Casa dividida

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José Renato Nalini *

Desde que os homens passaram a viver em sociedade, enfrentam o desafio da obtenção de consenso. Como os humanos são singulares, heterogêneos e irrepetíveis, é difícil – senão impossível – a obtenção de um consenso absoluto. Afinal, a homogeneidade pode parecer característica de outros coletivos: colmeias, formigueiros, nunca um conjunto de seres pensantes.

Só que o bicho-homem é também egoísta. Pensa inevitavelmente em si e em seus interesses, negligenciando a busca do interesse coletivo. Isso explica as divisões, as separações, os ressentimentos.

Uma situação capaz de congregar opostos é o surgimento de uma grave ameaça. Diante de um inimigo comum às várias versões do convívio, surge o milagre da união de forças. Melhor esquecer rusgas, antigas ofensas, coisas menores, diante da possibilidade de continuidade de algo que se mostrou prejudicial a todos e capaz de exterminar o futuro da espécie.

Pessoas que têm juízo sabem reavaliar posturas pretéritas, quando o quadro era diferente. Afinal, quando indivíduos de bem, compenetrados de sua missão salvífica, encaram o que poderia vir pela frente se eles não se unissem, olvidam diferenças, deletam provocações que agora são insignificâncias, diante daquilo que poderia acontecer, caso as boas intenções não se somassem.

Por isso a sabedoria popular tem razão quando proclama: “há males que vêm para o bem”. Se não ocorresse o desvario, o negacionismo, o surreal, o intolerável, e as várias concepções de coordenação da vida em comum continuariam divididas. Separadas quais ilhas isoladas, num arquipélago resistente ao diálogo. Todas elas insuficientes a fazer frente ao mal.

No momento em que picuinhas são deixadas de lado, quando a razão prevalece, o bom senso volta a residir nas mentes que têm o pensamento elevado.

Longe de criticar alianças que pareciam impossíveis, as consciências de boa-fé, que pretendem o melhor para seus filhos e netos, devem reconhecer a estatura de quem se propõe a deixar de lado as idiossincrasias e ter a coragem de dar as mãos. É a urgência, é a necessidade de salvar os valores que justificam alianças que superam a capacidade ficcional dos futurólogos.

* Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022.

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