Artesão mantém vivo ofício de sapateiro

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José Teófilo Ávila aprendeu o ofício aos 12 anos; parou para estudar, tornou-se bancário, mas largou emprego para voltar à profissão que ama (foto: Cristiano Mota)
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Encospias, alargadeiras e puias são alguns dos instrumentos cada vez menos conhecidos. O tatuiano José Teófilo Ávila, de 65 anos, está entre os que têm habilidade não só de manuseá-los, mas de manter viva, por meio deles, uma atividade que tem se tornado raridade.

Ávila é um “sapateiro-artesão” e o único – dos três indicados à reportagem com endereço na cidade – que pôde ser encontrado para falar a respeito do ofício antigo. O profissional começou a trabalhar com calçados bem cedo, quando tinha 12 anos, aprendendo o trabalho do modo tradicional.

“Meu primeiro mestre foi meu pai. Só que ele fazia trabalhos que eu não desenvolvo mais. Atualmente, faço sandálias masculinas, femininas, adultas e infantis”, conta.

O pai dele trabalhava com botinas, tendo ensinado o filho também a consertá-las. “Téo”, como é conhecido entre familiares, amigos e clientes, deixou a profissão de lado a partir dos estudos e, aos 28 anos, tornou-se bancário. “Parei por um tempo, fui estudar e, depois, entrei em um banco”, lembra.

Sete anos depois, o sapateiro tomou uma atitude drástica: decidiu deixar o emprego para voltar a trabalhar com o que gostava. Téo resolveu unir o conhecimento em sapataria – apreendido com o pai – a uma paixão: o artesanato.

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“Achei melhor simplificar a vida. Optei por mais qualidade de vida. Resolvei fazer o que eu mais gostava, não o que dava dinheiro”, argumentou.

Na época, conta que a decisão representou um grande passo. Téo estava casado e precisou redobrar o tempo à profissão inicial para manter o sustento.

“Comecei a trabalhar como artesão e não mais como sapateiro, mas sempre usando couro”, disse o tatuiano, que possui carteira da Sutaco (Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades), órgão do governo paulista. Entre as peças produzidas por ele, estão sandálias, bolsas e cintos.

Com a profissionalização, Téo trocou a nomenclatura do ofício. Ele prefere ser chamado de artesão. “Sapateiro é aquele que faz sapatos, eu, não, eu crio modelos”, argumenta.

No ateliê dele, localizado na vila Dr. Laurindo, o profissional fabrica peças e desenha novos modelos de calçados. “Penso na confecção e faço tudo”, emendou.

As novas peças são testadas pelo próprio artesão. Ele argumenta que a “prova de fogo” é feita por ele mesmo, mas a partir de avaliação. “Vejo como ficou o primeiro modelo e, depois, vou aprimorando, buscando onde está o erro ou acerto”.

Em geral, os testes são encerrados com a aceitação dos clientes, uma vez que as novas peças são colocadas diretamente à venda nas duas feiras das quais ele participa. Quando os novos modelos vendem, Téo entende a reação como positiva.

O profissional integra a feira de artesanato de Tatuí há 30 anos. Durante esse período, produziu uma infinidade de calçados. Entre eles, botinas infantis.

A matéria-prima vem de fora da cidade. Para confeccionar uma peça, o artesão precisa viajar a São Paulo e outras cidades, como Botucatu e Piracicaba.

“Ficou mais difícil, nos tempos atuais, obter couro. Antigamente, era mais fácil, porque havia curtumes espalhados pela cidade. Agora, não tem mais”.

Como alternativa, quando o estoque demora a ser reposto e para diversificar, Téo utiliza pneu reciclado. O material vendido em placas é usado em substituição ao couro, que é de boi. “Normalmente, são animais que vão para o abate e têm a pele aproveitada para outras atividades”, explicou.

O couro representa em torno de 90% do custo total de uma peça. Pelo fato de o material não ser abundante, precisa ser bem escolhido.

“Com o tempo, o sapateiro vai desenvolvendo técnicas para saber se o couro é de qualidade. Isso só é aprendido com os anos. Eu mesmo aprendi sozinho”, conta.

Por mês, Téo consegue produzir, em média, 200 calçados. O volume é considerado alto, por conta de as peças serem feitas manualmente. A “linha de produção dele” varia de acordo com as encomendas e dos consertos realizados a pedido dos clientes. As peças são vendidas nas duas feiras do município.

A de artesanato acontece na Praça da Matriz uma vez por mês, durante quatro dias (entre a quinta-feira e o domingo); a segunda, a feira livre, é realizada no largo do Mercado Municipal “Nilzo Vanni”, somente aos domingos.

Proporcionalmente, Téo diz que as vendas são maiores na feira da Matriz. O motivo é a grande circulação de pessoas e a passagem de visitantes.

Na praça central, os artesãos conseguem abranger, além de moradores da região de Tatuí, os turistas de outros países. “Vendemos para muitas pessoas de fora. Os meus produtos, por exemplo, já foram para a Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, França e outros lugares mais”, destacou.

No entorno do Mercado Municipal, o volume de turistas é considerado menor. Entretanto, a comercialização acontece também atendendo a estrangeiros. No dia 7, Téo teve a venda de um par de sandálias para uma uruguaia.

Em paralelo, o artesão realiza consertos, mantendo a tradição de sapateiro. Apesar de o forte dele serem as criações de novos modelos, o profissional continua a receber pedidos para ajustes e reparações. Os casos mais comuns são de descolamento de solados de tênis.

“Os tênis superam os sapatos”, revelou. De acordo com o profissional, a principal causa é a “péssima qualidade” da cola utilizada pelos fabricantes. Além disso, grande parte dos produtos vem da China. Téo diz que as indústrias de lá utilizam material ruim e com prazo de validade curto.

“Hoje mesmo (quinta-feira, 11), atendi um cliente com esse problema. Ele contou que deixou um par de sapatos guardado por dois anos. Quando foi pegá-los na caixa, para usá-los, descobriu que estavam descolados”, relatou.

Em contrapartida, as botinas e sandálias artesanais usam materiais de boa qualidade. O processo de fabricação também passa pelo uso de ferramentas especiais. Algumas delas fabricadas pelo próprio artesão, por não serem mais localizadas, como uma faca para corte a partir da folha de uma serra.

O resultado são peças únicas e que demoram em torno de uma hora para ficarem prontas. Em média, o artesão finaliza duas sandálias a cada 60 minutos. Por dia, totaliza produção que varia entre 10 e 12 calçados.

O tempo de fabricação depende do modelo. Algumas das sandálias são mais simples; outras, mais complexas. Esse é o caso dos calçados que têm detalhes na parte superior. Antes de colar os couros com adornos, Téo passa alguns deles na máquina de costura. A finalidade é dar melhor acabamento.

Ao todo, o artesão fabrica 40 modelos diferentes de calçados. Eles são produzidos de acordo com a época do ano, ou seguindo determinada tendência de moda. “Dependendo de como está a moda, eu faço adaptações”, contou.

Além de Tatuí e do exterior, Téo vendeu produtos em Sorocaba. Na cidade vizinha, manteve uma barraca em uma feira de artesanato. A ida dele para o município ocorreu quando da transferência da feira de artesanato da Matriz para outras praças. “Não estava dando para sobreviver, então, fui a Sorocaba”.

O tatuiano permaneceu com ponto de venda naquela cidade por dez anos. Quando enfrentou o mesmo problema em Sorocaba (a transferência do evento para outro local), ele voltou a Tatuí. Aqui, ajudou a fundar a ATA (Associação Tatuiana de Artesanato), entidade na qual ocupa o cargo de presidente.

Atualmente, a associação possui 37 membros e recebe apoio da Prefeitura. “Embora a crise tenha nos afetado, estamos tendo um respaldo muito grande da prefeita (Maria José Vieira de Camargo) e do secretário municipal do Esporte, Cultura, Turismo, Lazer e Juventude (Cassiano Sinisgalli)”, citou.

O profissional disse que o próximo desafio da instituição é o de ampliar o leque de produtos. Para isso, a ATA deverá abrir as portas a novos artesãos.

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