Henrique Autran Dourado

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Há alguns meses, ganhou as páginas da imprensa e redes sociais, gerando longas discussões, um incidente acontecido no Teatro Municipal do Rio de Janeiro que, manchete de cadernos de cultura, escapou das páginas policiais. O embate na plateia chegou às vias de fato, com hematomas no rosto da protagonista, boletim de ocorrência, e o contradito declarando que ela apenas caiu, machucando-se. Já no Municipal de São Paulo, há alguns anos, um celular tocou exatamente em uma parte suavíssima da obra que era conduzida pelo maestro Ira Levin. Pois tocou algumas vezes, parou. Ao invés de discretamente desligar o aparelho, o dono do celular respirou aliviado. Para seu desgosto, mais uma série de toques. Abrindo a regra, foi notícia no caderno de cultura de um jornal de São Paulo. Não houve feridos, fora a música, que saiu com seus arranhões.

Essas “intervenções” não são exclusividade brasileira, como alguns poderiam supor: em 2012, o maestro Alen Gilbert, à frente da Filarmônica de Nova Iorque, já no último movimento da “9a Sinfonia” de Mahler, foi obrigado a parar a música e descer até o dono do toque de celular conhecido como “marimba” ordenando-lhe que desligasse o aparelho (não era um concerto para marimba, e muito menos para celular). Consta que foi a primeira vez que a Filarmônica parou, em seus 170 anos. Gilbert retornou ao palco, encerrou a sinfonia e recebeu os mais calorosos aplausos da plateia lotada do glamoroso Avery Fisher Hall, do Lincoln Center – ovação devida à beleza da performance, e aquecida pela atitude enérgica do regente.

Há uma grande diferença entre um show em um bar ou casa noturna e a música de palco. Isso, claro, sem nenhum demérito para os jazzistas ou músicos de MPB que precisam submeter-se pelo seu ganha-pão, o leite das crianças. Em um bar ou restaurante, as pessoas comem, bebem, conversam alto e gargalham. Há muitos anos, o lendário baterista Edison Machado levantou-se e atirou suas baquetas sobre um casal que insistia em rir alto, perturbando a música. Ele não se conformava em servir de “fundo” para o lazer ruidoso da alta burguesia da boate Flag, de Copacabana. Terminou “persona non grata” na cena carioca e mudou-se para Nova Iorque, tocando com mitos como Chet Baker e Ron Carter  – antes disso, gravou o mais belo solo de bateria da discografia brasileira, absolutamente polirrítmico, na faixa “Leila (Venha ser Feliz)”, do LP “Minas” (1975), de Milton Nascimento. Após 14 anos nos EUA, Machado retornou ao Rio de Janeiro, onde faleceu precocemente, aos 56 anos. Considerado um dos pais da batida da bossa nova, consolidada no famoso Beco da Garrafas, em Copacabana, ele não admitia ser “fundo” de qualquer coisa. (Respeito é respeito: assisti a shows como os de Bill Evans e Oscar Peterson, dois dos maiores pianistas da história do jazz, em um bar-auditório em Boston. Durante a música, garçons não atendiam, o público assistia e, se necessário fosse alguém dar um gole ou servir-se, o fazia entre as músicas). No jazz, é agradecimento aplaudir após cada bom solo. Na ópera, é de bom tom fazê-lo após uma boa ária. Em uma sinfonia ou concerto para instrumento, apenas após o final da obra, nunca entre movimentos.

No palco, música é “figura”, e não “fundo”, pois o silêncio da plateia é imprescindível para uma boa audição. A relação figura-fundo – muito antes de explorações da “Gestalt” (do alemão: forma), teoria já do século 20 – bem lá atrás, no período barroco (entre os séculos 16 e 18), era um dos elementos de contraste caros à pintura e à música, com “poucos tons de cinza” (parodiando o título de um “best-seller” – que não leio) – mas isso seria assunto para um tratado à parte. A música de concerto e a música popular de qualidade exigem silêncio, contribuição para a boa performance. Nesses gêneros, elas são 100% figura, e não fundo. (Detesto música de fundo de bares e restaurantes, pois o principal é a conversa, ela sim, protagonista. Exceção feita quando dirijo sozinho e às salas de espera e consultórios, desde que de bom gosto e volume suave, apenas fazendo-se presente para relaxarmos).

Há muitos anos, a famosa Sociedade de Cultura Artística de São Paulo publicou uma espécie de decálogo sobre como se portar em concertos. Inspirado em artigo da revista “O Cruzeiro”, os “mandamentos” estrearam em um programa do grande pianista Wilhelm Kempff em 1951, e recomendavam, entre outras divertidas (e resumidas livremente) pérolas: (1) “Nunca hostilize o artista. Se não gostou, apenas não bata palmas”. (2) “Se gostar, aclame calorosamente”. (3) “Chegue antes, e se o seu sapato estiver ‘chiando’, perca o concerto e jogue o sapato fora”. (4) “Procure manter-se imóvel, especialmente se a cadeira estiver mal azeitada”. (5) “Não acompanhe a melodia com a cabeça ou cantando: parecerá que só a melodia lhe interessa”. (6) “Não acompanhe o ritmo da música tamborilando os dedos (…) parecerá que só o ritmo lhe interessa”. (7) “Não faça comentários com seus vizinhos”. (8) “… não desembrulhe pacotinhos nem chupe balas ou pirulitos. Jante antes do concerto, pois música sem vitamina é sofrimento”. (9) “Nunca saia correndo do concerto, após o final. Parecerá que a apresentação lhe fora um sacrifício”. E termina com uma saborosa anedota: (10) “… quando forem abertas as inscrições para o primeiro (N. do A.: que nunca existiu) curso sobre ‘De como Estar Presente a um Concerto’, inscreva-se o quanto antes, pois essa história de saber assistir anda muito ‘vasqueira’ (rara) entre nós”.