A caminho do ‘Cristo Rei’ de Tatuí ou da salvação

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É muita loucura, em cuja profusão sobressai-se, por parte de significativo contingente populacional, a persistência ao não uso de máscaras e a desconfiança quanto às vacinas – a despeito de uma já premente terceira onda da pandemia de Covid-19 no país e em Tatuí, por conseguinte.

A outra parcela dos brasileiros – a sensata -, neste momento, está questionando: “até onde vai parar” esse insano fanatismo político e, de maneira mais dramática, a própria mortandade? Aqui em Tatuí, poder-se-ia concluir: ali no final da rua do Cruzeiro (para quem não conhece bem a cidade, é onde fica o cemitério Cristo Rei).

Do ponto de vista do livre-arbítrio (algo sagrado especialmente nas democracias), não haveria razão a qualquer impedimento, sendo certo que cada um pode pôr em risco a própria vida conforme seus caprichos, por mais insensatos e mortíferos sejam.

O grande problema, não obstante, está no fato de nem sempre o camicase ser a vítima do risco a que se expõe, levando ao passeio involuntário em féretro na avenida das Mangueiras outros indivíduos – os quais podem ser familiares, amigos ou demais a terem contato involuntário com o vírus, carregado pelos negacionistas.

(Para os que ainda não têm intimidade com a geografia tatuiana, essa avenida é utilizada para o cortejo até o Cristo Rei – aliás, uma bela via pública, essa, sim, totalmente “plana” e onde ainda se encontram o Legislativo e o Executivo locais.)

A se avaliar por este aspecto, o negacionismo pode, correta e justamente, ser compreendido como um ato de assassinato doloso – ou seus adeptos como potenciais “serial killers”, os quais podem, no momento, renunciar a suas amadas armas para sair matando por meio da Covid-19, atirando seus perdigotos sobre o rosto de vítimas inocentes.

De qualquer forma, apesar das evidências, persiste a negação à realidade. Portanto, vale reforçar a situação alarmante vivenciada pelo país. Para tanto, tendo Tatuí como exemplo, basta observação quanto aos registros da doença na cidade.

Nesta semana, o jornal O Progresso publicou reportagem mostrando que o número de mortes em decorrência do novo coronavírus teve novo recorde no período de um início de semana. Entre sábado, 12, e terça-feira, 15, a curva de óbitos apresentou o dobro de casos em comparação ao período anterior (entre 5 e 8 de junho).

Os relatórios diários da Vigilância Epidemiológica apontaram 15 óbitos, enquanto, entre os mesmos dias da semana anterior, foram sete, representando salto de 114,28%.

Até esta sexta-feira, 18, Tatuí já acumulava 374 vítimas fatais da doença, a partir de 58.937 notificações, entre as quais, 43.142 casos descartados e 15.778 confirmados (além dos que ainda seguiam aguardando resultado de exames).

Tudo isso não se resume a “números”, sendo a soma, dramática, de muitos e vários sofrimentos envolvendo centenas de famílias – as quais, se não tiveram perdas fatais, já podem se dar por afortunadas.

Não bastasse essa tétrica realidade, há o motivo maior pelo qual o isolamento social, com suas restrições sem dúvida profundamente incômodas, ainda continua como inevitável: a superlotação dos hospitais.

Ainda tendo Tatuí como exemplo, é suficiente lembrar que a ocupação dos leitos de UTI da Santa Casa, especificamente os destinados ao tratamento de pacientes com Covid-19 ou suspeita da doença, mantinha-se acima de 100% desde o dia 3 de março (há três meses e meio, portanto).

A situação era a mesma na ala clínica reservada aos pacientes acometidos pela doença, com lotação máxima desde 6 de maio – e com tendência de alta.

Aí, o cidadão consciente é levado a questionar se há alguma saída, além da que leva à reta da rua do Cruzeiro. Totalmente segura quanto à imunidade ao novo coronavírus, ainda não.

Contudo, é possível prevenir-se fortemente apenas respeitando-se as recomendações básicas de prevenção, como o uso de máscaras, higienização e distanciamento social.

Mas, até quando? Muitos podem pensar, com moderado erro, que a vacina porá fim ao drama “pessoal”. Pode até ser, mas o sanitário, que afeta a todos, somente desaparecerá quando a imensa maioria da população estiver imunizada.

Isto é, se o quinhão negacionista não arrefecer e tomar vacina, este inferno jamais deixará de flagelar a todos, contendo-se na casa do capeta – seja ela na China ou simplesmente na cabeça dos fanáticos extremistas a venerar suas teorias das conspirações.

Portanto, neste momento, é dar “graças” a quem se cultua – seja quem for – pelo privilégio de os paulistas poderem estar sendo abençoados com a vacinação antecipada e, claro, ir imunizar-se sem qualquer receio.

E não se esquecer de que, afinal, um dia todos seguirão para o final da rua do Cruzeiro, mas agir para essa caminhada demorar o máximo possível.

E mais: não desconsiderar o preceito de fé segundo o qual, conforme nossas ações aqui – por exemplo, se nos preocupamos com os outros ou lhes cuspimos vírus -, teremos determinado aonde iremos a partir do Cristo Rei…