O centroavante brilhante

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Em Tatuí, os nomes de batismo nem sempre são válidos para todas as ocasiões. O que vale mesmo são os apelidos. E apelidos grudam. Ouvi um dia destes o João Batista Soares dizer, arrependido, pelo fato de ter ficado bravo quando, no grupo escolar, os colegas começaram a chamá-lo de Batata quando ele levou como lanche duas batatas doces assadas.

Quem conhece o João Batista? Ah, mas ele trabalhou durante anos no Conservatório, até se aposentar. Lá, é conhecido como Batata.

– Eu achei ruim, e o apelido ficou! – disse, conformado, o Batata.

Pois bem, acredito que poucas pessoas conhecem um homem chamado Osvaldo Paes de Camargo. Mas todos conhecem o Aranha Cigano, ex-jogador de futebol, um dos mais brilhantes que já surgiram na cidade. Hoje, o Aranha se dedica a negociar relógios. Percorre a cidade toda para barganhar, vender ou comprar relógios.

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Quando jogava futebol, foi imbatível como centroavante. Aranha não tinha medo de enfrentar quantos fossem que se colocassem para tentar barrar seu ataque ao gol. Muitos, quando sabiam que ele ia jogar, corriam fazer apostas de que ele marcaria dois ou três gols. Barbada! Logo, ninguém apostava contra, pois o homem era bom mesmo.

Conversando sobre o assunto, Aranha contou diversos fatos de sua vida no esporte. Jogou no Municipal, no São Martinho e no São Bento de Sorocaba. Ele mesmo disse que “nasceu no campo do Municipal”, que hoje faz parte do Cemitério Cristo Rei. Como tatuiano nato, é bastante provável que, no futuro, ainda ocupará um pequeno lote nesse antigo campo de futebol.

Mas, quis o destino que sua carreira futebolística fosse interrompida precocemente. Em um jogo, ao avançar rumo ao gol adversário, chocou-se com um jogador da defesa, conhecido como João Cyborg (vejam só, outro apelido).

Cyborg, segundo o Aranha, é um homem com uma cabeça enorme e, nesse choque, acabaram por bater cabeça com cabeça. Como consequência, Aranha, em desvantagem devido ao tamanho da cabeça do Cyborg, desmaiou e só voltou a si em um hospital de Sorocaba. Estado muito grave.

O diagnóstico não era bom. Teria que passar por uma cirurgia imediatamente. Pacientemente, Aranha aguardava o momento de ser conduzido ao centro cirúrgico em um quarto com mais três pacientes.

O primeiro companheiro de enfermaria foi conduzido à cirurgia, mas não resistiu e veio a falecer. O segundo paciente também não voltou, morreu. Enquanto isso, o Aranha ficava cada vez mais preocupado, pois seria o quarto a ser operado. Logo, conduziram o terceiro paciente. Também morreu.

Ah, mas ninguém esperava a reação do Aranha. Levantou-se no meio da madrugada, de pijamas, pulou o muro do hospital e fugiu. E sobreviveu. Até hoje ele acha que, se tivesse passado pela cirurgia, teria ficado por lá mesmo.

– Eu, hein! – rindo, Aranha confirma sua fuga. Porém, não conseguiu mais jogar seu futebol. Coisas do destino.

– Ah, aproveitando a conversa, tenho aqui um “Oméga Ferradura”! Quer comprar? – encerrando o papo, o Aranha ainda aproveitava-se da ocasião para oferecer um de seus relógios Omega.


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