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    Concurso Paulo Setúbal: educando pela literatura

    A história de Tatuí como cidade que lê, escreve e valoriza seus autores não começou ontem – e tampouco por acaso. Há mais de oito décadas, quando o jornal O Progresso de Tatuí encabeçou a mobilização para homenagear Paulo Setúbal, o “imortal” da terra, inaugurava-se algo maior que um evento pontual: nascia a Semana Paulo Setúbal, vocacionada a manter viva a obra do escritor e a estimular, entre os jovens, o gosto pela literatura e pela reflexão sobre a própria cidade.

    Desde 1943, quando o jornal anunciava o primeiro concurso escolar sobre o tema “Paulo Setúbal e Tatuí de hoje”, a mensagem já estava dada: Tatuí escolhera a palavra como instrumento de formação cultural e cidadã.

    Daquela primeira iniciativa – com prêmios em cruzeiros, comissão organizada e conferencistas convidados – até o cenário atual, há um fio de continuidade exemplar

    O concurso literário local amadureceu, consolidou-se como tradição e, com o tempo, desdobrou-se em dois certames complementares: de um lado, o Concurso Paulo Setúbal – Literatura e Artes Visuais, voltado aos estudantes de Tatuí; de outro, o Prêmio Literário Paulo Setúbal – Contos, Crônicas e Poesias, de abrangência nacional e já reconhecido entre os mais importantes do país, com cerca de 1.500 inscrições a cada edição.

    Ambos mantêm a mesma raiz: a Semana Paulo Setúbal como matriz simbólica e o compromisso com a circulação da obra do autor tatuiano.

    Em 2026, esse legado se renova com a abertura do 24º Concurso Paulo Setúbal – Literatura e Artes Visuais, promovido pelo Museu Histórico “Paulo Setúbal” e pela Comissão da Semana Paulo Setúbal. Destinado a estudantes das redes pública e privada, do ensino fundamental aos anos finais, ensino médio, EJA e educação especial, o certame segue seu papel como uma das principais ações culturais voltadas ao ambiente escolar (reportagem nesta edição).

    Seus objetivos correspondem a tudo o que Tatuí deseja projetar como estância turística cultural: resgatar e valorizar a obra de Paulo Setúbal, difundir sua relevância na literatura brasileira, estimular leitura, pesquisa, escrita e expressão artística e reconhecer o papel da escola como espaço central de formação cultural.

    O desenho dos editais de 2026 revela um cuidado especial com inclusão e inovação. No campo das artes visuais, o edital destina-se aos anos iniciais do ensino fundamental e à educação especial, sob a perspectiva da educação inclusiva.

    O tema parte da poesia “Nhô João, o Tropeiro”, do livro “Alma Cabocla”, com foco na valorização das raízes culturais e na identidade regional. Não se trata apenas de pedir um desenho, mas, sim, de convidar crianças e estudantes a traduzirem, em linguagem visual, um universo literário que fala da terra, dos tipos humanos e da memória cabocla.

    Para ampliar o acesso, a organização ainda oferece uma versão audiovisual da poesia, com personagem criado por inteligência artificial, narrada e produzida em Tatuí.

    No eixo da literatura, o edital dirigido a alunos dos anos finais, ensino médio, EJA e educação especial toma como tema a obra “O Príncipe de Nassau”, em comemoração ao centenário de sua publicação, em 1926.

    Levando os estudantes a escreverem a partir desse título, o concurso não apenas homenageia Paulo Setúbal como autor histórico, mas o reinsere no debate contemporâneo, instigando novas leituras e interpretações.

    A ampliação da participação da educação especial também neste certame é ponto alto: quando garante que mais estudantes com diferentes condições e ritmos de aprendizagem possam escrever, o concurso transforma inclusão em prática concreta, não apenas em discurso.

    Outro aspecto que merece reconhecimento é a articulação entre o concurso e o Museu Histórico “Paulo Setúbal”. O certame não é uma ação isolada; ele faz parte de uma política contínua de educação patrimonial e mediação cultural.

    A reunião marcada com gestores escolares, a modernização do setor educativo – com novas tecnologias, práticas pedagógicas interativas, acessibilidade ampliada e integração dos equipamentos de memória em um circuito cultural – mostram que o museu assume, de fato, o papel de “agente de formação cidadã”, como sublinha o secretário-adjunto da Cultura, Rogério Vianna.

    Aproximando museu e escola, Tatuí fortalece o vínculo entre memória, identidade e educação. A dimensão material também revela o compromisso com a seriedade do projeto.

    O valor total da premiação, de R$ 37,5 mil em 2026, com apoio direto da família Setúbal, distribui-se entre alunos, professores orientadores e escolas, reconhecendo que a criação literária e artística em ambiente escolar é fruto de um trabalho em rede.

    Premiar estudantes é importante; premiar professores e valorizar as instituições de ensino é reconhecer que a semente da literatura germina em sala de aula, com orientação, incentivo e tempo dedicado à leitura e à escrita.

    Não menos relevante é o alinhamento do concurso com agendas mais amplas de desenvolvimento. Ao destacar que o 24º Concurso Paulo Setúbal contribui para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, especialmente os ODS 4 (Educação de Qualidade), 10 (Redução das Desigualdades) e 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), a prefeitura situa a iniciativa em um horizonte internacional: cidades que investem em educação, cultura e memória constroem futuro mais justo e mais equilibrado.

    Para uma estância turística, tudo isso é fundamental: turistas são atraídos por paisagens, festas e equipamentos, mas permanecem – e voltam – por causa da densidade cultural do lugar.

    É preciso, ainda, lembrar o papel histórico de O Progresso de Tatuí nessa trajetória. Desde a década de 1940, o jornal não apenas divulgou, mas liderou a mobilização em torno de Paulo Setúbal, ocupando-se de dar voz às iniciativas, registrar vencedores, cobrir atividades da Semana Paulo Setúbal e, mais recentemente, acompanhar a evolução do concurso estudantil e do prêmio literário nacional.

    Essa continuidade demonstra coerência com a função social da imprensa: informar, mas também fomentar cultura, estimular leitura e apoiar projetos que elevem o patamar cultural da comunidade.

    Sobretudo, o 24º Concurso Paulo Setúbal leva Tatuí, em pleno século 21, a sustentar um compromisso assumido há mais de 80 anos: o de formar leitores, autores e cidadãos a partir da obra de um de seus filhos mais ilustres.

    Em tempos de dispersão digital e consumo rápido de conteúdos, dedicar espaço, recursos e políticas públicas à produção literária e artística de crianças, jovens e adultos é um gesto de resistência e visão de futuro. A cidade se vê refletida nas páginas, imagens e vozes de seus estudantes – e, assim, se reconhece e se reinventa.

    Que alunos, professores, escolas e famílias abracem essa oportunidade. E que o Concurso Paulo Setúbal siga, por muitas décadas, como aquilo que já se tornou: um patrimônio imaterial de Tatuí, capaz de projetar a cidade, honrar seu passado, qualificar seu presente e inspirar seu futuro.