Imagens sacras ganham ‘velha roupagem’

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Divulgação

Vaneska realiza trabalho com imagem na própria residência

 

“Eu trabalho na minha casa, na madrugada. Faço nesse período porque eu não atuo somente na restauração, pois sou designer e também auxiliar do consultório do meu esposo. Para mim, é um hobby fazer o restauro, é uma satisfação ver uma peça pronta e finalizada”.

Assim Vaneska Sagas Carvalho Tucunduva, 41, restauradora tatuiana, descreve a atuação voluntária dela junto às igrejas da cidade.

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Ela foi a responsável por resgatar a originalidade da imagem da Santa Inês, da Igreja Nossa Senhora da Conceição, e de São Pedro, da Comunidade de São Roque, no bairro de Americana.

Vaneska também trabalhou em diversas imagens da Igreja São Judas Tadeu, além de realizar restauração em peças particulares. “Já perdi as contas de quantas peças já restaurei”, comentou.

Ela começou com o trabalho de restauração quando ainda estava no Guarujá, em 1997. “Lá, eu fiz alguns cursos com especialistas da área de restauro. Mas, recentemente, concluí um curso de patrimônio e restauro numa faculdade”, contou.

“Sempre desenhei e pintei muito bem. Então, é um dom que Deus me deu. Como sou católica, sempre estive presente nas reformas das igrejas. Numa dessas obras, tinha um presépio, e eu comecei a restaurá-lo. Assim, eu não parei mais”, lembrou.

Vaneska explicou que a restauração é produzida por meio de procedimento muito delicado e demorado. Disse que, dependendo das condições da imagem, é necessário retirar toda a tinta e refazer algumas áreas que podem estar quebradas.

“Não é qualquer tinta ou material, por exemplo, como lixas, que podemos utilizar para a restauração. No entanto, o primeiro passo é reconhecer o contexto em que a peça foi criada”.

Depois, ela precisa saber se a pintura é original, pois, se não for, é preciso retirar todos os antigos reparos para chegar até a “primeira camada” da peça. O objetivo dessa etapa é ter a pintura original para “restaurar todos os detalhes”.

Segundo a restauradora, muitas pessoas que não têm o preparo ideal fazem qualquer tipo de trabalho, sem a preocupação necessária que o procedimento exige. “Eles fazem o que ‘dá na cabeça’. Por isso, preciso chegar ao original, e a retirada da tinta demora”.

Ela conta que existe uma “tecnologia” por trás da restauração. Exemplifica dizendo que precisa saber onde a peça estará exposta, pois, “se o local for muito úmido, será necessário um pigmento específico para esse clima. Se pegar muito sol, ela utiliza outros tipos”, revelou.

Vaneska explicou que as técnicas utilizadas para o restauro dependem de cada imagem. “Em gesso, geralmente, você faz a modelagem de alguma parte do corpo, por exemplo. Temos várias técnicas, varia bastante para cada caso”.

A principal atuação de Vaneska é com as imagens sacras, a área com a qual ela “se identifica mais”. “Tem pessoas que trabalham com pintura, mas aí já entra em outra área que eu não gosto, pois é mais tecnológica. Eu prefiro o trabalho manual”, contou.

A restauradora lembrou de um caso recente, no qual uma mulher pediu para ela trabalhar em um crucifixo. Contudo, ela disse que estava muito danificado. “Se eu fosse restaurá-lo, ficaria perfeito, mas, financeiramente, não compensava para a cliente”.

Vaneska contou que o crucifixo ficava ao relento e, por conta disso, a madeira sofreu muita contaminação de bactérias. “Para fazer um bom trabalho, eu teria que usar um ataque de ácido em toda a peça até resgatá-la novamente”, explicou. “Então, eu falei para a dona comprar um novo. Nessa parte, eu sou supersincera”.

O alto custo da restauração, segundo ela, acontece por causa do material de trabalho. O pincel que ela utiliza é alemão, com pelo de pônei, e a grande maioria das tintas é feita sob encomenda. “Encontramos alguns dos pigmentos no Brasil, mas o preço é ainda caro”.

“Na maioria dos casos, para as igrejas, eu só cobro o material de trabalho. Como sou católica, fico com dó de ver as imagens sacras quebradas. Por exemplo, apenas a restauração da imagem no São Judas Tadeu custaria R$ 3.000”, revelou Vaneska.

A cidade é um mercado interessante para atuação dos restauradores por conta da grande quantidade de imagens sacras, indicou Vaneska. Ela conta que existem outros profissionais de restauração que residem no município, mas ela é a única formada.

De acordo com ela, os estudos fornecem técnicas e uma visão diferente aos alunos. “Quem não conhece a imagem afirma, pensa, que a restauração está boa. Mas, quando faço um novo procedimento, os donos da imagem ficam mais contentes, devido à originalidade da peça”.

“A imagem do São Vicente de Paulo, localizada no asilo, é de madeira e datado de 1906. A pessoa restaurou o rosto dele com Durepox. Eu tive que remover todo esse material para ele ficar de acordo com o original”, lembrou.

O tempo da restauração também depende do porte da imagem, afirmou Vaneska. Ela citou novamente como exemplo a imagem de São Judas Tadeu, que mede por volta de 1,50 metro.

“O trabalho nessa peça durou oito meses. Depende do estado que a imagem está e quantos restauros foram colocados. Também tem a questão do verniz, porque, se foi utilizado muito no último trabalho, tenho que diluí-lo antes de aplicar novas tintas”.

Ela disse que não pode estipular prazo para a entrega das imagens, pois “é imprevisível”. “Geralmente, as peças chegam na minha mão, e vou catalogando a ordem de entrada”, explicou.

Por fim, lembrou do trabalho mais cansativo que teve. Foi há três anos, no Santas Missões Redentoristas de Tatuí.

“O povo sempre quer tocar nas peças. Eu fazia quase dez restaurações por dia, e tinha que ser rápido, pois as imagens tinham que ser recolocadas nos eventos. Mas, eu realmente gosto de trabalhar com calma, para fazer algo mais caprichado”.


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