Derrota real

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O motivo de frustração, raiva e vergonha dos brasileiros, nesta semana – como praticamente todo o planeta pôde testemunhar -, não é outro senão a inapelável e demolidora derrota da seleção brasileira diante da Alemanha, na Copa do Mundo.

Sim, mas não deveria ser. Há motivo para embaraço (bem) pior. Na realidade, o real motivo pelo qual, básica e intrinsecamente, esse time foi trucidado: a esculhambação nacional, sustentada pela alienação popular, esta que, por sua vez, resiste ao tempo graças à falta de educação.

Em outras palavras, os brasileiros estão envergonhados porque levaram uma surra no futebol quando, de fato, deveriam estar constrangidos porque compreendem um país que não conseguiu organizar um evento desse porte com a devida competência.

Por mais que se diga, houve inúmeros arremedos de última hora, os quais nem pela deficiência tiveram seus custos minorados. Pelo contrário, mantendo-se a tática tradicional, inúmeras obras foram concretizadas aos 45 do segundo tempo, quando, então, o que menos importa é o preço final – daí os orçamentos estourados, assim quebrando-se mais e mais vértebras do orçamento público.

E, disso, seguiram-se outros atropelos, envolvendo as previsões mais básicas, como lugares adequados para a recepção de turistas, por exemplo. No Rio – sempre o Rio… -, estrangeiros aglomerados na praia de Copacabana sequer têm onde urinar, sendo forçados a, literalmente, emporcalhar o maior cartão postal do país.

Tem coisa pior? Tem. Também são incontáveis as reportagens denunciando o “aquecimento” do turismo sexual, cujas vítimas mais lamentáveis são crianças… Houve algum tipo de “preparação” para coibir esta prática que se configura em tragédia muito maior que uma tempestade de gols “jamais vista na história deste país” (parodiando o maior entusiasta e agente desta Copa, o ex-presidente Lula)? Não, não houve…

Muito antes de o certame começar, o equívoco já era evidente: seus dirigentes – esportivos e políticos, quando não raro os dois ao mesmo tempo – nunca disfarçaram que a maior preocupação não era “mostrar” o Brasil ao mundo de forma positiva, por meio de um evento bem organizado, por seus pontos turísticos limpos e estruturados, por suas belezas naturais preservadas, pela simpatia de seu povo.

Não. A preocupação não era concretizar uma bela Copa, mas ganhar a competição! O foco estava dentro de campo, quando deveria estar fora dele. Se ganhasse, todo o resto seria minimizado, esquecido. E aí está o grande problema: seria mesmo!

Agora, é tranquilo apontar – como muitos não param de repetir – que faltou organização, que sobrou arrogância, que o país insiste em apostar na improvisação, no talento individual de alguns poucos expoentes – novamente, dentro e fora dos gramados.

Mas, por que isto não foi defendido antes? Organização, preparação? Claro, quem duvida? Isto é óbvio. Tão óbvio quanto seria, então, uma revolução no país se esses estimados R$ 25 bilhões investidos na Copa tivessem tido como destino o tal esporte de base.

Feito a Alemanha, daqui a menos de uma década, certamente não haveria nação capaz de deter o Brasil – ao menos no esporte… Sim, faltam educação e saúde públicas de qualidade, no entanto, o esporte também pode ser uma oportunidade concreta de investimento no “social”, assim merecendo investimentos.

Por sua vez, seria fundamental e oportuno a população levar em conta que aquilo que acontece na CBF, nos altos escalões do esporte, apenas reflete as outras instâncias, ainda mais altas.

Não adianta culpar uma pessoa em particular – o técnico teimoso, a presidente que esperava ganhar a eleição no primeiro tempo, graças a um fantasioso hexacampeonato.

Mesmo porque – ao menos quanto ao técnico e aos jogadores -, chutar cachorro morto é muito feio, tão feio quanto joelhada nas costas. A melhor jogada é a seguinte: primeiro, lembrar que futebol é esporte, lazer, não paga as contas de ninguém, fora a dos profissionais que nele estão; e, segundo, que é preciso treinar mais para se manifestar com inteligência contra o “status quo”, e, claro, votar melhor nas próximas eleições – essas, sim, correspondentes ao grande campeonato deste ano. Já a vergonha passa rapidinho, igual bola na zaga da seleção.