Educação e coitadismo

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O fervoroso culto ao “coitadismo” – comumente conhecido como “politicamente correto” – tem se assoberbado de tal forma em hipocrisias e onipresença na sociedade que suas consequências já começam a extrapolar a crescente perda de liberdade do cidadão, por meio da prévia e autocensura.

Um destes aspectos aponta para um futuro de “cidadãos-bananas”, do tipo que nunca sofreram um só “bullying” (que afortunados!) na escolinha, mas que, quando adultos, não conseguem resolver seus próprios problemas, tampouco podem chamar pela mamãe ou pelo professor para defendê-los das inevitáveis cacetadas que a vida sempre reserva a cada um.

Mostra desta possibilidade pode ser observada nos Estados Unidos, onde esse movimento “de esquerda” disseminou-se primeiramente e acabou por transformar grande parte da postura das pessoas, e não apenas a nível social, mas doméstico também.

Não se trata de discutir, por exemplo, que o combate à discriminação racial é algo “politicamente correto” – e, por conse-quência, bem-vindo e necessário. Claro que um racista, necessariamente, é um idiota, e não há política que conserte isto. Mas, o fato de a idiotice dele ser coibida é positivo. O problema, como de costume, são os excessos.

E já há tanto excesso que, em outro exemplo, se os pais dão umas palmadas na bunda do filho, podem ter gravíssimos problemas, correndo o risco de perdê-lo para a “sempre eficiente” assistência social do governo…

Fora o fato de o Estado interferir na vida privada – o que cada vez mais também acontece aqui no Brasil -, a verdade é que a atual geração de ianques, francamente mais “coitadinha” que as anteriores, perde terreno em larga e rápida escala para a China – a qual parece pouco estar ligando para o politicamente correto, tanto que ganha o mercado mundial com suas cópias mequetrefes de todos os tipos de produtos.

Quem sabe, daqui a poucos anos, mesmo aqueles que abominam o “império” norte-americano terão saudades do passado, pois os chineses também demonstram interesse zero pelas supostas liberdades individuais e pela democracia – valores que, ao menos em termos teóricos, ainda são defendidos pela superpotência.

Isto é um aspecto do problema, o qual inspira profunda insatisfação – como o leitor pode ter notado. Contudo, outro ponto do problema é justamente sobre o que vem a ser o oposto ao correto.

Ser “politicamente incorreto” – algo que também é explorado por inúmeros oportunistas, no afã de chamar a atenção -, não é ser um parasita social, um mau-caráter público, um egoísta comunitário…

Toda a verborragia até aqui serve para fundamentar o argumento de que é imprescindível separar a retórica hipócrita e inoportuna do politicamente correto do que é a necessária e cada vez mais escassa “boa educação”.

Exemplo desta diferença foi noticiado na semana passada, a partir das reclamações de entidades sobre o desrespeito às vagas de estacionamento destinadas a deficientes (porque “especiais” – e aqui o eufemismo de perfumaria – somos todos nós, com ou sem problemas físicos, se é que existe alguém sem qualquer problema físico).

A falta de cumprimento da legislação sobre os idosos e deficientes em locais públicos gerou reclamação de Solange Sales Abud, presidente da Apodet (Associação dos Portadores de Deficiência de Tatuí) e de Rafael Sangrador, do Sindanapi (Sindicato Nacional dos Aposentados).

Os dois são unânimes em apontar que a ocupação indevida das vagas exclusivas é um dos principais problemas da acessibilidade das pessoas com baixa mobilidade.

De acordo com o Estatuto do Idoso, 5% das vagas devem ser destinados às pessoas com mais de 60 anos. A “Lei de Acessibilidade” também garante que 2% de vagas sejam proporcionados aos deficientes físicos ou intelectuais. O direito ainda é ampliado aos familiares dos beneficiados, os quais atuam como “motoristas” dos deficientes.

Os líderes da Apodet e do Sindanapi afirmam que é muito comum ver, principalmente no centro, pessoas consideradas “normais” – sem o selo identificador de idoso ou deficiente – paradas no espaço exclusivo.

De acordo com a legislação, o direito ao estacionamento especial é concedido após o idoso ou deficiente obter credencial para uso dos locais exclusivos.

Para a presidente da Apodet, a região central é “caótica”, e qualquer pessoa tem problemas para estacionar devido à grande quantidade de carros que transitam pelo local. Um fator preponderante, aponta Solange, é a “falta de educação da população”.

“Tem gente que ainda não respeita a exclusividade dos idosos e deficientes. Os jovens, que podem caminhar sem problemas e deixar o carro longe, não querem andar a pé”, afirmou.

Solange reconheceu que os agentes de trânsito da Prefeitura têm autuado as pessoas que param indevidamente nas vagas. Porém, ainda não seria o suficiente para educar a população. “Precisamos criar uma cultura de respeito a essas vagas”, afirmou.

O acúmulo de regulamentações, de programas assistencialistas e reservas de cotas – resultado de interesses politiqueiros -, de fato, tem incomodado e preocupado muita gente. Porém, não respeitar as vagas reservadas às pessoas que realmente precisam delas não é ser politicamente incorreto, é ser pura e simplesmente mal-educado.

Isto, sim, algo digno de ser combatido sem trégua, mas que, infelizmente, não se consegue com figura de linguagem dissimulada.