Januário Mota: o avatar tatuiano

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Januário é um verdadeiro fenômeno. Está com mais de 90 anos e não deixa a peteca cair. Outro dia, ele me ligou (ele liga sempre) e disparou:

– Ivan, quero fazer uma proposta para você: que tal montarmos um circo? Será um bom negócio! Vamos contratar o Luiz Silvestre para ser o MC (mestre cerimonia), eu serei o mágico e você, o palhaço. Quê “cê” acha?

Respeitei o seu quase um século de existência.

Para ilustrar as milhares de aventuras vividas pelo nosso superstar, vou contar apenas três:

1 – Certa vez, o Luiz Silvestre estava ali na rua 11 pintando um letreiro na parede de um estabelecimento comercial. De repente, surge o Januário em seu Fusca, cujo motor só funcionava com um só pistão; tuf, tuf, tuf, cof, cof, cof. Viu o Luiz na escada e estacionou o possante. Desceu e ficou olhando o serviço, e, louco de vontade para um “parpitinho”, subiu uns três degraus da escada e lascou a falar. Foi aí que o destino interveio e, ao gesticular, deu um raspão em si mesmo e jogou a linda peruca que usava dentro da lata de tinta vermelha, deixando à mostra sua reluzente e redonda careca. Januário desceu da escada resmungando, pegou uma varetinha e fisgou a peruca todinha vermelha e respingando tinta, entrou no enferrujado veículo e foi-se embora.

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2 – Januário tinha um circo. O “home” era empresário circense!  Perambulava pelo estado se apresentando com seus bonecos, peças teatrais de origem europeia e seu inseparável sócio e amigo Godinho. Com seu nariz redondo, sua bengala e baita sapatão, fazia a festa da criançada.

Certa vez, depois de se apresentarem em mais de uma dezena de cidades, estavam em Laranjal Paulista quando, de repente, baixou a saudade de casa nos dois artistas.

– Vamos pra Tatuí? – disse um.

– “Vambora”, estou com saudades das crianças – respondeu o outro.

Na mesma hora, começaram a colocar na carroceria do caminhãozinho Ford Bigode a lona e as estacas. Tudo pronto, tomaram rumo a Tatuí. Como estava meio frio, pararam num barzinho, compraram um litrão de pinga amarelinha e amarraram um longo barbante no pescoço da “mardita” com o seguinte propósito: Januário ia em cima das tralhas para ver se alguma coisa cairia na estrada e, para esquentar, tomaria uma talagada do pingão e, através da cordinha, ele descia o litro até o Godinho, que também matava o bicho.

A coisa até que ia bem, mas, quase na metade do percurso, a pinga acabou e a sorte também. Os dois já estavam alegrinhos e, ao passar por uma curva bastante fechada, Godinho não conseguiu manter a direção e saiu estrada afora, carpindo mato, e só parou ao colidir com um grande e forte cupim. Por muita sorte, os dois nada sofreram, mas o cirquinho ficou espalhado pra todo lado!  Acabava aí a gloriosa vida circense de nossos heróis tatuianos.

3- Januário morava numa casinha na vila Esperança. Na frente, um pequeno cômodo onde ele vendia balas e pirulitos para a petizada, alunos de uma escola próxima. O negócio ia tão bem que ele temia incomodar o Carrefour. Ao lado, a sua impávida garagem.

Muito bem, certo dia, fui tomar um café na pastelaria do Toninho, no Mercado, e, a seguir, tomar um pingão no Bar do Levi, logo em frente, quando topei com o Januário, todo remendado: uma tipoia num braço, esparadrapo no nariz e um baita sapatão de gesso que o fazia andar como um ET embriagado.

– Que foi isso, caro amigo? – indaguei.

– É o seguinte – disse ele, jogando a bengala no chão. – Dias atrás, cheguei em casa, estacionei o Fusca 69 em frente de minha garagem e fui abrir o portão. Abri e escancarei o dito cujo e, quando virei para retornar ao carrão, percebi que tinha esquecido de puxar o freio de mão e o “marvado” começou a andar sozinho. De repente, disparou garagem adentro, passando com tudo por cima de mim. Ralou a testa, uma pancada no olho, arrancou minhas calças e passou por cima de meu pé – contou.

– Cheguei todo arrebentado na Santa Casa, e a polícia queria saber quem eram os cangaceiros que tinham me arrebentado todinho. Tudo explicado, tudo remendado, agora é esperar o dia de tirar este sapatão, porque não aguento mais coçar com um espetinho de churrasco.

Esse é meu bom amigo Januário Mota.

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