
Da reportagem
“Tráfego de Afeto e Fúria”, novo texto teatral de Ivan Camargo, tem lançamento em formato de livro com leitura dramática por atores, seguida de roda de conversa, a partir das 13h30 deste sábado, 26.
O evento, gratuito, acontece no Complexo Cultural de Memória, que abrange o Museu da Imagem e do Som – MIS Tatuí “Jornalista Renato Ferreira de Camargo” e o Memorial do Rugby 1928 “Dr. Gualter Nunes”, à avenida Domingos Bassi, esquina com a avenida João Batista Corrêa Campos, ao lado do paço municipal.
A publicação da peça integra uma das ações do projeto “Delivery de Paixão”, aprovado pelo edital PNAB 01/2024 – Estímulo, Fomento, Produção e Difusão de Arte e Cultura, para Todas as Áreas e Linguagens Artísticas.
Além do livro, deve haver uma série de narrativas de entregadores de delivery publicadas no jornal O Progresso de Tatuí, a partir da roda de conversa promovida no lançamento, a disponibilização do texto em formato digital e, ainda, a filmagem da leitura, postada no YouTube.
Como atores convidados para apresentar o texto, estão Érica Pedro, Marcos Caresia, Pedro Couto, Leandra Oliveira e Letícia Rodrigues. Também há acompanhamento em libras.
O projeto, informa o autor, tem como foco principal alguns dos principais fenômenos gerados ou intensificados em razão da pandemia de Covid-19, como o crescimento abrupto do serviço de entregas e o transtorno alimentar.
Para tanto, “Tráfego de Afeto e Fúria” apresenta situações ficcionais, porém, baseadas em incontáveis relatos e registros tanto sobre as sequelas de saúde física e mental deixadas pela doença quanto da rotina “desafiadora” dos entregadores.
Pelo projeto, argumenta Camargo, exemplificando: “Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há atualmente no mundo cerca de 70 milhões de pessoas com transtornos alimentares, praticamente 50% a mais em comparação ao período pré-pandemia. Somente no Brasil, estima-se existir 15 milhões”.
“Em simultâneo e por consequência do isolamento social, o serviço de entrega em domicílio – popularizado como “delivery” – cresceu também de maneira inusitada”, observa o autor.
Conforme o jornal Valor Econômico, somente na Grande São Paulo, há cerca de 280 mil trabalhadores, entre motociclistas e ciclistas, no serviço de delivery – em acelerado aumento de cerca de 20% a partir do surgimento do novo coronavírus, acentua Camargo.
“Os números – ambos superlativos – merecem atenção e, portanto, justificam figurar e inspirar as manifestações artísticas, inclusive a literatura. No primeiro caso, por ser um real problema de saúde pública e, no segundo, pelos desafios em termos de segurança e direitos trabalhistas – entre outros tantos aspectos importantes”, frisa o jornalista.
Apesar do tema “sério”, como sempre em seus trabalhos na ficção, Camargo opta pelo gênero do humor para costurar uma história marcada pelos “quiproquós” – em que um ou mais personagens (ou a própria plateia) confundem pessoas, objetos ou situações por outros indivíduos ou contextos, desencadeando uma sequência de confusões, desencontros e possíveis mentiras.
O projeto “Delivery de Paixão” foi contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Secretaria de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer, da prefeitura da estância Turística de Tatuí, com recursos do Ministério da Cultura e governo federal.
O autor
Ivan Camargo é jornalista, pós-graduado em comunicação social. Entre 1992 e 1994, editou o “Stopim”, um tabloide de humor inspirado no lendário carioca “O Pasquim”. Em 1995, assumiu a direção de “O Progresso de Tatuí”.
Em 2008, publicou seu primeiro livro, o romance “Onde Moram os Tatus”, a partir de premiação do Proac (Programa de Ação Cultural), do governo de SP, além da peça teatral “O Cativeiro”, pela conquista do II Prêmio de Literatura UBE/Scortecci. Em 2009, também pelo Proac, lançou o segundo romance, “Assombrações Caipiras”.
Pela UBE do RJ, em 2011, obteve a primeira colocação no Concurso Internacional de Literatura, com a peça “Até que a Morte nos Enlace”. Em 2013, pelo mesmo certame, alcançou a terceira colocação, com a peça “Santa Casa da Luz Vermelha”.
Em 2017, publicou o primeiro livro de contos, “Golpe Baixo”, e, em 2022, o segundo, “Botão do Pânico”, por premiação da Lei Aldir Blanc.
Entre roteiros e textos dramatúrgicos encenados e inéditos, ainda escreveu diversos curtas-metragens, um longa para cinema como estudo de conclusão da pós-graduação (adaptação do romance “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto) e adaptações para teatro, entre as quais, “Priscila, A Rainha da Caatinga” e “Vovó Delícia”, de Ziraldo.
Em 2024, teve a peça “Até que a Morte nos Enlace” encenada na capital paulista, sob a direção de Jacques Lagôa – também por premiação do Proac. A mesma peça, novamente selecionada pelo programa estadual, em 2025, seguiu nos palcos com a segunda temporada, então em circulação por cidades do estado.
Ainda em 2024, foi contemplado pelo edital municipal “Publicação de Livros”, com a segunda edição do romance “Onde Moram os Tatus”, lançado em 2025.
Nesse mesmo ano, por premiação municipal da Lei Paulo Gustavo, concretizou a adaptação para roteiro audiovisual desse romance, editado no formato de livro.
Em todos os gêneros narrativos, o autor sustenta uma característica em comum: a linguagem do humor.
SINOPSE
“Tráfego de Afeto e Fúria”, texto dramatúrgico ambientado no final da pandemia de Covid-19, serve um caldo agridoce de relacionamentos, temperado com contradições e conflitos típicos do extremismo fervente – embora sem deixar de reduzir a receita dramática com generosas pitadas de bom humor e, claro, esperança na retomada do gosto pela humanidade.
Nesse cenário, Celeste, herdeira de família abastada, é levada da compulsão sexual à alimentar, ao mesmo passo em que se apaixona pelo entregador de delivery, vindo a fazer pedidos ininterruptos e, assim, tornando sua casa um verdadeiro arranha-céu de “torres de pizza”!
Vida, enfermeira, sente as dores de testemunhar tantas perdas humanas prematuras, ainda tendo em Celeste – prima dela – o desafio de distanciá-la do fanatismo e da persistente postura de desumanidade.
Heleno é o entregador “gourmet” de Celeste, embora ele próprio não tenha essa percepção. Malabarista no trânsito e de pizzas nas costas, tenta equilibrar desejo, fé e família sob o peso de dogmas que não lhe permitem nenhuma pedalada em falso, fora da pista “tradicional”.
Finalmente, Bolado, é um “ex-empreendedor”, que perdeu a pequena empresa e, na sequência, o próprio casamento por conta da crise derivada da pandemia, sendo levado a também correr nas ruas como entregador – e da Justiça, por atraso de pensão.
Os quatro, em meio a pedidos de comida (e implícitos socorros emocionais), entre afinidades e trombadas, empatia e egoísmo, fé e hipocrisia, buscam retomar uma vida “menos anormal”, ainda com porções de amarga fúria, embora, cada vez mais, sentindo o doce aroma do afeto!








