Imensamente gratos!

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Quando se fala em “responsabilidade e assistência social”, em geral, sobram demagogia e oportunismo, ao passo em que faltam ação prática e sinceridade. Isso é tão verdade que já existe forte sentimento de descrença, desconfiança quando governos e empresas começam suas costumeiras retóricas enfatizando o “social”.

Claro, isto se inverte quando o serviço é prestado por entidades sem fins lucrativos. Exemplos são vários, aqui mesmo em Tatuí. Aí, a proporção entre boas e más intenções é francamente favorável ao número de entidades que, verdadeiramente, presta auxílio.

A despeito disso, o jornal O Progresso – uma empresa privada – sustenta uma iniciativa que soma caráter social com incentivo artístico há 20 anos – aliás, com início bem anterior ao abominável “politicamente correto”, portanto.

Trata-se do Concurso Artístico e Literário de Natal, que completa, em 2015, sua 21ª edição. Já houve momentos em que, diante do grande trabalho para se efetivar essa iniciativa, que exige enorme boa vontade de um número razoável de pessoas, já se pensou em simplesmente fazer o mais simples: nada.

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É muito menos trabalhoso (e lucrativo) sobrepor uma série de mensagens alusivas à data e pronto! O jornal fica mais gordinho, já apresenta algo além do rotineiro e acabou. Mas, não. A intenção de contribuir com algo realmente positivo em termos sociais, tal como surpreender o leitor, ainda nos motiva a continuar.

Em alguns momentos, esta convicção pareceu ser em vão… Mas, em outros, vale muito. E como vale! Neste ano, como não acontecia havia várias edições dentro dessa proporção inesperada em volume, qualidade e situações emocionantes, houve uma renovação de ímpeto, motivação e, especialmente, alegria.

Por alguns poucos exemplos já se evidenciam os motivos da satisfação. Um deles é figurado por Alex Kauan Coelho Cassimiro, 10, vencedor em desenho pelo grupo do 4o e 5o ano, aluno da escola “Accácio Vieira de Camargo”.

Ele participou com um trabalho artístico considerado pela comissão julgadora como “tecnicamente perfeito”. Para obter o resultado, o aluno teve de abrir mão, ironicamente, do perfeccionismo.

“No desenho dele, você pode perceber que houve uma troca de cor, e o Alex quase desistiu, pois não encontrava o mesmo tom de azul que ele tinha pintado o céu. Daí eu expliquei para ele que o céu não é de uma cor só, que tem várias tonalidades. Ele mudou a cor e me surpreendeu”, admite a professora de artes Maria Elaine Bueno Gurgel.

Contudo, além da perseverança, Alex surpreendeu mais uma vez quando, durante a premiação, que é dada em dinheiro, comentou: “Vou comprar arroz e feijão para dar a ela (a mãe), pois ela precisa”. Um menino de dez anos!

Para a mãe, a premiação foi um alento, um pontapé que pode motivá-lo nos estudos. “Foi uma notícia gratificante, pois ele já teve problemas na escola por faltar e não fazer os deveres de casa. Ele dava um pouco de trabalho para fazer a lição”, contou ela.

“Para mim, é uma honra, um orgulho esse prêmio. É uma recompensa para mostrar que o que ele está fazendo não é à toa”, disse Tatiane Coelho.

Já no grupo 6º e 7º ano, o melhor texto na avaliação da jurada Leila Sallum Menezes da Silva foi o elaborado pelo estudante Lucas Lima dos Santos, aluno do 7º ano da Escola Estadual “Chico Pereira”.

No texto, ele afirma que mora na cidade há cinco meses e que passará o primeiro Natal em Tatuí. Ele também lamenta a separação da família por conta de conflitos.

“Vim de outra cidade, Itararé. Viemos eu, minha mãe, minha irmã e meu irmão. A gente não conhecia a cidade. Moro aqui faz cinco meses. A nossa família é separada por conta de conflitos familiares. Daí, eu contei sobre a expectativa minha sobre o Natal aqui”, comentou, também durante a premiação.

“Me falaram muito bem do Natal de Tatuí. Disseram que a praça é decorada. Espero ter aqui um Natal melhor, porque, no ano passado, passamos o Natal só eu e minha mãe. Aqui, fui acolhido”.

Lucas diz ter ficado surpreso ao ser comunicado da vitória no concurso. “A coordenadora chegou à sala – a gente estava na aula da professora Camila -, me chamou e perguntou sobre a redação. E ela me disse que eu tinha ganhado em primeiro lugar”, contou ele.

“Fiquei surpreso, pois não tinha gostado do final da redação, achei que ficou meio estranho. O pessoal começou a gritar, foi uma alegria só”, prosseguiu.

A professora Camila Vieira de Paula enfatiza que a premiação é parte do hábito de leitura do estudante. “O Lucas gosta muito de ler. E toda a leitura que ele faz, ele se envolve muito. O Lucas não escreve para informar alguém, ele escreve para emocionar. Se ele continuar escrevendo, tem um futuro literário muito bom pela frente. Quando escreve, mexe com o nosso coração, na verdade”.

“O Lucas chegou meio tímido na cidade. Ele veio de uma situação familiar muito complicada. A mãe dele veio à escola e a gente conversou muito sobre ele. O fato de ele ter se socializado rápido e ter conseguido conquistar esse concurso, esse vai ser um dos melhores Natais da vida dele”, contou a professora.

A mãe do premiado, Maria Ester Lima, soube da premiação quando chegou do trabalho em casa, de madrugada. “Tinha um papel colado na geladeira, dizendo que ele ganhara o prêmio. Ele acordou e me disse que ganhou em primeiro lugar, que viria aqui tirar uma foto e que a gente sairia no jornal, e que iria ganhar um prêmio em dinheiro”, contou ela.

“Com essa dificuldade que estamos passando, eu me divorciei do pai dele e viemos para cá tentar uma vida melhor. Sou auxiliar de montagem. Eu monto caixa de papelão. Entro às 15h30 e saio às 3h da manhã. Tem dias que faço hora extra. Tudo para dar uma boa criação para esse menino”, afirmou ela.

Além da premiação de R$ 250, Lucas ganhou uma bolsa de estudos do CCAA Tatuí, o patrocinador. E, nós, organizadores, jurados, patrocinadores e colaboradores do concurso, ganhamos um final de ano mais feliz, gratos por podermos ter contribuído, ainda que pouco, com o “espírito do Natal”, marcado pela solidariedade, pela esperança e pela fraternidade.


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