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    Uma figura musical para se conhecer





    Meu caro amigo leitor músico, atribulado em seu trabalho ou estudo, não pense que vou aqui falar de semibreves, mínimas, semínimas, colcheias, semicolcheias e afins. Mesmo que eu volta e meia adote um tom didático em meus textos, devo ao leigo algumas pausas para descanso, para que pequenos excessos não lhe atrapalhem a leitura. Assim como na ciência, na música e na vida (ou na arte da guerra, diria Napoleão) é sempre importante dar um passo atrás, que não significa retroceder, mas recapitular para avançar e concluir.

    Falo de figuras humanas, gente cujo caminho cruzei vez por outra, por breve ou mais longamente no caminho da vida. São pessoas que moldaram minha formação como profissional e pessoa; por enquanto, devo concentrar-me nos que fizeram a história da música no Brasil, os que tive o privilégio de conviver ou conhecer, às vezes mesmo sem ter estado em uma de suas salas de aulas, de olho “pedra” (como se chamava lousa, antigamente). E mesmo a certa distância, foram eles meus professores de vida.

    Hoje recebi de presente do amigo Antonio Ribeiro o CD “Só Isso e Nada Mais”, do músico, professor, regente, pesquisador e principalmente desbravador musical do Brasil, George Olivier Toni, com um amável autógrafo. O título é sugestivo: trata-se do primeiro registro exclusivo de suas músicas, aos 88 anos!!! A trajetória de Toni é longa, desde suas aulas com o grande Camargo Guarnieri à sua “deserção” para a modernidade (“pero no tanto”) que seduziu tantos compositores, pelas mãos de Koellreuter (1915-2005). Seus colegas, como ele, terminaram abraçando uma técnica sedutora pela facilidade, mas com prazo de validade já vencido quando chegada ao Brasil, o dodecafonismo: com ele, Guerra-Peixe, Aylton Escobar, Claudio Santoro e muitos outros. Toni voltou ao seu caminho, que também teve como preparador o grande mestre austríaco Martin Braunwieser, trazido ao Brasil por Mário de Andrade. Mostrou-se coerente em sua obra e pensamento político, cria que foi da Faculdade de Filosofia da USP, orientado por Gilles Grangér, Otto Klineberg e o grande Florestan Fernandes.

    Pesquisou a música brasileira, mas não quis passar para a história como musicólogo. Lecionou, mas era mais polêmico do que mero repaginador de surrados compêndios do passado. Discutia, questionava, fazia germinar o espírito investigativo e questionador tão necessários à vida na universidade – no caso, a USP, de cujo Departamento de Música foi fundador e chefe. É compositor, tem um técnica bastante pessoal, mas nunca aspirou a um busto de bronze na academia. É regente, trabalhou à frente de alguns dos melhores conjuntos orquestrais do país, mas não foi contaminado pela vaidade do estrelato. E foi um bandeirante musical: fundou a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo (1968), até hoje mais viva do que nunca, a Escola Municipal de Música (1969), orquestras e festivais como os de Prados (MG), em que reunia poucos e bem selecionados alunos. Criou um Departamento de Música na USP com nomes como Willy Corrêa de Oliveira e Gilberto Mendes, inicialmente em um barracão próximo ao lugar onde alunos de medicina iam dissecar corpos ou namorar (é tudo verdade!). Fez germinar a música na USP, agora muito bem revigorada.

    Sua equipe era nitidamente influenciada pelo pensamento que tinha grande força na universidade, o marxismo em suas teorias políticas e estéticas, e nelas trafegava com naturalidade. Nunca deixou de ser crítico, como convém a todo marxista que se veste do título, sem modismos juvenis: dizia que a esquerda brasileira (penso em Cecília Meireles: “que ninguém sabe o que seja”) nunca teve certeza do que fazer com a cultura, e muito menos com a música.

    Em um de seus diversos cartões, que recebo e coleciono, a marca de sua personalidade (aliás, mais parecem declarações de amor paternal): “quis o destino nos apartar mais uma vez…” Entendi que ele se referiu à primeira vez, quando rompemos por alguns anos por conta de certos vícios acadêmicos, coisa quase rotineira. Mesmo sendo chefe, nunca me importunou. Da segunda vez, foi a distância mesmo.

    Grata surpresa foi em um certo dia no Centro Cultural São Paulo, enquanto eu fazia a abertura das comemorações do 25º aniversário da fundação da Escola Municipal de Música, e percebi o próprio fundador sentado na plateia. Após minha fala, bem ao meu lado, estava o Toni, pedindo para si o microfone. Em público, desculpou-se por ter se oposto a mim como diretor da escola que ele fundou, fez o “mea culpa” e passou a tecer-me rasgados elogios – esse é e sempre foi o Toni: sabe tanto atacar sem papas na língua quanto retroceder com a humildade que é exclusiva dos grandes homens. Aquela noite foi a de um reatamento informal. Toni, quatro meses mais novo do que meu pai, ainda é um amigo à distância, elogioso mas sempre desinteressado estimulador. Aqui retribuo ao mestre, com carinho.

    Na capa do CD, algo abstrato. Apenas na parte interna, uma discreta foto, em pleníssima forma e jovem aos seus 88 anos, mais lúcido do que nunca, desenhou com sua caligrafia peculiar: “Pra meu caríssimo Henrique Dourado, exemplar músico e amigo, com o abraço do Olivier Toni. 22/10/14”. Uma figura, como disse, de enorme importância na música brasileira do século 20 e até hoje. Suas palavras ainda ecoam em meus ouvidos – e se ontem eu as achava sem sentido ou quase, hoje as vejo como a lição de um mestre, sabedoria que leva uma década para ser compreendida. Um abraço para você também e longa vida, Toni!