Viva o Carnaval 2022, mas sem samba negacionista

Não necessariamente por coincidência, o governo federal decretou o fim da emergência sanitária – imposta pela pandemia de Covid-19 há praticamente dois anos – e diversas cidades no país promovem neste final de semana o Carnaval “fora de época”.

Em paralelo, o estado de São Paulo já havia descartado a necessidade do uso de máscaras em locais públicos, abertos, praticamente liberando-as também em lugares fechados – dado, aparentemente, ninguém estar mais dando-lhes grande importância.

Tudo porque, em tese, o combate à doença atingiu um nível de “quase” vitória. A princípio, o retorno a uma rotina menos anormal é profundamente positivo. Mais até: necessário.

“Porém” (sempre ele), a manutenção do atual estado de certo controle do vírus impõe obrigatória consciência da população. Em primeiríssimo lugar: jamais se deve esquecer que este “novo normal bem menos ruim” deve-se à vacinação!

Esquecer disto, abrindo espaço a novas manifestações fanáticas do negacionismo, não seria mais que, também, abrir as portas a uma não descartável nova onda de contaminações, pondo tudo a perder – particularmente, mais vidas antes do tempo.

Outro aspecto a se lembrar para a eternidade: a despeito do deboche e do escárnio de figuras sem qualquer capacidade de sentimento pelo ser humano, mais de 660 mil pessoas mortas antes do tempo não é – e nunca será – algo banal. É uma catástrofe a marcar a história do país para todo o sempre!

Ainda, é imprescindível não se pensar que a pandemia acabou por completo. Neste momento, cerca de cem pessoas no país ainda morrem todos os dias vítimas da Covid-19.

Isso não é nada menos que também trágico, especialmente se uma única dessas pessoas for alguém de nosso carinho e apreço. Portanto, é bom ter respeito.

Respeito, aliás, também é a palavra – e a postura – que deve marcar os próximos meses com relação ao vírus. Ou seja, na medida do possível, sim, ainda é importante estar atento às medidas de prevenção – ao menos lavando as mãos constantemente e usando máscara em locais mais restritos.

Mas, claro, é hora de aproveitar – sempre com responsabilidade – o tal “tempo perdido”. Por este motivo, que o Carnaval fora de época resulte em muito emprego, renda e, claro, alegria!

Outro motivo de celebração é o reconhecimento justamente do Carnaval como uma expressão de cultura imaterial do estado. O governador Rodrigo Garcia entregou nesta terça-feira, 19, o diploma de registro da folia de Momo como patrimônio imaterial do estado de São Paulo a representantes da Liga das Escolas de Samba.

Em votação unânime, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão de preservação do patrimônio material e imaterial ligado à Secretaria de Cultura e Economia Criativa, do estado, aprovou o registro das práticas carnavalescas como patrimônio imaterial.

“O que estamos fazendo aqui hoje é reconhecer algo da nossa vida, algo que faz parte da nossa história e da nossa tradição. O valor do diploma é o que ele representa, que é o que São Paulo pensa do seu Carnaval, agora reconhecido como patrimônio imaterial”, disse Garcia.

O parecer do Condephaat, publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo em maio de 2021, concluiu que “as práticas carnavalescas traduzem saberes, fazeres e uma identidade coletiva que estabelecem relações de pertencimento”.

A proposta inicial, apresentada pela Liga Independente paulista, solicitava o registro dos “Desfiles das Escolas de Samba” como patrimônio cultural imaterial.

O conselho analisou que havia necessidade de elaboração de um “plano mais amplo, à altura da importância da manifestação cultural, capaz de garantir a salvaguarda e reprodução da prática, a preservação dos saberes e a perenização da memória coletiva envolvida”.

Concluiu-se que a forma mais adequada de preservar e valorizar o Carnaval de São Paulo seria ampliar o objeto e registrar, como patrimônio imaterial, as “Práticas Carnavalescas do Estado de São Paulo, não apenas os desfiles, pois estes são a finalização de um processo diversificado e de grande riqueza cultural”.

O parecer do órgão diz que “o caminho mais adequado para preservar e valorizar o Carnaval é identificar e preservar as práticas preparatórias dos desfiles, mesmo as atividades das escolas de samba que não são traduzidas na avenida, mas estão diretamente relacionadas ao Carnaval ao longo do ano, considerando que são nestas práticas e rituais que se encontram os saberes dos mestres antigos do samba e sua relação com o samba paulista, seu enraizamento nas comunidades e sua inserção no cotidiano dos bairros onde estão as sedes das escolas de samba”.

As justificativas do Condephaat para a aprovação do reconhecimento consideram que as escolas de samba são territórios onde se concentram práticas culturais coletivas ligadas ao samba e à produção do Carnaval; que as escolas surgem a partir dos cordões, que se configuraram como as primeiras organizações da prática do samba em formato de procissão; que estes lugares são, historicamente, locais de sociabilidade de camadas mais populares, principalmente negros, que encontraram uma forma legitima de realizar suas práticas.

O Registro do Patrimônio Imaterial foi criado por meio do decreto 57.439, de 2011, e permite o reconhecimento de manifestações culturais do estado que são referências à identidade, à ação e à memória como expressão de identidade cultural e social.

O objetivo é identificar e reconhecer conhecimentos, formas de expressão, modos de fazer e viver, rituais, festas e manifestações que façam parte da cultura paulista.

O primeiro registro de patrimônio imaterial do Condephaat foi realizado em janeiro de 2016, com o reconhecimento do samba paulista. O virado paulista, tradicional prato da culinária do estado, foi reconhecido em 2018. Já o Santuário Nacional da Umbanda, em 2019.

O mesmo princípio vale para as riquezas culturais da Cidade Ternura, como o Cordão dos Bichos, os doces caseiros, as tradições caipiras, a própria música. Tudo a seu tempo, se já não o foi, deve ser reconhecido como patrimônio imaterial – pelo bem da própria “identidade” de Tatuí, do estado e do país.

Neste sentido, a despeito de se estar em ano eleitoral – com as não surpreendentes benesses, recursos e inaugurações concernentes – a inciativa do estado merece congratulações. Ainda, que a festa se conclua não apenas com alegria, mas sem nenhuma perda de saúde. E viva o Carnaval!

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