenvolvam oficinas com os alunos, e para que os estudantes saibam quem são elas e o que fazem”, antecipou Cleonice.

Concomitantemente, os educadores iniciarão um trabalho de divulgação das contribuições dos convidados para o município, cada um em sua área de atuação. De forma a ressaltar essa intenção, a escola resolveu nomear as salas. Cada um dos espaços recebeu o nome do artista ou personalidade que o adotou.

Sendo assim, os estudantes terão acrescentados, no conteúdo programático do ano, as biografias dos patronos das portas. Ao concluírem os estudos, com o passar dos anos, terão recebido informações sobre todos os profissionais.

O processo todo contou com envolvimento de muitas pessoas, conforme o vice-diretor. Segundo Miranda, tanto estudantes como as famílias deles dividiram momentos com o corpo docente. “Quando eles começaram a desenvolver o painel da fábrica, por exemplo, muitas histórias de familiares deles (de avós, bisavós) foram compartilhadas na escola”, descreveu.

Para ele, o vernissage representou uma “grande realização” para a escola e um momento de interação intensa entre artistas e alunos. O resultado foi a melhora na autoestima do alunado e um novo projeto prestes a ser lançado.

“Teremos mais um projeto além do vernissage. Estamos preparando um livro que conta toda a história da iniciativa. Além disso, a arte continuará se perpetuando nos muros da nossa unidade”, acrescentou.

Além de publicitários, artistas plásticos, cenógrafos, escritores, atores e dançarinos, ex-alunos da escola estadual integram a lista que adotou portar. “Temos bastantes alunos artistas aqui, e uma parte deles trabalhou no mural; a outra, pintou uma das nossas portas”, contou Cleonice.

Um grupo de ex-estudantes adotou portas da cozinha e de três banheiros. O publicitário Binho Vieira explorou a reflexão, incluindo frases produzidas a partir da técnica “chalkboard lettering” (que simula a escrita com giz sobre lousa). “Incluí um pensamento para que as crianças possam ter inspiração não só no trabalho, mas a partir da carreira dos artistas”, comentou.

De acordo com ele, a iniciativa da escola proporciona mais que conhecimento aos alunos e a valorização do patrimônio público: garante a eles a possibilidade de contato com diferentes pontos de vista.

“Os professores tiveram a sensibilidade de homenagear, em vida, o que temos de melhor na cidade em termos de cultura e em todos os estilos”, argumentou.

A atriz Vera Holtz não pôde estar presente ao vernissage, em função de compromissos profissionais. Entretanto, deu vida a um dos trabalhos mais comentados pelos convidados, alunos e professores.

“Como ela não é da área da pintura, a Vera resolveu promover um concurso na unidade. Ela mesma sugeriu temas para que os alunos desenvolvessem os traços”, contou a mediadora. Um foi eleito, e Vera solicitou ao artista Mingo Jacob que o pintasse na porta.

Os resultados causaram euforia entre os alunos, uma vez que eles só tomaram conhecimento das artes nas entradas das salas de aula após o período de férias. As intervenções aconteceram em julho, quando a unidade estava em recesso.

“Eles não tinham o costume de circular por todo o espaço da escola. Até então, quem estudava no primeiro andar ficava lá e, depois, ia para o pátio, no intervalo, e só”, lembrou a professora de artes.

“Mas, a curiosidade, no primeiro dia de aula, fez com que eles percorressem todos os ambientes, estimulando o sentimento de pertencimento. A consequência disso é a valorização da escola”, acrescentou.

Para Maria Eugênia, uma das patronas das portas, todo esse envolvimento pode resultar na revelação de novos talentos. “Serve de estímulo para que os alunos possam produzir ou se interessar por arte, e de reconhecimento aos artistas”, avaliou.

Outro aspecto é o de interação entre os próprios envolvidos. Mesmo morando há mais de 20 anos em Tatuí, Maria Eugênia relatou não conhecer profundamente o trabalho de todas as pessoas que “fazem a diferença” na cidade, mas que, com o projeto, começou a se inteirar mais.

A artista plástica Theresinha Pinto também elogiou a iniciativa. De acordo com ela, a ação representa um modelo a ser reproduzido em outras unidades de ensino.

“Estou até fazendo propaganda para que outros criem algo semelhante e para que todos os artistas e pessoas que queiram possam colaborar”, confessou.

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