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    Futebol sem arte

    Aqui, Ali, Acolá

    José Ortiz de Camargo Neto *

    Caros amigos, estamos assistindo ao fim do glorioso futebol que os da minha geração tiveram o privilégio de acompanhar. Vi o Brasil se tornar pentacampeão do mundo, vibrando em 58, 62, 70, 94 e 2002.

    Naquela época, o futebol era um espetáculo genuíno: os dribles desconcertantes de Garrincha, as arrancadas imprevisíveis de Pelé, os chapéus, as meias-luas, as bicicletas e a beleza pura do talento individual. Tudo isso acabou — ou, pelo menos, quase desapareceu.

    A gente ia ao estádio para ver a magia acontecer. Para ver os dribles que deixavam os zagueiros caídos, sentados no gramado; o baile de Garrincha, a verdadeira alegria do povo.

    Havia arte, delicadeza e ética em defensores como Djalma Santos e Nílton Santos. Havia o desfile de craques como Ademir da Guia, que dominava o meio-campo e desarmava os adversários com uma elegância tamanha, sem nunca apelar para faltas.

    Muito dessa essência ainda resistiu até pouco tempo atrás, na genialidade de Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno e Rivaldo. Mas, infelizmente, o futebol-arte caminha para a extinção. E a grande culpada é a permissividade da FIFA com a deslealdade em campo.

    Hoje, basta um jogador habilidoso tentar uma jogada individual, um drible, para ser imediatamente agarrado pela camisa, sofrer uma rasteira, uma tesoura, ou ser contido por um puxão de braço e até uma gravata — muitas vezes sem qualquer punição severa.

    É a condenação da beleza do jogo, o fim do improviso e, por consequência, o fim da alegria do torcedor. Fomos condenados a assistir a um futebol monótono, engessado por uma troca de passes burocrática e sem nenhuma imaginação.

    Atualmente, o tempo máximo que um atleta consegue reter a bola sem sofrer uma falta não passa de três segundos. Assim que recebe a bola, ele se vê obrigado a passá-la imediatamente para o companheiro mais próximo, que faz o mesmo logo em seguida. É a monotonia e a previsibilidade elevadas ao extremo.

    Quem mais sofre com essa engrenagem pragmática são os jogadores brasileiros, tradicionalmente criativos, ousados e surpreendentes. Agora, eles são forçados a jogar como qualquer outro time do mundo, enquadrados em um sistema tático rígido que anula a improvisação.

    Pego aqui, passo ali; pega lá, passa acolá. É nesse vaivém entediante que se transformou o esporte que já foi arte.

    Será que ainda há tempo para mudar?

    * Jornalista e escritor tatuiano.