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    Contra violência, nenhuma mulher pode ficar sozinha

    A violência contra a mulher não termina quando a agressão chega ao fim. Muitas vezes, é justamente depois dela que começam os maiores obstáculos: denunciar, encontrar acolhimento, compreender os próprios direitos, proteger os filhos, romper ciclos de dependência e reconstruir a vida.

    Por isso, toda iniciativa que fortaleça a rede pública de atendimento merece ser reconhecida — e, sobretudo, apoiada. É nesse sentido que Tatuí avança com o encontro “Rede que Protege: Fortalecendo o Atendimento às Mulheres”.

    A iniciativa, divulgada pelo jornal O Progresso na semana passada, foi promovida pela prefeitura, por meio da Secretaria de Direitos Humanos, Família e Cidadania e da Coordenadoria da Mulher.

    Realizada na Fatec Tatuí, o evento reuniu profissionais e instituições envolvidos no atendimento a mulheres em situação de violência, com o objetivo de construir um fluxo municipal integrado, claro e humanizado.

    A proposta é tão necessária quanto urgente. Uma mulher que procura ajuda não pode ser obrigada a percorrer um caminho confuso, repetir inúmeras vezes sua história ou descobrir, por conta própria, qual serviço deve procurar. Em momentos de medo, vergonha e insegurança, a falta de orientação pode afastá-la da denúncia e aumentar a exposição ao agressor.

    Um sistema de proteção eficiente precisa funcionar como uma rede de fato: com seus pontos conectados, responsabilidades definidas e comunicação permanente. Não basta existirem serviços isolados.

    É necessário que eles saibam quando devem ser acionados, como receber cada caso, quais informações precisam acompanhar os encaminhamentos e de que maneira garantir a continuidade do atendimento.

    O encontro promovido pelo município partiu justamente dessa compreensão. Nele, os participantes puderam aproximar o diagnóstico da prática cotidiana, discutindo o cenário atual da violência contra a mulher, os desafios da subnotificação e as dificuldades enfrentadas pelos serviços.

    Além de abordar a violência em termos gerais, a reunião procurou responder a uma pergunta essencial: o que fazer, concretamente, quando uma mulher pede ajuda?

    A resposta passa pelo acolhimento. A vítima não pode ser tratada como responsável pela violência sofrida, nem submetida a julgamentos sobre suas escolhas, seu comportamento ou o tempo que levou para procurar auxílio.

    Também não deve ser pressionada a tomar decisões para as quais ainda não está preparada. Cabe aos serviços oferecer escuta qualificada, orientação segura e encaminhamento adequado, respeitando o tempo, a autonomia e as condições de cada mulher.

    A articulação reunida em Tatuí envolve diferentes áreas e instituições: Patrulha da Paz, Guarda Civil Municipal, Botão do Pânico, Justiça Restaurativa, Projeto “Protegendo+Elas”, assistência social, Cras, Creas, Saúde, Caps, Conselho Tutelar, Delegacia da Mulher e OAB Por Elas.

    Cada serviço possui atribuições específicas. O desafio está em fazer com que essas atribuições se complementem, sem que a vítima seja abandonada entre uma porta e outra.

    A elaboração da “Minuta do Fluxo Municipal Integrado de Atendimento à Mulher em Situação de Violência” representa um passo importante.

    As contribuições apresentadas durante a oficina deverão ser sistematizadas e consideradas na consolidação do documento, que ainda dependerá das etapas institucionais necessárias para análise, aprovação e publicação.

    Esse cuidado é positivo: protocolos precisam refletir a realidade local e ser construídos por quem conhece, na prática, as dificuldades e possibilidades da rede.

    Mas um fluxo escrito, por melhor que seja, não basta. Ele precisa ser conhecido, aplicado e permanentemente revisado. Os profissionais devem receber capacitação contínua, inclusive para reconhecer formas menos visíveis de violência, como a psicológica, patrimonial, moral e sexual.

    Também é fundamental garantir sigilo, proteção de dados, atendimento acessível e condições para que mulheres em situação de vulnerabilidade agravada — idosas, com deficiência, pretas, migrantes, mães solo e pessoas LGBTQIA+ — não encontrem novas barreiras ao buscar ajuda.

    Outro aspecto que merece atenção é a prevenção. A violência doméstica não começa necessariamente com uma agressão física. Ela pode se manifestar no controle do dinheiro, no isolamento de familiares e amigos, na vigilância do celular, nas ameaças, na humilhação, na perseguição e na tentativa de impedir que a mulher estude ou trabalhe.

    Quanto mais cedo esses sinais forem reconhecidos, maiores as possibilidades de interromper a escalada da violência. A escola, os serviços de saúde, as igrejas, as organizações comunitárias, o comércio e os meios de comunicação também podem colaborar.

    Muitas vítimas revelam primeiro o que estão vivendo a alguém de confiança, antes de procurar a polícia ou um serviço especializado. Por isso, informação é uma forma de proteção. Saber ouvir, não minimizar a denúncia e indicar corretamente os canais de atendimento pode fazer diferença.

    Também é necessário compreender que a responsabilidade pelo enfrentamento da violência não pode recair apenas sobre a vítima. Cabe ao agressor responder por seus atos, e cabe ao poder público oferecer mecanismos de proteção e responsabilização.

    A sociedade, por sua vez, precisa abandonar a tolerância com frases que relativizam a agressão, culpam a mulher ou tratam a violência doméstica como assunto privado. Não é. Quando uma mulher é ameaçada, agredida ou impedida de viver com autonomia, há uma violação de direitos que exige resposta coletiva.

    Nesse aspecto, a iniciativa da prefeitura de Tatuí é bem-vinda porque procura substituir ações fragmentadas por uma política articulada. A reunião na Fatec não deve ser vista como evento isolado, mas como parte de um processo contínuo.

    O verdadeiro resultado aparecerá quando uma mulher conseguir chegar ao serviço certo com mais rapidez, for acolhida sem julgamento, receber orientação segura e encontrar acompanhamento até que sua situação seja efetivamente encaminhada.

    É importante, ainda, que o município divulgue de maneira ampla e acessível os serviços disponíveis, seus horários, contatos e formas de acionamento. Uma rede que existe, mas não é conhecida, permanece distante de quem precisa dela.

    A comunicação deve alcançar os bairros, as escolas, as unidades de saúde e os espaços comunitários, utilizando linguagem clara e recursos que considerem pessoas com diferentes níveis de escolaridade e acesso à informação.

    Combater a violência contra a mulher exige firmeza, preparo e continuidade. Não há espaço para improviso quando está em jogo a segurança e, muitas vezes, a própria vida de uma pessoa. Tatuí demonstra maturidade ao reunir seus serviços, ouvir os profissionais e buscar construir um fluxo integrado de atendimento.

    A expectativa, agora, é de que esse trabalho avance da minuta para a prática, com recursos, treinamento, monitoramento e compromisso institucional. Porque uma rede de proteção só é realmente forte quando funciona justamente no momento em que a vítima mais precisa dela.

    Nenhuma mulher deve ser obrigada a enfrentar sozinha a violência que sofreu. E nenhuma instituição pública pode trabalhar sozinha diante de um problema dessa dimensão. A proteção começa quando a vítima é ouvida — e se completa quando toda a rede sabe como agir.