Padeiro assustado

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Até pouco tempo atrás, era bastante comum a presença de carrocinhas de entrega de pães rodando pela cidade. Aliás, carroceiro já foi uma profissão concorrida, em uma época em que todo o transporte era realizado por veículos de tração animal.

Pois bem, um dos últimos entregadores/vendedores de pão mais conhecidos de Tatuí chamava-se Alfredinho. Ele trabalhava com os pães da Padaria Record, ali da rua 11 de Agosto, cujo prédio foi demolido há uns dois anos.

O cavalo que puxava a charrete do Alfredinho de longe era percebido, pois tinha alguns cincerros em seu arreio que badalavam incessantemente, avisando que estava passando com deliciosos pães quentinhos.

Muita gente contratava seus serviços para ter, logo pela manhã, esse saboroso alimento bem fresquinho, sem que fosse necessário ir até uma padaria para comprar. Além disso, os pães da Padaria Record eram muito apreciados. Alfredinho percorria a cidade toda, todos os dias, desde bem cedo.

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Reinaldo Pedroso contou que, em uma ocasião, ocorreu uma passagem interessante com o entregador de pão, que vale a pena relatar.

Foi um incidente com um pedreiro conhecido como Nhô Arlindo. Na descrição que me fez o Reinaldo, esse não era um bom profissional. Era, quando muito, classificado como pedreiro “meia colher”. Um quebra-galho. Contou que, ao realizar um serviço na chácara do senhor Rafael Peixoto – uma privada daquelas de fossa -, com a primeira chuva, a construção desabou, devido, certamente, ao trabalho ruim que realizou.

Quando Rafael Peixoto foi reclamar do resultado desse serviço, o tal de Nhô Arlindo respondeu:

– Ué? O senhor queria que durasse a vida inteira? – com a maior cara de pau, argumentou, sem considerar que havia durado apenas um dia.

Como se tratava de um pedreiro com pouca habilidade, propôs-se a realizar reformas em sepulturas no Cemitério Municipal, atualmente batizado de Cemitério Cristo Rei.

Para todo serviço realizado no cemitério, a prefeitura cobra uma taxa. Nessa ocasião, o prefeito era o Olívio Junqueira, e, mesmo para o mais chegado de seus amigos, ele não perdoava a cobrança das taxas municipais.

Então, o Nhô Arlindo, ao tratar com alguém a prestação de serviços em sepultura, geralmente às vésperas de Finados, além do valor de seu trabalho, cobrava do cliente a taxa que a prefeitura cobrava. Justo e certo.

Porém, como era espertalhão, Nhô Arlindo não recolhia a taxa e, por esse motivo, não lhe seria permitido trabalhar dentro do cemitério. Isso no horário em que o campo-santo permanecia aberto.

Então, Nhô Arlindo ficava rodeando o cemitério, conversando aqui e ali, junto com alguns ajudantes, na maior parte das vezes um parente. Aproveitava para conversar com as pessoas que procuravam alguém para reformar uma sepultura. Ia junto com a pessoa lá dentro apenas para conhecer o local da sepultura a ser reformada e dar um orçamento.

Quando contratava o serviço, utilizava de um estratagema. Na madrugada, ainda bem escuro, ele e seus ajudantes pulavam o muro e iam trabalhar nos túmulos contratados, reformando e pintando, ganhando assim, como um bônus, a taxa não recolhida na prefeitura.

Uma madrugada qualquer, já fazia um bom tempo em que estavam trabalhando no cemitério, no meio da escuridão, tendo um pequeno lampião de querosene para iluminar o lugar. Medo? Nenhum. Precisavam ganhar um dinheiro e fariam qualquer coisa. Se lhes aparecesse o próprio diabo, agarrariam em seu rabo para poder terminar o serviço. Mas estavam com fome.

Em um dado momento, ainda estava bem escuro, Alfredinho vinha com sua charrete em direção à vila Primavera, para entregar seus pães. Passava na travessa entre o cemitério e o clube 11 de Agosto, com os cincerros anunciando sua passagem.

Nhô Arlindo e seus companheiros escutaram o tilintar das sinetas, e um deles correu até o muro e gritou:

– Ei, Alfredinho! Joga um pão para mim aqui! – dando assobios para chamar a atenção do carroceiro.

Ah, porquê!!! Naquela rua erma e escura, que até hoje dá má impressão em quem por lá passa, Alfredinho ficou arrepiado até a alma. Chicoteou sem dó o pobre do animal e, agarrado à boleia, gritando de medo, desapareceu dali.

O susto foi tão grande que, mesmo depois de encontrar-se com o Nhô Arlindo e este lhe esclarecer o ocorrido, nunca mais passou por aquela travessa, deixando sempre para o amanhecer as entregas da vila Primavera.


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