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    A felicidade

    Aqui, Ali, Acolá

    José Ortiz de Camargo Neto *

    “A felicidade existe sim, mas nós não a alcançamos, porque está sempre apenas onde a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos.” Vicente de Carvalho (Velho Tema).

    Que poema profundo do nosso “poeta do mar”! De fato, quase sempre imaginamos a felicidade em outro tempo ou lugar: no amanhã, no ontem, em outra cidade ou país. Raras vezes percebemos que ela habita exatamente o aqui e agora — na vida que temos hoje, no momento presente. Aliás, esse é o único instante em que é possível usufruí-la.

    Com o passar dos anos, percebemos que a felicidade sempre está ao nosso redor e, sobretudo, em nosso interior. Basta aceitá-la.

    Qualquer pequenina coisa tem o poder de nos banhar de alegria, porque, afinal, não existem pequenas coisas: tudo é imenso, maravilhoso, misterioso e divino: o olhar de nossa amada, as estrelas que povoam o universo, uma flor colorida que vemos em nosso caminho, a convivência com os amigos, o diálogo conosco (interiorização) e a comunhão com o Maior Amigo, nosso Pai Celeste, no aqui e agora, constituem a felicidade plenamente vivida, que um dia poderá ser eterna.

    Se alguém passa a vida procurando a felicidade, principalmente em outra pessoa, é sinal que recusa a que já tem; tornou-se infeliz por recusar a imensa graça da própria existência.

    Observemos as crianças, como são felizes! Nós já fomos essa criança alegre, mas, com o tempo, fomos nos afastando dela, ou seja, de nós mesmos, buscando a satisfação no futuro, sem perceber que a felicidade já era nossa mais doce companheira.

    Por essa razão, Norberto Keppe afirma que a felicidade não está à frente, onde a procuramos, mas atrás, onde a deixamos. E Cristo nos adverte: se não nos tornarmos como crianças, não entraremos no Reino dos Céus.

    A criança é naturalmente ativa, vive intensamente no presente, está sempre realizando algo e, nessa vivência, é feliz. Como observa Keppe:

    “O ato puro é o início do que existe, não só da ideia certa, como do sentimento bom (amor, felicidade, alegria, otimismo) […] a ação promove o pensamento e o sentimento, constituindo seu motor inicial, que limpará todas as impurezas que as ideias e o afeto possam sofrer.”

    Voltar a ser criança é, afinal, resgatar o agir com bondade e alegria no agora. Pois a felicidade nunca esteve ali ou acolá; ela sempre nos esperou bem aqui.

    Até breve.

    * Jornalista e escritor tatuiano.