Professor Diógenes

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Memórias do meu pai, o professor Diógenes Vieira de Campos, aos 98 anos de idade.

Bem, amigos do jornal O Progresso de Tatuí. Aqui, inicio meu novo texto, copiando a fala do grande locutor Galvão Bueno nas aberturas dos eventos esportivos da TV Globo. Volto agora, após a grande oportunidade dada pelo jornal na edição especial de 11 agosto, na ocasião do aniversário de 192 anos de Tatuí.

No especial “Voss da História”, pude reeditar textos e também publicar novos artigos, nos quais retratei os bons tempos da nossa cidade, dando a oportunidade de milhares de pessoas de aprenderem um pouco mais de nossa história.

Aqui estou eu novamente, após refletir, aprender e ser cuidado e cuidar, pensei em pôr o gravador para documentar uma boa conversa, em que ele foi relembrando fatos de sua história em várias fases da vida.

Um filho falar do pai é muito complicado, sem dizer suspeito. Pois a nossa família é muito bonita, forte e unida. Para não o fazer entrar em detalhes familiares, que possam fazê-lo mergulhar em um mar de tristezas e de saudades, foquei e deixei-o falar de sua própria história, na verdade eu gravei-o sem ele saber da gravação.

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Mas, para iniciar essa nova viagem e nos situar no tempo, vamos apresentá-lo: Diógenes Vieira de Campos nasceu em 9 de agosto e foi registrado em 13 de agosto de 1920, filho de Antonio Vieira de Campos e Eugênia Vieira Rodrigues. Seus irmãos João, Antonio, Maria José, Benedito e Terezinha.

Então, a partir de agora, com vocês, a história de um homem simples, sério, honesto e cumpridor de todos os seus deveres e obrigações. Um super e dedicado pai de família e professor de matemática e física, que lecionou no “Barão de Suruí”, em Tatuí, onde ensinou milhares de pessoas da cidade. Um cristão exemplar, artesão de terços, um grande e sábio amigo e homem. Com vocês, meu pai.

Como foi a infância do senhor no sítio?

Era sem grandes coisas. Naquele tempo, ajudávamos nossos pais, quando eles iam trabalhar na roça. Eu e meu irmão íamos à escola de cavalo, pela manhã. Quando voltávamos, o cavalo comia um pouco de milho enquanto nós trocávamos de roupa. Após o almoço, íamos para o pasto buscar as vacas de leite.

Eu e meu irmão Antonio (Vieirinha) ou tio Tico, íamos ao canavial a cavalo, para buscar cana para os burros. Ela era amarrada em uma corda que ia no pescoço do cavalo. Tocávamos para casa e cortávamos a cana. Naquele tempo, a água não era encanada. Tínhamos que buscá-la e deixar na cozinha para mamãe. Depois, à tardinha, jogávamos milho para os porcos. Era essa a nossa vida.

Não brincavam muito?

A nossa brincadeira era no serviço, como andar a cavalo, fazer tramoia amarrando um cavalo no outro, soltando eles no meio do gado. Eram essas as brincadeiras.

Na época, o senhor brincava com pião, bolinha de gude?

Eu tinha pião, mas não ligava para bolinha de gude. Havia uma bola de futebol no terreiro, e brincávamos quando as empregadas voltavam da roça. Enquanto os burros comiam milho, nós aproveitávamos para brincar. Depois, os burros eram soltos, e as empregadas voltavam para casa.

Quando o senhor começou a ir à escola?

Eu tinha uns dez anos de idade. Não, era antes, pois eu vinha na garupa do Vieirinha, no cavalo. Duas vezes o cavalo nos derrubou, colocando-nos em risco. Lembro disso porque, logo depois, viemos morar na cidade. Todo mundo. Papai ia todos os dias, bem cedo, para o sítio. O trato dos animais era feito na mesma hora em que o leiteiro vinha para a cidade trazer o leite.

Papai já deixava um saco de palha, folha de coqueiro, para o cavalo comer à noite. Tempos depois, o Vieirinha foi estudar na “Álvares Penteado”, em São Paulo. Nesse tempo, eu estava na Escola Normal, em Sorocaba.

Quando terminei os estudos, resolvi ir a São Paulo. O Vieirinha dizia: “Vamos embora para São Paulo comigo”. Então, fui com ele e entrei no curso preparatório da Faculdade São Bento. Terminado o curso, de dois anos, a gente não era mais criança. Daí, entrei no curso de matemática na Faculdade de São Bento. Me formei lá.

Em que ano foi isso?

Em 1940 ou 1942… por aí. Estava concluindo o último ano de faculdade quando me casei. E, como eu já podia lecionar, Vossão arranjou, com diretores de colégio, um lugar para eu dar aula. Quando terminei a faculdade, ele conseguiu transferir-me para Tatuí. Já era professor do Estado.

Você casou com quantos anos?

Eu me casei em 28 de dezembro de 1943. A sua irmã, Maria Eugênia, nasceu em 1944. No início do casamento, nós moramos com o Vossão, porque estava ganhando pouco e não tinha como manter a casa. Na época, ele disse: “Vocês vêm morar aqui, nos ajudam nos gastos, e, depois, melhorando, vocês se mudam”. E, lá fomos nós.

Naquele tempo, para ir a São Paulo, era somente de trem?

Era de trem. Não havia ônibus. Tinha que sair de madrugada. Às 5h30, passava o trem noturno que ia para São Paulo. Dava de 3 a 4 horas de viagem. Depois que eu vim para cá. Não tive tempo nem para me despedir dos amigos. Eram poucos amigos por lá. Depois, nós íamos para São Paulo (a Maria Eugênia era novinha) algumas vezes somente.

Onde entra o ensino de Física na sua história?

Quando abriu o concurso de ingresso, prestei para física, pois física e matemática são matérias correlatas. Quem tem um curso pode lecionar o outro. Daí comecei a dar aula.

Como era a locomoção em São Paulo?

Nós andávamos de bonde por São Paulo. Não havia ônibus naquela época. Aos domingos, o nosso passeio, após o almoço, era descer até a Praça do Patriarca (largo no centro paulistano, próximo ao Viaduto do Chá e da prefeitura de São Paulo), pegávamos o bonde e íamos para todas as bandas.

Tinha em todas as praças o contorno para o bonde passar. Ia de praça em praça e passava por ruas compridas. Saía da Praça da Sé até o jardim onde passávamos as tardes.

O bonde ainda continuava o caminho. Ainda não tinha outro meio de locomoção. Era por volta de 1946, a Maria Eugênia era pequenininha ainda. A gente levava uma sacola com leite na mamadeira para ela.

Aquele tempo em São Paulo tinha lanches e refrigerante para tomar na rua?

Tinha tudo isso, mas o dinheiro era curto. Quando a gente passeava, levava um pãozinho para comer para fazer um piquenique no parque.

Em qual ano você voltou a Tatuí?

Acho que entre 1944 e 1946, por aí.

A mamãe quando veio para cá, ela veio como Educadora Sanitária?

Sim. Havia uma vaga de educador sanitária aqui, então ela aproveitou a deixa e veio. Naquela época, eu dava aulas no Paulistano e em outro colégio que não lembro o nome. Daí melhorou um pouco o meu ordenado, parei de trabalhar lá e voltei embora para cá.

Quando você voltou, foi morar onde?

Na rua Cônego Demétrio. Ficamos naquela casa uns dois anos. Daí a mamãe conversou com Julieta, que comentou que os pais dela tinham uma casa que estavam vendendo. Compramos a casa, na rua Santa Cruz. Essa casa era um pouco mais retirada da rua.

Como a criançada cresceu, precisávamos de mais espaço e puxamos a casa para frente. Meu quarto ficou na frente. Foi a única novidade desde a compra da casa. Como as pessoas dizem: o tempo passa, meu Deus do céu.

Lembra como foi lecionar no “Barão de Suruí”?

Não me lembro mais. Estou aposentado desde 1972. O tempo que dei aulas em São Paulo contou na hora de aposentar. Daí consegui o direito em 1972.

Como era ir à praia?

O meu sogro Pedro Voss Filho (Vovozão), tinha uma casa em Mongaguá. Quando chegavam as férias, nós descíamos. Não eram em todas, não. Ficávamos alguns dias e voltávamos.

Íamos a Mongaguá de trem naquele tempo, não é? Depois, voltávamos pela linha de trem?

A casa do Vovozão era meio distante da linha de trem, razoavelmente dava para ir a pé. O transporte era a pé mesmo. A criançada ajudava a transportar as malas e todos os pertences. Como não tinha muito cobertor, essas coisas, nós levávamos daqui.

Só não precisava levar comida, pois tinha lá. Quando faltava, comprávamos em um armazém e, às vezes, pegávamos um trem para Santos, para fazer compras. O tempo, ah o tempo! Era tudo feito com alegria. A criançada era obediente e o Vovozão era bravo. Ele colocava em ordem. Qualquer coisa ele ficava bravo e todo mundo obedecia.

Em que ano você comprou aquele primeiro carro?

O ano eu não lembro, mas eu comprei um Fordinho ano 1933. Esse me lembro. Vinha pagando uma parcelinha por mês. Adquiri do Nestor Grazia, por Cr$ 60 mil (cruzeiros), pagando Cr$ 5 mil por mês. Depois, fomos melhorando, vendi esse, e não me lembro para quem. Tive uma Rural, um Jeep azul, comprei outra Rural, todos Willys.

Como eram as vestimentas da sua infância?

Quando éramos pequenos, no sítio, não usávamos sapatos. Usávamos calças e ficávamos descalços. Era vida de sítio. Os sapatos eram usados somente para irmos à escola. Na verdade, eram botinas. Nas férias de dezembro, nós ficávamos no sítio, trabalhando na roça com papai. Não tínhamos tempo para vagabundear. As roupas eram feitas pela minha mãe com brim caqui e com cortes muito simples.

Como eram as comidas?

Eram as mesmas de agora: arroz, feijão, macarrão e frango. Não ia muito longe disso. Também comíamos verduras. Numa parte do quintal, mamãe cultivava uma horta. Pão, por exemplo, era feito em casa mesmo.

Quando era mocinho, tinha uns 17 ou 18 anos, ela dizia para pegar a carroça e buscar lenha seca no pasto para fazer fogo no forno. Íamos com o machado e cortávamos árvores secas e trazíamos para casa. Ela aproveitava a lenha também para fazer fogo no forno.

Como não tínhamos lenheiro, guardávamos a lenha seca junta com o milho. A vida naquele tempo não era fácil. Chegava o final de tarde e guardávamos fogo para o outro dia.

Como assim?

Guardávamos um pau de lenha, de madeira boa, madeira dura, e jogávamos no fogo para queimar. A ponta ficava em brasa e encostávamos o pau de lenha nas cinzas e, então, não apagava. Outro dia cedo, puxávamos o tição, batíamos as cinzas e esparramávamos a brasa; então, colocávamos novamente a lenha para queimar, e tinha fogo sempre.

Mas não havia papel naquele tempo?

Tinha, mas na cidade. A vida no sítio era diferente.

Como era a vida sem energia elétrica?

Chegava a noite e acendíamos o lampião. Tinha vários lampiões em casa. Cada um levava o seu para o quarto. Se, por acaso, precisasse acender o lampião durante a noite, tínhamos uma caixa de fósforos por perto.

Os banheiros eram fora?

Nós tomávamos banho na bacia. Para fazer xixi à noite, usávamos um penico, que ficava embaixo da cama. Quando a vontade era mais do que fazer xixi, fazíamos no penico e tampávamos ele. No outro dia cedo, nós dávamos fim naquilo.

Papel higiênico já tinha?

Papel higiênico é coisa recente. Era sabugo de milho naquele tempo. Tirávamos o milho seco do sabugo, que era usado para nos limparmos.

E sabonete?

Sabonete já tinha, mas, geralmente, usávamos sabão feito em casa, que era mais pesado, digamos assim.

As duas tias, Zezé e Terezinha, viviam lá também?

Elas são bem mais novas, mais recentes.

Como era a família? Tinha o tio João…

Aconteceu o seguinte: tinha não sei qual parente de papai ou mamãe que teve a chamada gripe espanhola. Essa doença matou muita gente, muita criança ficou órfã. Nessa ocasião, os padrinhos pegavam os afilhados para criar.

Em casa, por exemplo, mamãe era madrinha de Alzira. Quando a mãe de Alzira morreu, ela foi morar em casa. Viveu como filha. Trabalhava com a gente lá. Não tinha muito resguardo, não.

Tinha caderno na escola?

Geralmente, no começo, usávamos uma lousa de pedra pequena, onde escrevíamos e, depois, apagávamos com um pedaço de pano velho. Escrevíamos e apagávamos. Daquele tempo para agora é muita diferença.

E a caneta tinteiro?

Havia canetinhas com pena e tinta, em vidro. Em casa, tinha que ter os dois: a tinta e a pena. Lápis já era comum.

A primeira escola da cidade é “João Florêncio”?

Só tinha o “João Florêncio” naquela época. Depois o governo criou outros grupos escolares e colocou professores para serem diretores.

Tinha baile naquele tempo?

Tinha, sim. Até pouco tempo tinham vários clubes na cidade. O Tatuiense, o Recreativo, o Operário. Mais tarde apareceu a Sociedade Italiana. Muito depois apareceu o Clube de Campo. A cidade também contava com cinemas, como o Santa Helena e o São Martinho. Eram as únicas diversões. Às vezes, acontecia de ter bailes nos clubes com orquestras.

E as igrejas?

Só tinha a Matriz como católica e uma outra protestante. Era a única coisa que tinha. Depois começaram a criar igrejas em todos os bairros. Você está mais por dentro do que eu desse assunto.

O senhor se lembra dos médicos?

Os médicos da cidade eram o doutor Gualter (Nunes) e o doutor Almiro. Eram somente os dois, pois a cidade era pequena. O doutor Almiro era o doutor das crianças. Então, não dava para ter muito médico. Os que vinham ficavam pouco tempo e iam embora, pois não havia tanto movimento para eles. Como a cidade cresceu, apareceram outros médicos.

Me conte a história de que mamãe estava grávida e o senhor levou uma cadeira? De quem ela estava grávida?

Era de você. Naquele tempo, quando chovia à noite, não tinha como sair de casa. Ela se queixou da proximidade do parto, daí já estava com o material arrumado. Pegou uma sacola com os pertences e eu peguei numa cadeira. Era 4h da manhã. Quando apertava a dor, ela sentava na cadeira e esperava passar a dor. Daí continuávamos o caminho.

E as ambulâncias?

Ah, tinham poucos carros na cidade. Quem tinha carro naquela altura da noite já havia guardado. Na cidade, quem podia ia para a Santa Casa. Agora, quem morava no sítio, como fazia?

Quando chegava o tempo certo para o acontecimento (nascimento), papai deixava um burro amarrado na mangueira. Nós víamos o burro na mangueira e não entendíamos para que era, porque no sítio dos irmãos do papai tinha uma mulher que era parteira.

Então, tinha que deixar o burro na mangueira. Para o caso de acontecer, colocava o burro na charrete e ia buscar a mulher. Ela vinha, passava a noite, acontecia o fato, daí papai levava ela de volta. Não sei como era pago. Se tinha um preço ou pagava o quanto podia. A Zezé e a Terezinha não me lembro como foi, mas acho que com a parteira na casa.

Era a parteira que fazia?

Como nós éramos pequenos, nunca ficávamos sabendo. Acontecia quando estávamos dormindo. No outro dia cedo, víamos… Era uma coisa gozada. Nós íamos ao quarto de mamãe xeretar e olhava embaixo da cama e havia uma tesoura.

Perguntávamos para que era a tesoura, ela dizia que era para espantar não sei o quê. Inventava uma história. Era assim. Nunca ficávamos sabendo que a mamãe ia dar à luz. Não tinha isso, não. Só sabia quando tinha choro no outro dia de manhã. Davam uma desculpa para criança aceitar.

E o tempo de frio?

Meu Deus, como era duro, principalmente no tempo de ir à escola. Como vínhamos de cavalo, saíamos cedo no pasto e procurávamos o cavalo. Como estava frio, o cavalo se escondia no mato.

Como só tínhamos um par de botinas, íamos descalços buscar o cavalo. Antes de colocar a botina para ir à escola, mamãe jogava água quente com uma chaleira em nossos pés, para voltar a circulação.

Durante o frio, rachava o peito do pé e partia, sangrava e a meia grudava. Essa era a vida de sítio. De tempo em tempo, nós pegávamos para lavar o pé com caco de telha, bucha de casa e sabão.

E as chuvas?

Chovia. Tinha épocas que chovia a semana inteira. O rio saia na estrada, parava o trânsito. Quem queria vir à cidade tinha que pegar a linha pelo pontilhão. Dava uma volta.

Tinha muito peixe no sítio?

Tinha, sim. Aquele tempo era bom de peixes. Quando chovia bastante, o rio saía nas várzeas, pelos baixios, então dava para ver os lambaris pulando. Era a hora de pegar a vara, e fazia boa caçada.

Numa entrevista que fiz com o pessoal que fazia charrete, eles comentaram que o senhor tinha um trole que chamavam na época de aranha. É isso mesmo?

Se não me engano, tinha uma charrete quando morava no sítio. Depois, quando tinha que baldear leite, troquei por uma carroça. O trole era o Vozão que tinha e encostou e disse para nós usarmos. Era muito bom, mas para pouco movimento. Usávamos mais a charretinha. Não sei o estado que está.

E festa junina no sítio?

Não tinha festa, não. Era tudo diferente. Às vezes, me lembro que papai e mamãe vinham assistir à Missa do Galo. Então, já à tarde, papai prendia o animal. Quando chegava perto da hora, tarde da noite, quando estávamos dormindo, papai colocava o animal na condução e vinha para a cidade só o casal. Antes disso, os irmãos se reuniam e vinham todos a pé para a cidade.

Eles também vinham na praça?

Naquela época, nem na praça eles vinham. Esse negócio de vir à praça é mais recente. Eu peguei essa época. Era tudo muito diferente.

Como foi a invenção da televisão?

Antigamente, o que tínhamos em casa era vitrola. Dava corda e era o que tinha. Às vezes, os mais aficionados reuniam as pessoas e tocava desafio de viola nas casas.

Como era Tatuí naquele tempo?

Tatuí, por exemplo, era desse tamaninho (mostrando os dedos polegar e indicador). Depois, foi crescendo e, agora, tá uma coisa que veja só! Antes, só havia uma Santa Casa e, agora, tem dois hospitais. Por aí você vê a ascensão da cidade. Hoje, está aí um mundo de casas.

Como eram as relações de trabalho naquele tempo?

O patrão chegava e falava: eu só pago tanto. De que adianta lei para regular o salário e o pagador não ter aquilo para pagar? E vai, por isso, por aquilo, dar um recibo daquilo que está sendo mandado dar, mas não do que está pagando de verdade. O povo do sítio, por isso, teve o movimento para vir para a cidade.

O que o senhor diz sobre os dias atuais?

Hoje não é mole. Aquela questão que as pessoas faziam o almoço e jogava (fora), fazia o jantar e também fazia isso, não dá mais. A tendência é aumentar as dificuldades, não melhorar. Daqui a pouco, vai ser perigoso até fazer lavoura. Não é só lavoura, é tudo que der dinheiro está na mira de muita gente. Isso que dói.

Outra coisa é que andar depois de certa hora na rua é perigoso. Enquanto tiver movimento na rua, está bom, dá para andar, mas depois que começa escassear, vão para casa, pois tem riscos. Por conta disso, muita gente não sai às ruas durante a noite. Pode acontecer nada, mas pode acontecer tudo.

Antigamente, cada casa tinha um telefone, virava a manivela, ligava para a estação e pedia para a telefonista ligar para fulano de tal. Hoje, é só pegar isso aí (aponta para o celular) e conversar. Cada casa tinha seu telefone fixo; hoje, cada pessoa tem um telefone no bolso. Vocês sentem a mudança, mas nós sentimos muito mais. Bem, como eu falei no início não quis me aprofundar muito com relação à família, pois papai está viúvo há 12 anos e também seus dois filhos já faleceram Eduardo e Diógenes. Hoje graças a Deus continua seu artesanato religioso na confecção de terços. Gosta de ler jornais e palavras-cruzadas. A televisão só às 18h para assistir ao Terço e missa pelos canais católicos. Está sempre muito bem cuidado pela minha irmã professora Maria Eugênia e pelas acompanhantes Miriam e Arlene. Recebe sempre a visita da sobrinha farmacêutica Márcia Badin, familiares e amigos. É avô de seis netos e um bisneto. E esta foi a proposta desta entrevista, mostrar um pouco da sua história. Que bom que você leu. Forte abraço e até a próxima. Com carinho Voss.

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