Nunca vi um paí­s fechar

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Ao mestre Eleazar de Carvalho, com carinho

Um dia, descobri a pedra fundamental para meu aprendizado de vida: ouvir os ensinamentos dos que têm grande sabedoria. Não falo de simples aulas, mas de certa convivência com eles, por mais curta que seja, escola a ser cursada por etapas e a longo prazo. Respirar o mesmo ambiente, ouvir-lhes o dom e o tom das palavras, absorver pensamentos, rito de admiração e cumplicidade. Em classe de alguns raros, cheguei a gravar aulas para ouvi-las novamente em casa, tomar notas, não perder nada. Também falo do mestre que há nas pessoas mais simples, no mais das vezes de idade avançada, muito experientes. Poucos alunos pensam assim, os mestres de hoje não costumam ser vistos como antes, infelizmente.

Ano que vem completam-se 20 anos que Eleazar de Carvalho esteve no palco do Teatro Municipal pela última vez. Lá, foi velado pela família, amigos e músicos. Meus tempos de convivência com ele foram puro garimpo: tiradas geniais, na velocidade que ele queria ensinar aos músicos: “Vivacidade, vivacidade!”, bradava para a orquestra. Tinha perspicácia surpreendente para analisar os acontecimentos políticos, mesmo sem envolver-se em nenhum deles. Disse-me um dia: “Caro professor, tive muitos amigos comunistas, e sempre os respeitei, dou-me muito bem com eles”. Mas eu não sou comunista, falei, eu diria se fosse, sou um desencantado com esse novo tipo de doença infantil (que era como Lênin, artífice da revolução de 1917, se referia aos que se diziam esquerdistas. Ele os descartava, achava-os um atraso na luta pelo socialismo real). Ah, então esqueça, concluiu o maestro.

Foi um teste, tudo o que ele falava embutia um truque, uma pegadinha, às vezes um motivo para anedota. A Osesp ensaiava no Teatro Sérgio Cardoso, e um dia fomos tomar um café – convite que, em seu código de sinais, era para saber de alguma coisa. Ofereci-me para pagar e ele deixou, coisa que não era de seu estilo. Despejei de uma pequenina bolsa moedas sobre a palma da mão, e ele arregalou os olhos vendo umas fichinhas de DDD para orelhão. Ora, exclamou, o senhor está com más intenções! Deduzi que queria saber se eu estava planejando sair da cidade. Acho que não pensava nisso. Retruquei de pronto, não, maestro, é que mudei de bairro, e uma nova linha de telefone demora muito para ser instalada!

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Tive outros mestres, alguns bem idosos, outros menos. Pela presença, observando-lhes as mãos, pela leitura de gestos, olhos e palavras. Entre eles, meus professores de instrumento e composição nos EUA, e aqui, também, outros com quem tive curto mas proveitoso trânsito. E os eventuais, como o Frei Betto, meu pai e um primo dele, grande advogado que me ensinou muito sobre a arte forense. Houve também um economista de enorme peso que me dava breves e sutis lições sobre condução de reuniões, administração pública, cuidados com procedimentos corretos e traquejo político. Quase que por osmose, também vale a turma de artistas que volta e meia passava na casa de meus pais, e apesar de eu na época ser criança ou adolescente, marcou-me à medida que fui descobrindo quem eles eram. Livros, estudos, teses, pesquisas, títulos, tudo foi meu chão, claro, mas a experiência com esses mestres foram as asas para a minha formação.

O episódio que agora vou relatar aconteceu por volta de 1986. Um ano antes José Sarney era empossado presidente da República, sucedendo o general João Batista Figueiredo. A eleição indireta de 1984 fora vencida por Tancredo Neves, que faleceu antes de assumir, em abril de 1985. Sarney, eleito vice, tomou posse, embora o Art. 2o do Ato Institucional nº 16, de 1969, decreto imposto pela ditadura, pudesse ter sido usado como impedimento: “Art. 2° – É declarado vago (…) o cargo de Vice-Presidente (…), ficando suspensa, até a eleição do novo Presidente e Vice-Presidente (…)”. Mas o regime fez vista grossa por simpatia ao Sarney, na transição “lenta, gradual e segura”, pois da maquiada realidade econômica já escorria uma inflação de 239% e uma grave recessão à sua espera! Inábil e inapto como líder e executivo, não seduziu povo e empresários com os planos Cruzado I e II, Bresser e Verão.

A inflação galopava como os cavalos puro-sangue do general Figueiredo no pátio do quartel do III Exército. A frase “a economia vai bem, mas o povo vai mal”, já foi atribuída a outros generais, mas os bastidores creditam-na a outro oficial de altos coturnos, general Golbery do Couto e Silva, o Niccolò Machiavelli de todos os príncipes, deixando ver que a camuflagem da economia estava apodrecendo. Inconformado com a ascensão do general Costa e Silva à presidência, Golbery deixa o governo para assumir a presidência nacional da norte-americana Dow Chemical, a partir de 1968 – apenas quatro anos após o golpe que teve participação decisiva de grandes empresas e serviços de inteligência americanos. Casamento pouco cristão ou “kosher”, celebrado com a bênção de nossa então chamada matriz.

Certo dia, saindo de um ensaio, eu e o maestro assuntávamos sobre os rumos do país. Como músico, eu ganhava 7 mil cruzeiros, ou 7 milhões, se o Plano Cruzado, um mês antes, não tivesse surrupiado três zeros do salário. O dinheiro era o mesmo, mas os milhões fascinavam, apesar de os zeros nada valerem. Foi quando ele fez uma afirmação meio surreal, coisa que eu não repetiria, sou inveterado otimista. Fitou-me e afirmou, com o humor sério e cáustico de sempre: “Nunca vi um país fechar, mas sempre pode haver uma primeira vez”.


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