
Não é apenas a quantidade de café que importa, mas também o horário do consumo. Uma análise publicada no início de 2025 no European Heart Journal, periódico da Sociedade Europeia de Cardiologia, sugere que indivíduos que concentram o consumo de café nas horas da manhã, entre 4h e 11h59, apresentam associação com menor risco de mortalidade cardiovascular em comparação àqueles que não consomem a bebida.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Tulane University, nos Estados Unidos, analisou dados de 40.725 adultos acompanhados por uma média de 9,8 anos. Os resultados mostraram que o padrão de consumo matinal esteve associado a 16% menor risco de morte por qualquer causa e 31% menor risco de morte por doença cardiovascular, em comparação aos não consumidores.
Por outro lado, essa associação não foi observada entre participantes que consumiam café ao longo de todo o dia, manhã, tarde e noite, grupo que não apresentou redução significativa de risco.
“Esse estudo traz uma hipótese interessante, mas precisa ser visto com cautela. Como é uma análise observacional, ele não permite dizer que existe uma relação de causa e efeito. O que ele mostra é uma associação entre o consumo de café pela manhã e menor mortalidade. E isso pode ter relação não só com o horário do café em si, mas com um conjunto de hábitos mais organizados, mais alinhados ao ritmo biológico”, afirma o cardiologista Dr. Gustavo dos Reis Marques.
O ritmo e a xícara
Os pesquisadores, liderados pelo Dr. Lu Qi, identificaram dois padrões principais. O grupo “manhã”, que representava 36% dos participantes, consumia café majoritariamente antes do meio-dia. Já o grupo “ao longo do dia”, com 14%, apresentava ingestão distribuída em horários variados.
Mesmo após ajustes para fatores como quantidade de café, com ou sem cafeína, duração do sono, tabagismo e nível de atividade física, apenas o padrão matinal manteve associação com menor mortalidade.
Uma das hipóteses levantadas pelos autores envolve o ritmo circadiano. Sobre isso, Dr. Gustavo explica.
“Do ponto de vista fisiológico, isso faz sentido. Consumir cafeína mais no fim do dia pode atrapalhar a qualidade do sono, e a gente sabe que dormir mal é um fator de risco importante para doença cardiovascular. Mas isso não quer dizer que o café pela manhã tenha, por si só, um efeito protetor direto. Muitas vezes, o consumo mais tardio pode ser só um sinal de um ritmo circadiano mais desorganizado.”
O editorial que acompanha o estudo também sugere que a ativação do sistema nervoso simpático segue um padrão diário, com maior atividade nas primeiras horas do dia e redução progressiva ao longo da noite, o que poderia ser impactado por estímulos como a cafeína em horários mais tardios.
Prática clínica sem alarmismo
Apesar dos achados, especialistas reforçam que o estudo não deve ser interpretado como uma mudança direta de recomendação clínica.
“Na prática, esse tipo de resultado não muda conduta de forma isolada. O café pode, sim, fazer parte de um estilo de vida saudável, mas o impacto dele é pequeno quando a gente compara com sono, atividade física, alimentação e controle dos fatores de risco clássicos”, afirma Dr. Gustavo.
A recomendação segue sendo individualizada. “A recomendação continua sendo individualizar. Pessoas que são mais sensíveis à cafeína, como quem tem insônia, ansiedade, arritmias ou pressão não controlada, podem se beneficiar de evitar o consumo, principalmente à tarde e à noite. Mas isso precisa ser ajustado caso a caso, de acordo com a resposta de cada um.”
Outro ponto importante é evitar supervalorizar um único hábito. “No fim das contas, o principal é não superestimar um hábito isolado. O horário do café provavelmente tem muito menos peso do que o contexto geral. Quando a gente fala de saúde cardiovascular, o que realmente muda desfecho ainda é o básico bem feito. Dormir bem, se exercitar, se alimentar melhor e controlar os fatores de risco.”
Sobre o estudo
O trabalho utilizou dados do National Health and Nutrition Examination Survey, dos Estados Unidos, coletados entre 1999 e 2018. Parte dos dados foi validada por um subgrupo de 1.463 participantes que mantiveram diários alimentares detalhados por uma semana.
Durante o período de acompanhamento, foram registrados 4.295 óbitos por todas as causas, sendo 1.268 de origem cardiovascular.
Os próprios autores destacam limitações importantes. Por se tratar de um estudo observacional, não é possível estabelecer causalidade direta nem excluir completamente fatores de confusão, como padrões de sono, cronotipo ou trabalho em turnos, que podem influenciar tanto o horário de consumo quanto o risco cardiovascular.
Referências científicas
Wang X, et al. Coffee drinking timing and mortality in US adults. Eur Heart J. 2025. DOI: 10.1093/eurheartj/ehae871
Editorial: Lüscher TF. Time to drink coffee? Eur Heart J. 2025.
National Heart, Lung, and Blood Institute, NHLBI. News Release, 2025.






