Alunos da Apae abrem intercâmbio indí­gena que visa í  conscientização

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Cristiano Mota

Alunos da Apae interagiram com índios da etnia Kuikuro no primeiro dia de intercâmbio

 

Conversar com um índio, ter o rosto pintado como se fosse um membro e ver de perto objetos utilizados no dia a dia de uma tribo. Esse conjunto de atividades é privilégio de poucos e que alunos da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Tatuí puderam experimentar na manhã de segunda-feira, 6.

Por mais um ano, uma turma de 136 assistidos da entidade participou da abertura do projeto de intercâmbio indígena. A iniciativa é realizada pelo Sítio Santa Rosa há 12 anos sempre no mês de abril e voltada à participação, principalmente, de estudantes de escolas públicas e particulares.

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O projeto é desenvolvido ao longo do mês por conta do Dia do Índio, celebrado em 19 de abril. Ele consiste, basicamente, em oferecer uma experiência de imersão na cultura indígena. Para isso, o sítio traz membros de várias etnias.

Há três anos, a interação no município é feita com membros da tribo Kuikuro, a maior em população da região do Xingu. Liderados por Yamalui Kuikuro, os índios chegaram ao Santa Rota no início do mês, na quinta-feira, 2.

“Eles vêm com dois a três dias de antecedência para se adaptarem da viagem”, explicou o proprietário do sítio, José Roberto Medeiros. Conforme ele, duas famílias indígenas se encarregam de receber os estudantes.

Os nove índios permanecem no local durante todo o mês e recebem crianças de várias partes do Estado de São Paulo de segunda a sexta-feira. Ao longo do período, eles repetem as experiências vivenciadas pelos alunos da Apae.

“Eles mostram a alimentação, as brincadeiras, rituais e o artesanato”, descreveu o proprietário. Medeiros contou, ainda, que além das ações, o intercâmbio inclui um café da manhã. Depois de alimentadas, as crianças são divididas em grupos. Os estudantes são acompanhados por monitores do sítio pedagógico.

Por dia, o Santa Rosa recebe até 200 alunos. São estudantes de Tatuí e de diversos municípios. Quem vem de longe realiza atividades durante todo o dia. A programação para alunos do município – desse projeto em específico – dura meio período.

A abertura com a Apae é considerada especial pelo proprietário do sítio e marca o início do projeto. Além da instituição tatuiana, entidades de ensino de toda a região enviam alunos para participar do intercâmbio indígena. “Nossa ocupação é de 90% com escolas de diversos municípios”, disse Medeiros.

O empresário também participa da abertura, recepcionando alunos da Apae e representantes dela. Entre eles, a diretora pedagógica da instituição, Elen Adriana Theotônio. “Para nós da Apae, é muito gratificante poder ter esse momento e acesso a esse espaço. É diferente, também, para os alunos”, comentou.

Elen afirmou que a experiência diferenciada oferecida para os alunos – por conta do contato com os índios – é um privilégio. “Nós sabemos que muitas escolas, tanto do município como da região, não têm essa possibilidade”.

Aguardada pelos alunos, a visita ao Santa Rosa representa um momento especial para a comunidade apaeana do município. Tanto que a entidade já inclui a atividade na agenda do mês. Praticamente todos os atendidos do período da manhã participaram da abertura. Os que frequentam a instituição no período da tarde não puderam realizar a visita em função do horário.

De modo a garantir mais assistência aos alunos, todos os profissionais que trabalham diretamente com eles acompanharam a visitação. A presença deles também está ligada à questão pedagógica, uma vez que os professores, em específico, desenvolvem atividades relacionadas com a vivência.

“Nós aproveitamos para colocar essas experiências dentro do nosso planejamento. Algo relacionado com o que vivenciamos aqui”, explicou Elen.

Para ela, as ações externas têm sempre efeitos positivos. Conforme a diretora pedagógica, além do aprendizado, os alunos têm a chance de se socializarem.

“É uma coisa que não temos na nossa região, que são os índios. É um momento muito positivo, essa interação com eles, com a natureza. Que bom se nós pudéssemos ter mais oportunidades como essa de sair da entidade e de levarmos os nossos assistidos a outros ambientes mais”, emendou.

Professora há 25 anos na Apae, Andréia Catarina Leme divide o momento com os alunos da instituição de interação com os índios há “uns bons anos”. “Acompanhei a fase de adolescência de alguns deles. Trabalhei com eles quando tinham 16, 17 anos. Agora, nessa idade adulta, continuo”, comentou.

Segundo ela, a atividade disponibilizada gratuitamente pelo Santa Rosa é fundamental para o desenvolvimento dos assistidos. Andréia explicou que os passeios como os oferecidos pelo sítio pedagógico representam, para alguns dos alunos, um dos únicos momentos que eles têm de interagirem fora de casa.

“A maioria só tem oportunidade de sair conosco. Em alguns casos, as famílias têm outros filhos. Em outros, os pais já são idosos e não têm condições de estarem saindo quando se é realizado qualquer passeio”, argumentou.

Na segunda-feira, Juliana Barros uma das 136 pessoas atendidas pela Apae aproveitou a chance de se socializar. Acompanhada por professores e pela equipe de monitores do sítio, ela conheceu parte das atividades desenvolvidas pelos índios.

“Gostei de passear, de andar por aqui. E o índio é interessante, tem roupa diferente”, comentou ela. Juliana teve contato com cinco dos nove kuikuros que permanecem no sítio até o início de maio. Esse é o número de integrantes que Flávio Medeiros, idealizador do projeto, considera como ideal para as atividades.

“Na verdade, a quantidade de índios é específica para que eu consiga fazer uma logística de divisão das equipes”, disse. O grupo de índios é composto, em geral, por adultos e crianças. “Neste ano, eles trouxeram um bebê”, acrescentou.

Os índios recebem as crianças em diferentes bases, sendo elas para a exibição de artesanato, com objetos e fotografias de outras etnias e para bate-papo.

De modo a potencializar a experiência, os alunos são recebidos pelos índios em diversos ambientes, como a casa de barro (típica da tribo Pataxós, que já passou pelo sítio), a oca (onde são feitas explicações sobre moradia e hábitos como uso de rede, esteira ou cama) e próximo à vegetação, local em que os índios fazem demonstração de uso de arco e flecha, zarabatana, arpão e pintura.

Este é o terceiro ano da etnia kuikuro em Tatuí e o 12o do projeto. Ao longo do período, o sítio recebeu as tribos Xavante (do Mato Grosso), Pataxós (da Bahia) e Umutina (também do Mato Grosso). Os kuikuros visitam o município desde 2013. Eles são a aldeia mais populosa do Parque Nacional do Xingu.

O tempo de permanência das tribos varia conforme o desempenho de seus representantes. Flávio explicou que o projeto privilegia os que mantêm seus hábitos.

“Não basta ser índio para trazermos para cá para fazer o intercâmbio. Primeiro, vou visitar aldeia. Já visitei várias e em algumas não foi possível trazer os membros porque, às vezes, o índio é muito tímido, ou já está ‘aculturado’. E queremos mostrar um índio que mantenha sua tradição”, ressaltou.

Mesmo com as facilidades do branco (bicicletas e motos, por exemplo), Flávio disse que os kuikuro ainda preservam hábitos que tinham nas décadas de 60 e 70.

“Por fotos, é possível ver que as aldeias não mudaram. É lógico que acaba tendo alguma coisa nossa, por conta das distâncias, mas os rituais continuam da mesma forma. Em aldeias em São Paulo, vemos que isso mudou, devido à proximidade. Tanto que nem a língua existe mais nelas”, concluiu.


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