Ao invés de atirar pedras, reerguer a São Martinho

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Muitos podem até não ter conhecimento, mas Tatuí, além de Capital da Música, já foi considerada expoente na indústria do estado de São Paulo, há décadas, por seu complexo fabril, particularmente pela São Martinho.

É de extrema importância e bem-vinda a iniciativa de tornar esse complexo um patrimônio reconhecido nacionalmente. E não apenas por mero status, senão por essa fábrica guardar a história de um período áureo da cidade e, assim, também a memória afetiva da maior parte das famílias tatuianas – certamente de 100% das efetivamente locais.

Justamente por este último aspecto, de forma inusitada e inovadora, o projeto de tombamento federal da São Martinho é tão importante e merece todo o apoio das autoridades e da população em geral.

Nesta semana, O Progresso publicou sobre o avanço de mais uma etapa no processo de estudo para o tombamento da fábrica, pelo qual o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) promove, nestes dias 6, 13, 20 e 27, às 19h, a formação do chamado “inventário participativo do patrimônio”.

A ação faz parte do projeto “Vozes da São Martinho”, baseado em um processo de “escuta” dos munícipes e grupos sociais que, de alguma forma, tiveram envolvimento com o complexo fabril.

Uma comissão formada por técnicos e especialistas encabeça a metodologia de pesquisa inédita em Tatuí. O estudo servirá para endossar o pedido de reconhecimento da São Martinho como patrimônio histórico nacional.

“Este é um projeto colaborativo e popular, para resgatar e preservar as memórias do complexo. Caminhando em conjunto com o Iphan, a ideia é desenvolver um processo de escuta sobre os valores cotidianos e afetivos relacionados à fábrica. Para isso, contamos com o apoio de diversas instituições e coletivos da cidade”, descreve o projeto.

Para participar, basta ter “interesse pela memória tatuiana” e acessar o link https://meet.google.com/gsq-dtem-sck.

As ações do movimento também podem ser acompanhadas pelas redes sociais do projeto, no https://www.facebook.com/vozesdasaomartinho e no www.instagram.com/vozesdasaomartinho.

O processo, para possível tombamento federal do conjunto arquitetônico, está em andamento no Iphan. O órgão aceitou dar início à análise do procedimento por meio de requerimento do vereador Eduardo Dade Sallum (PT) – representante do Movimento Popular Práxis.

O parlamentar apresentou o pedido no dia 23 de abril de 2018. Depois de aprovado pelo Legislativo local, foi protocolado e submetido a análise do Iphan de São Paulo. Já em junho de 2019, o órgão abriu o processo de tombamento, sob o número 1874-T-19.

Para dar continuidade à análise, em maio do ano passado, o superintendente substituto do Iphan de São Paulo, Ronaldo Cunha Ruiz, enviou ofício ao vereador solicitando novos documentos.

O órgão pediu cópia do projeto original do imóvel, com informações sobre o idealizador e época em que foi elaborado e implantado; plantas da localização na malha urbana; plantas de reformas; e histórico, reportagens, fotos, entre outros materiais que comprovem a importância do complexo.

O levantamento dos documentos está sendo feito pela Práxis em parceria com a arquiteta Maíra de Camargo Barros, integrante do Condephat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico de Tatuí) e que está escrevendo um livro sobre o histórico arquitetônico do complexo fabril.

Conforme Maíra, o inventário fará parte dos materiais para comprovação da importância do complexo para a cidade. Por isso, além dos documentos solicitados, a partir da formação do Iphan, o município criará uma comissão para a aplicação do inventário participativo.

“Queremos capacitar pessoas da cidade, que tenham interesse em ajudar, para que elas saibam o que é um patrimônio, consigam fazer as entrevistas e façam o registro das informações colhidas”, detalhou Maíra.

Devem participar da formação integrantes da Práxis, movimentos sindicais e estudantis, historiadores, especialistas, técnicos em preservação de patrimônio histórico, arquitetos e urbanistas, entre outros membros da sociedade.

A iniciativa ainda será desenvolvida por meio do “laboratório popular de urbanismo e sustentabilidade” da Práxis, responsável por organizar a dinâmica do processo de forma participativa.

De acordo com Maíra, a ideia de desenvolver o novo método de pesquisa na cidade é uma indicação de Sônia Rampim, coordenadora de educação patrimonial do Iphan, em Brasília.

A profissional mora na capital federal, mas é tatuiana e veio à cidade no dia 9 de janeiro, durante o período de férias dela, para visitar o complexo.

A visita foi acompanhada pelo secretário do Esporte, Cultura, Turismo, Lazer e Juventude, Cassiano Sinisgalli, pelo vereador proponente do tombamento e pela arquiteta Maíra, além de turismólogos da SECTLJ.

O inventário proposto é uma das ferramentas educativas coordenadas por Sônia, no Iphan, como uma forma de “a própria comunidade se organizar, identificar e ser protagonista no apontamento sobre o patrimônio”.

A coordenadora salientou que o método não é técnico ou oficial de tombamento, “mas um processo que envolve as pessoas afetivamente, para que elas coloquem os significados e qual a valoração afetiva que esses bens culturais têm para elas”.

Sallum sustenta que a pesquisa é “uma coisa revolucionária para o Brasil”. “Só houve algo parecido com isso no Centro Histórico de Iguape. É uma coisa que tornaria o tombamento da fábrica São Martinho algo ímpar no país”, acrescentou.

Maíra classificou o inventário como uma forma de elencar os bens e o patrimônio culturais do conjunto fabril em diferentes visões, por ouvir e reunir memórias afetivas de pessoas que fizeram parte da história do lugar.

“Vamos ter diversos pontos de vista e descobrir novos valores sobre o patrimônio. Por exemplo, para mim, enquanto arquiteta, o prédio tem valor histórico lógico. Mas, às vezes, uma pessoa que trabalhou ali, nos teares, vai ter outra visão sobre o que é importante”, exemplificou a arquiteta.

Ela aponta que inventários participativos já foram realizados em outras oportunidades, de forma institucionalizada, sendo na maioria das vezes encabeçada pelo Iphan. Já em Tatuí, a ação é desenvolvida pela comunidade.

“Vamos fazer por amor mesmo. Ninguém está ganhando para fazer isso. Claro, a gente conta com o apoio de todo mundo, mas é uma iniciativa da população, e acho que este é o diferencial”, salientou Maíra.

Para Sinisgalli, a aprovação do tombamento na instância nacional é quase certa, devido ao valor histórico do complexo fabril para o município e o país. Ele também elencou a coordenadora do Iphan como aliada no processo.

“Ela é tatuiana, conhece a história da fábrica e tem memórias ligadas ao espaço, assim como a maioria dos cidadãos que aqui residem ou residiram. Nós tivemos sorte de ter a Sônia nos auxiliando no processo, pois o local também tem relevância para ela”, observou o secretário.

O complexo já é tombado pelo estado desde dezembro de 2007, por meio do processo 31.877/94, do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) de São Paulo.

Além do motivo de verdadeira satisfação em se testemunhar esse projeto mais que oportuno seguir em frente, há outras virtudes “tecidas” por ele, infelizmente tão em falta na atualidade, como a (re) valorização da história, da arte, dos verdadeiros valores familiares e (raridade!) o “fazer por amor”!