Carros e carroças

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Em um momento descontraído de bate-papo com amigos, lembramo-nos dos automóveis de alguns anos passados. Toninho Gallo lembrou-se de uma ocasião em que foi ao litoral com seu pai e, no retorno, o carro, um Ford Prefect, não conseguia subir a serra. Como saída, seu pai manobrou o carro e subiram de ré. Claro que paravam de vez em quando para resfriar o motor.

Nas serras, nesse tempo, muitos carros parados, com o capô aberto, saindo fumaça, era o cenário mais comum. Os veículos, importados, não eram adaptados ao clima tropical e, assim, seus sistemas de arrefecimento não eram capazes de suportar o esforço nas subidas. A rodovia Raposo Tavares, na altura de Cotia, parecia um estacionamento, tantos eram os veículos parados no acostamento, esperando o motor esfriar para continuar.

Lembrei-me de um Renault Juvaquatre, ano 1948, que meu pai comprou de vovô Ernestino, mais ou menos em 1960. Quando percebi que estava negociando o tal automóvel, disse para meu pai não comprar, alegando que o carro não prestava. Ah, mas vovô tinha uma conversa muito boa e convenceu seu genro a adquirir aquela maravilha. Não perdoou…

Contei ao meu pai a respeito de um passeio que havia feito com meu avô nesse carro. Fomos até o local onde hoje é a entrada do “Reserva dos Ypês” e tentamos subir a estradinha, para chegar até a casa então existente ali.

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O Renault rugiu, tossiu, encheu o ar e o interior do carro de fumaça, mas não subiu. Não tinha força. Vovô, experiente com esse tipo de automóvel, manobrou e passou a subir de ré, pois essa marcha é mais reduzida que a primeira. Além disso, eu e meus primos Fernando e Luiz Eugênio, passamos a empurrar o carro ladeira acima. Só então conseguiu subir. Sem passageiros e de marcha à ré. Mesmo assim, ele comprou. Comprou e se arrependeu, claro.

Logo, a indústria nacional começou a produzir automóveis um pouco mais aperfeiçoados que uma carroça sem cavalo. Foi a fase dos Aero-Willys, DKWs, Dauphines e Gordinis, VW Sedan 1200, Simcas e outras maravilhas. O desenvolvimento foi lento, com pequenas e poucas melhorias.

Foi assim até que o Collor, quando foi presidente, decretou que os automóveis nacionais eram carroças e promoveu a abertura do comércio exterior, permitindo que as montadoras, até então impedidas de utilizar máquinas computadorizadas e de importar peças informatizadas para seus veículos, pudessem contar com essa tecnologia, o grande diferencial da produção internacional.

Nos últimos anos, o aumento da frota nacional é impressionante. Em Tatuí, são mais de 60 mil veículos automotivos rodando diariamente, sendo que quase 40 mil são automóveis. Rodando devagar, claro. Não temos vias apropriadas para esse número de veículos.

Observando a maioria das ruas da parte central, dá para imaginar que, quando foram traçar as ruas, alguém deve ter comentado:

– Ah! Está ótima essa largura! Dá para passar até duas carroças de uma só vez! – imagino que alguém deve ter comentado. – E passa até carro de boi!

Assim, traçaram ruas e ruelas que mal comportam um automóvel. Pudera, como iriam conceber, no início do século 19, que haveria “carroças sem cavalo” de todos os tamanhos? Algumas “carroças” (caminhões) maiores do que um trem de ferro? E quem teria uma visão de que surgiriam veículos motorizados em duas rodas, dirigidos por pessoas cada vez mais apressadas e impacientes?

Muitas cidades, mais desenvolvidas, já eliminaram as estreitas ruas do passado e abriram amplas avenidas. Mas isso não acontece aqui em Tatuí, por enquanto, pelo menos, pois se trata de uma cidade sem recursos para o montante de indenizações às desapropriações necessárias.

Mas, voltando ao Renault Juvaquatre que meu pai adquiriu de seu sogro. Meu pai, que em nenhuma ocasião disse um palavrão dentro de casa, perto de mim ou de minhas irmãs, perdeu a paciência com o tal Renault.

No dia em que comprou, pedimos, eu e minhas irmãs, que ele nos levasse a um passeio pela cidade. O danado automóvel “reinou” um pouco para dar a partida. Depois de algum esforço, funcionou. Eu morava na travessa dos Pracinhas. Saímos de casa, demos uma volta na Praça da Matriz, descemos a rua 11, viramos a rua 7 de Abril, passamos em frente ao Mercado e viramos a rua 15.

Pronto, o Renault começou a engasgar, soquetear, rugir, fumacear e não queria mais rodar. Com o carro parado, o motor funcionava, mas a fumaça do escapamento enchia a cabine, pois entrava pelas frestas dos bancos traseiros.

Quando parecia que o motor afirmava, meu pai engatava e o carro não andava. Mas a fumaceira estava cada vez pior. Depois de algumas tentativas, perdendo a paciência, meu pai xingou o carro:

– Saco! – resmungou alto.

No mesmo instante, lembrando que estava comigo e com as meninas, tentou se corrigir, dizendo:

– Sapato! Sapato! – repetidas vezes, torcendo para que nenhum de nós tivesse percebido o que considerou um grande palavrão.

Ah, e o passeio? Terminou ali, onde o Juvaquatre ficou estacionado e retornamos caminhando até em casa.


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