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    Josué Fernandes Pires: professor-patrimônio

    Há figuras que atravessam a história de uma cidade como meras referências biográficas; e há os que se tornam espinha dorsal de sua identidade. Em Tatuí, Josué Fernandes Pires – sem qualquer exagero – está no segundo grupo.

    Professor, artista plástico, escultor, fotógrafo, militante político, ambientalista intuitivo em plena década de 1970, ele foi, muito antes de o termo existir, um verdadeiro artista “multimídia”.

    E (muito) mais que isso: uma figura humana rara, que uniu sensibilidade estética, compromisso social e visão de futuro em uma trajetória que a cidade tem o dever de reconhecer, preservar e exaltar com todas as letras, formas e cores.

    A recente reinauguração da estátua “O Condutor”, na Etec “Sales Gomes”, depois de anos de esforço para se restaurar a obra destruída pela queda de uma árvore durante uma desastrosa poda, é nada mais que uma obrigação, sim.

    Porém, pode ser entendida como algo a mais, como um gesto maior: o de que Tatuí está, enfim, recolocando no lugar devido uma das manifestações mais emblemáticas do legado do professor Josué.

    Criada com alunos do antigo Ginásio Industrial, entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, a escultura representa o professor que caminha ao lado do aluno, conduzindo, mas também permitindo que ele o supere. Não por acaso, foi construída “a muitas mãos” – conceito que atravessa toda a obra e a vida do artista.

    É difícil exagerar a importância de Josué Fernandes Pires na formação de gerações de tatuianos. Saído do Grupo Escolar “João Florêncio”, voltou às escolas como mestre: lecionou na própria “Sales Gomes”, no “João Florêncio”, no “Chico Pereira”, em Tatuí, e na escola “Alves Viana”, em Tietê.

    Em todos esses espaços, não foi apenas um transmissor de conteúdos, mas um “formador de gente” (possível dizer, “conduzida” para a sensibilidade e a decência).

    Uma das filhas – companheira de correção de trabalhos escolares, por exemplo – lembra, emocionada, que ele enxergava o esforço por trás de um desenho “torto”, “lia” o sofrimento nas provas e valorizava quem tentava, não apenas quem acertava.

    Para muitos, inclusive, foi referência paterna, conselheiro, exemplo de dignidade. Chamá-lo de “Professor Josué” não é convenção: é reconhecimento de um mestre no sentido mais profundo do termo.

    Como artista, seu impacto é igualmente incontornável. A estátua “O Apascentador”, em frente ao Teatro “Procópio Ferreira”, tornou-se cartão-postal do Conservatório de Tatuí, estampou capas de revistas, elevou a autoestima cultural da cidade e ajudou a consolidar a imagem de Tatuí como Capital da Música.

    “O Semeador”, na Estação Experimental, e “O Condutor”, na Etec, compõem uma trilogia de monumentos que unem arte e educação, estética e pedagogia, metáfora e concreto.

    Reconhecida até em Varginha, Minas Gerais, sua escultura “Extraterrestre”, com dois metros de altura, eleva-se ao imaginário ufológico e mostra que seu talento ultrapassou fronteiras municipais – senão terrenas!

    Mas a grandeza de Josué não se limita às obras espalhadas pela cidade e pelo país. Ele foi um homem politicamente engajado, militante em um tempo em que se posicionar tinha custo alto. Descrevia a política como “muito confusa”, mas nunca se furtou ao debate público – chegou a ser eleito vereador duas vezes em Tatuí.

    Mas resplandeceu mesmo na arte, não sendo artista de ateliê fechado em si mesmo: entendia que arte e educação precisavam ecoar as questões concretas do mundo, com as desigualdades, os direitos, a “cidade real”.

    Nesse mesmo espírito, sua relação com o meio ambiente merece destaque. Muito antes de o termo “sustentabilidade” se popularizar, Josué já olhava para árvores, espaços públicos e paisagens com o cuidado de quem sabe que urbanismo sem natureza é mutilação!

    Os relatos de quem conviveu com ele não deixam dúvida de que sua preocupação ambiental não era moda nem discurso vazio; era postura ética cotidiana – até emotiva, por francamente amar a natureza.

    Olhava o entorno da escola, o pátio, as áreas verdes, como parte integrante do projeto educativo e cultural. Hoje, quando Tatuí se prepara para celebrar 200 anos e discute preservação de patrimônio e de áreas verdes, é preciso reconhecer: em muitos aspectos, o professor Josué chegou décadas antes.

    A exposição pedagógica “Mostra 71”, no então Ginásio Industrial “Sales Gomes”, sintetiza essa visão ampla. Não foi só uma exposição de trabalhos escolares, mas um manifesto em favor de uma educação que integrou ciência, técnica, arte, reflexão social e experiência sensível.

    Isso em 1971, em plena ditadura, quando falar de criatividade, criticidade e protagonismo estudantil não era exatamente confortável. Mais uma vez, Josué estava à frente do tempo, usando as ferragens, o concreto, o cobre e a sala de aula para ensinar que educação também é liberdade, invenção e coragem!

    Por tudo isso, a reinauguração de “O Condutor” não pode ser tratada como um mero ato protocolar de “restauro de monumento”. Como bem afirmou o secretário-adjunto da Cultura, Rogério Vianna, não se trata apenas de restauro, mas de recuperação de identidade.

    Quando a árvore caiu e despedaçou a obra, em 2021, não foi um mero acidente por descuido ou imperícia: a patetice representou uma ferida simbólica na memória de Tatuí.

    Também por isso, com o uso de um edital de cultura justamente com o nome do próprio artista, a arquiteta, o engenheiro, professores, alunos, ex-alunos, artistas locais e a comunidade que se engajaram para devolver a estátua ao seu lugar, a cidade (ou pelo menos parte consciente dela) comunica não aceitar a perda de seus símbolos com passividade.

    Esse gesto precisa ir além da escultura. Em uma Tatuí que se afirma como estância turística, além de ser a Capital da Música e um centro de produção cultural, a figura de Josué Fernandes Pires deve ocupar um lugar de destaque na narrativa oficial.

    Isso significa mais do que citá-lo ocasionalmente, mas, sim, incluir sua trajetória em roteiros de turismo cultural, em materiais didáticos, em exposições permanentes, em placas explicativas junto às obras, em programas de formação de professores. Significa, enfim, assumir que ele é patrimônio – não apenas de ferro, concreto e cobre, mas de ideias, valores e exemplo.

    Há artistas importantes na história de Tatuí. Há professores memoráveis. Mas poucos uniram, com tanta intensidade, múltiplas linguagens artísticas, compromisso social, visão ambiental e autoridade moral como Josué Fernandes Pires.

    Não é retórica dizer que a cidade lhe deve muito: deve a ele boa parte de sua paisagem simbólica, de sua identidade estética e de sua melhor tradição educadora.

    Que a volta de “O Condutor” ao seu posto, na Etec “Sales Gomes”, sirva como ponto de partida para um reconhecimento ainda mais amplo. E que Tatuí, ao celebrar seu bicentenário, saiba dizer em voz alta – nas escolas, nas praças, nos museus, nos roteiros turísticos e na imprensa – aquilo que muitos ex-alunos e amigos já sentem há décadas: o professor Josué não foi apenas um grande artista e mestre. Foi, e segue sendo, um dos maiores orgulhos desta cidade.