O mistério de São Jorge

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Lá pelos anos 60/70, Tatuí era ainda uma pequena cidade; todo cidadão conhecia todo cidadão; era um mundo diferente, mais aconchegante e menos frio.

E é nessa atmosfera provinciana que se passou esta história. Havia uma empresa de ônibus, a São Jorge, cuja sede ficava entre as ruas 11 de Agosto e São Bento. Seu Luiz Richi era o proprietário, gerente e até motorista. Seus ônibus eram conhecidos por jardineiras e transportavam passageiros, é claro, mas também sacos de milho, feijão, mandioca e galinhas, pois, ao transitarem entre os bairros, e até nas cidades vizinhas, tinham a função social de colaborar com os pequenos agricultores.

A estrada Tatuí/Capela do Alto, nesse tempo, era muito ruim, cheia de buracos, pontes estreitas, muita lama na chuva, muito pó na estiagem, animais atravessando a pista, um aranzé. A linha de ônibus São Jorge ia muito além de Capela, se estendia até a longínqua Sorocaba; uma viagem que, para ir e vir, durava quase um dia; era um sobe e desce, vira pra lá e vira pra cá sem fim.

A jardineira, em azul e branco, tinha na lateral uma imagem bem grande de São Jorge, montado em seu cavalo branco, enfrentado valentemente o ranzinza e feroz dragão.

Foi numa dessas viagens até Sorocaba que o senhor Richi, atuando como motorista, junto com seus passageiros, passou por um perrengue daqueles. Calma, eu explico! Na ida, deu tudo certinho: saída do ponto quase na hora, parada em Capela para comer um gigante e gostoso bolinho de frango (de farinha de milho e pedaços inteiros de galináceos) com café de coador de pano, ou uma garrafa de taubaina feita em Tatuí. Depois, estrada e solavanco até a cidade dos tropeiros. Tudo certo!

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Na volta é que deu zebra!   Como já dissemos, a estrada era muito ruim, mas tinha duas curvas que não eram ruins, eram o fim do mundo: cascalho solto, um caos (até o Tita Bastos, que tinha carro do ano e era bom motorista, havia se perdido por ali).

Responsável como sempre, o Richi, quando se aproxima da curva e ladeira, que ficava em frente à fazenda do Quim Marques e só terminava no rio Tatuí, pisa no freio para reduzir a velocidade… Cadê o freio… cadê?

Sem freio, a jardineira toma velocidade e dispara ladeira abaixo. Foi aquela gritaria, gente pra um lado, galinhas pra outro; lá atrás, um saco de batatas orgânicas abriu-se e rolou pelo corredor, derrubando alguns de costas e outros de bruços.

Richi gritou:

– Valei-me meu São Jorge!

E grudou na direção e rezou para que o veículo não caísse fora da ponte do rio Tatuí… E não caiu, passou raspando pela guarda de proteção, mas não caiu…

A seguir, o motorista herói, aliviado, estaciona a jardineira no acostamento, quase em frente à fazenda Zília, e sai para dar uma respirada. É aplaudido por todos, pela sua valentia e capacidade. Menos pelo dono das batatas que estavam espalhadas pelo “busão” todo.

Aliviados, os passageiros olhavam para o motorista que, severamente, afirmou que foram salvos graças à intercessão de São Jorge, e, solenemente, caminha até a lateral do ônibus para saldar o santo ali estampado.

Espanto geral: cadê o santo? O santo sumiu! O que teria acontecido? Todos falavam ao mesmo tempo… Uns diziam que era um milagre, pois o santo teria ido até ao céu pedir proteção divina aos passageiros; um evangélico gritou em transe que o santo ficou com medo e pulou do veículo.

Um beudinho, ainda atordoado, afirmou que o santo, devido aos solavancos, caiu da jardineira e estava indo embora a pé. A verdade é que, ao chegarem em Tatuí, cada um contou a sua própria versão e a notícia era comentada por todo lado.

Dias depois, veio à explicação para o fenômeno paranormal: a jardineira tinha sido comprada já com as cores azul e branco, e posteriormente, o pintor multifunção, Januário Mota, foi contratado para pintar o São Jorge na lateral do veículo.

E ele, como artista completo, fazia as próprias tintas – uma mistura de óleo de linhaça, alvaiade, secante e pó xadrez, uma verdadeira alquimia. A pintura ficou muito bonita, só que, com o trepidar do “busão”, ela descolou e caiu!

Explicação dada, mas não convencida. Alguns insistiam que tinha sido um milagre, e o pudim de cana, então, continuou dizendo pelos bares da cidade, entre uma talagada e outra, que vira um homem de armadura e lança andando pesadamente lá pelos lados da vila Esperança.

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