
A instalação do totem “200 Dias para os 200 Anos” na Praça da Matriz, na manhã deste sábado, 24, pode ser interpretada como algo que transcende o gesto simbólico: ela inaugura, com precisão técnica e sensibilidade histórica, um ciclo que pode redefinir o lugar de Tatuí no mapa cultural e turístico de São Paulo.
Em um ano crucial – o primeiro como estância turística e o bicentenário –, a intervenção não apenas marca o tempo: ela explicita um projeto de cidade que entende cultura como infraestrutura, memória como alicerce e tecnologia como ferramenta de democratização.
O projeto, concebido pelo artista tatuiano Jaime Pinheiro e viabilizado por parceria público-privada, acerta em detalhes que merecem registro.
A escolha do aço corten, material que envelhece com dignidade, reflete a permanência que se espera de uma cidade bicentenária.
O recorte do mapa urbano, destacando o curso do rio Tatuí, não é mero adorno: é uma declaração de que geografia e história são inseparáveis na identidade local.
E o placar digital, mais que um contador, é um convite à participação coletiva – algo essencial para uma estância que aspira a ser destino, não apenas passagem.
Do ponto de vista turístico, o totem cumpre três funções estratégicas. Primeiro, âncora física: ao ocupar o centro histórico, ele cria um ponto de convergência para visitantes substituindo a abstração do “patrimônio” por uma obra tangível.
Segundo, como plataforma de informação: a veiculação de agendas culturais e roteiros transforma-o em um “hub” de utilidade pública, resolvendo uma carência comum em cidades turísticas – a desarticulação entre oferta e acesso. Terceiro, como símbolo de contemporaneidade: integrando arte, tecnologia e urbanismo, Tatuí sinaliza que sua vocação musical (já reconhecida) convive com inovação, atraindo um público além dos nichos tradicionais.
Este último aspecto é crucial. A menção ao “urbanismo cultural” na assessoria oficial não é acidental. Cidades que ascendem a estâncias turísticas frequentemente cometem o erro de fossilizar sua imagem, apostando apenas no folclórico ou no histórico.
Tatuí, por ora, demonstra compreender que turismo de relevância no século 21 exige “camadas de opções e interesses”. O totem oferece isso: o transeunte vê o passado (o rio como veia geográfica), o presente (o contador em tempo real) e o futuro (a agenda de eventos). É uma narrativa tridimensional que educa o olhar do visitante.
O timing também é político. Iniciar a contagem regressiva a 200 dias do bicentenário – e não a um ou dois anos – revela um cálculo preciso. Períodos muito longos esvaziam o sentido de urgência; prazos curtos geram engajamento.
A decisão de concentrar as atenções nesta reta final permite que a prefeitura construa uma sequência narrativa: cada evento até agosto será um capítulo visível no “cronômetro urbano”, gerando expectativa mensurável. Para uma estância em consolidação, essa regularidade de impacto é mais valiosa que espetáculos isolados.
Há ainda um acerto tático na localização. A Praça da Matriz não é apenas o “marco zero” físico; é um espaço de memória afetiva. Vinculando o totem a referências como o antigo relógio da Fábrica São Martinho (citado por Rogério Vianna), a gestão faz uma ponte entre gerações.
O cidadão que vê o contador não o percebe como intruso, mas como herdeiro de uma tradição tatuiana de marcar o tempo coletivamente. Esse senso de “pertencimento ampliado” é grande incentivador para que moradores se tornem embaixadores espontâneos do turismo local.
Claro, desafios persistem. Um totem, por mais sofisticado, não substitui políticas estruturais: é preciso integrá-lo a uma rede de sinalização turística, capacitar comerciantes do entorno e garantir manutenção permanente. Mas a iniciativa já carrega em si um legado pedagógico.
Investindo em arte pública (e não em mera peça promocional), Tatuí demonstra que seu projeto de turismo não se resume a receber visitantes – mas a requalificar a cidade para quem nela vive.
O binômio “fruição coletiva e vivências integradas”, mencionado na divulgação do novo atrativo, deixa claro: o espaço público é o palco onde se encena a identidade de uma estância.
Quando o bicentenário chegar, em agosto, o totem terá cumprido sua função cronológica. Mas seu valor permanecerá como testemunho de um momento decisivo: a cidade que já era Capital da Música soube usar sua história não como âncora, mas como trampolim. E que, ao fazer isso, entendeu que o título de estância turística não é um destino – é o início de uma reinvenção contínua.







